Publicado em 18 de agosto de 2025 às 17:45
O juiz da 2ª Vara Criminal da Serra, Gustavo Grillo Ferreira, deu cinco dias para o Ministério Público do Espírito Santo (MPES) responder sobre a possibilidade de os quatro vereadores e dois ex-vereadores do município – denunciados por suposta participação em um esquema de propina na Casa de Leis – firmarem Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com a Justiça. Na prática, o Judiciário solicita à promotoria para estudar o possível uso de medidas alternativas previstas no Código Penal, geralmente adotadas em crimes cometidos sem violência.>
Na decisão proferida nesta segunda-feira (18), à qual a reportagem de A Gazeta teve acesso, o magistrado afirma que a falta de manifestação do Ministério Público sobre o ANPP na peça acusatória configura um vício procedimental relevante por inviabilizar o controle judicial e o exercício da defesa. O MPES foi procurado para comentar a decisão do juiz da 2ª Vara Criminal da Serra, mas explica não ter sido oficialmente intimado e que se manifestará quando isso ocorrer.>
Na determinação ao Ministério Público, o magistrado pontua que o acordo não poderia ser oferecido pela Justiça, por meio de decisão de ofício, em respeito ao que chama de "princípios da inércia da jurisdição e da titularidade da ação penal pública". Enquanto aguarda resposta do MPES, o pedido de afastamento dos vereadores do cargo, feito pelo próprio órgão ministerial, segue suspenso.>
Conforme o Código de Processo Penal, para ser efetivado, o acordo precisa seguir os seguintes passos: o investigado deve confessar formalmente o delito, o Ministério Público precisa propor o acordo, e o juiz deve homologá-lo, assegurando que os direitos do acusado estejam protegidos. Se o investigado descumprir as condições, o processo criminal pode ser retomado normalmente. >
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Para a celebração de Acordo de Não Persecução Penal, as infrações denunciadas devem ter sido cometidas sem violência ou grave ameaça e com pena mínima inferior a quatro anos. >
No caso de o Ministério Público se recusar a oferecer o ANPP, essa recusa deve ser expressa e fundamentada em elementos concretos do caso fático, indicando a gravidade concreta da conduta do acusado em questão. "Não é permitido que a recusa seja baseada apenas na natureza abstrata do delito ou em seu caráter hediondo, pois a lei já estabeleceu as infrações incompatíveis com o acordo", frisa a decisão do magistrado.>
O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) denunciou quatro vereadores da Serra e solicitou à Justiça, na quarta-feira (13), o afastamento imediato do cargo por suspeita de corrupção. A denúncia do órgão ainda inclui dois ex-vereadores como supostos integrantes de um esquema de propina, que chegaria a R$ 100 mil para os envolvidos, para aprovação de um projeto de lei encaminhado pela prefeitura em 2024. >
Os indícios de crime são descritos pelo MP com base em um áudio de uma reunião entre os denunciados, em que eles teriam negociado vantagens indevidas.>
Os vereadores em exercício citados no requerimento são Saulinho da Academia (PDT), presidente da Câmara; Cleber Lima Pereira (MDB); Wellington Alemão (Rede); e Teilton Valim (PDT). Com exceção de Teilton, todos integram a Mesa Diretora da Casa. Os outros nomes citados na denúncia são dos ex-vereadores Luiz Carlos Moreira e Aloísio Ferreira Santana, que intermediariam interesses de um empresário para construção de uma clínica. A denúncia não cita o empresário envolvido no suposto esquema.>
O pedido de afastamento leva em conta indícios de corrupção passiva — crime que se caracteriza quando um agente público solicita, recebe ou aceita promessa de vantagem indevida em razão do cargo. Segundo a denúncia apresentada à Justiça, anexada ao requerimento, os parlamentares teriam solicitado e aceitado promessa de vantagem indevida no primeiro semestre de 2024. Já Moreira e Santana seriam os responsáveis pela promessa de pagamento.>
Para o MPES, o afastamento dos vereadores é necessário porque as condutas investigadas guardam relação direta com o exercício dos mandatos. Dessa forma, o pedido tem o objetivo de prevenir que os parlamentares continuem a cometer irregularidades ou atrapalhem as investigações.>
Procurados por A Gazeta na quinta-feira (14), Saulinho, Wellington Alemão, Clebinho e Teilton disseram que ainda não haviam sido oficialmente notificados sobre o pedido. Moreira afirmou não ter sido informado sobre a denúncia. A reportagem, na ocasião, não conseguiu contato com Aloísio Santana.>
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