A participação de negros (pretos e pardos) como postulantes a cargos eletivos nas Eleições 2026 no Espírito Santo cresceu em relação a 2022. Esse grupo representava 50,83% dos candidatos em 2022 (367 de 722 aptos) e em 2026 passou para 52,24% (303 dos 580 candidatos totais).
Apesar do crescimento, as candidaturas de pretos e pardos estão concentradas nas disputas proporcionais, como as dos cargos de deputado federal e deputado estadual. A presença ainda é tímida ou inexistente quando se trata de cargos majoritários, como os de senador e governador.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também mostram que, no Espírito Santo, o crescimento não ocorreu de forma uniforme entre as subcategorias de autodeclaração. Os candidatos que se autodeclaram pardos tiveram aumento de representatividade, saltando de 33,93% (245 candidatos) em 2022 para 37,59% (218 candidatos) em 2026.
Já as pessoas que se autodeclaram pretas tiveram redução entre os postulantes, caindo de 16,90% (122 candidatos) em 2022 para 14,66% (85 candidatos) em 2026.
Outra característica das candidaturas negras em 2026 no Espírito Santo é a concentração em cargos legislativos. Não há nenhum preto ou pardo entre os cinco candidatos a governador. Essa ausência repete o cenário de 2022, ano em que o cargo de governador também não registrou candidatos pretos (havia apenas 1 pardo, correspondendo a 11,11% na época).
Entre os candidatos a vice-governador, aparece em 2026 uma candidatura preta entre as cinco registradas, número maior que em 2022, quando não havia nenhuma dessa cor na disputa pelo cargo.
Na disputa pelo Senado, houve queda na diversidade. Em 2022, 33,33% dos candidatos ao Senado eram pretos (3 de 9 candidatos). Já em 2026, a representatividade preta caiu para 9,09% (1 de 11 candidatos), enquanto os brancos ocupam 72,73% (8 candidatos) das vagas em disputa.
Os dados do TSE mostram que a presença negra na disputa pelos cargos de deputado estadual e federal é majoritária, superando a metade das candidaturas de cada cargo.
Deputado Federal: Os negros representam 54,81% dos concorrentes em 2026, somando 56 pardos (41,48%) e 18 pretos (13,33%)
Deputado Estadual: Os negros compõem 51,74% do total de candidatos, sendo 146 pardos (36,32%) e 62 pretos (15,42%)
Nas suplências ao Senado em 2026, os candidatos pretos e pardos somam 45,45% para 1º suplente (3 pardos e 2 pretos) e 54,54% para 2º suplente.
Ao analisar o percentual de candidatos negros lançados pelos partidos, em algumas das legendas houve crescimento em relação ao pleito de 2022.
Em alguns partidos, a alta superou os 20 pontos percentuais. São os casos de Solidariedade, Rede, PV e Novo. O Solidariedade, por exemplo, tinha 56,67% de negros entre os candidatos em 2022, número que passou para 85,71% agora em 2026, alta de 29,04 pontos percentuais.
Já a Rede tinha 61,29% de pretos e pardos entre os postulantes na eleição passada e agora são 90%, crescimento de 28,71 pontos. O PV tinha 12,5% de negros em 2022 e, neste ano, está em 40%, subindo 27,5 pontos percentuais. O Novo tinha 33,3% de negros em 2022 e agora em 2026 está em 58,54% aumento de 25,2 pontos percentuais.
Entre os partidos novos em 2026 (sem candidatos em 2022), o PRD já começa a disputa com 83,33% de candidaturas negras.
Para Mariana Cazé, pós-graduanda em Ciências Sociais da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a ausência de candidatos negros nas majoritárias tem relação direta com o próprio funcionamento do sistema político-eleitoral.
Ela detalha que as candidaturas negras continuam concentradas, principalmente, nas disputas proporcionais para o Legislativo, nas quais a distribuição das cadeiras considera o desempenho eleitoral dos partidos/federações e, depois, dos seus candidatos, por meio dos critérios de quociente eleitoral e partidário. Isso tem ocasionado maior entrada de pessoas negras para os cargos.
Já nas disputas majoritárias, a competição é mais diretamente centrada na figura dos candidatos, o que envolve, historicamente, maior investimento financeiro, tempo de propaganda e visibilidade.
"Não basta perguntar quantas pessoas negras estão se candidatando. É preciso questionar quais candidaturas recebem mais recursos, maior estrutura partidária e melhores condições reais de competitividade", afirma.
A especialista considera que o crescimento das candidaturas pretas e pardas é uma conquista importante, mas ainda é insuficiente. Para ela, o desafio agora é transformar presença em poder político. Isso significa garantir recursos, espaço dentro dos partidos, condições de competitividade, proteção contra a violência política racial e acesso também às disputas majoritárias.
"A ausência de candidaturas negras ao governo do Estado é bastante simbólica nesse sentido. Mostra que ainda existe uma espécie de limite informal sobre quais espaços de poder a população negra pode ocupar. Temos avançado na entrada de pessoas negras na política institucional, mas ainda precisamos avançar para que possam disputar e ocupar os cargos mais altos' dessa estrutura", pondera.
Mariana acrescenta ainda que, no Espírito Santo, é importante olhar para além do número bruto de candidaturas. Segundo ela, é preciso analisar quem são essas candidaturas, onde estão concorrendo, quanto receberam de recursos, quais contaram com apoio partidário e quais, efetivamente, conseguiram se tornar competitivas.
"É preciso compreender até que ponto o eleitorado reconhece e confia nas candidaturas negras. É aí que conseguimos enxergar a dimensão real da desigualdade racial na política. Infelizmente, hoje o cenário caminha a passos lentos para uma competição que se diga igualitária com as candidaturas negras", afirma Mariana.
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