Quando se lança na disputa para comandar o Executivo — presidente, governador ou prefeito —, o candidato não faz essa caminhada até o dia da votação sozinho. Na composição, que pode ou não reunir outros partidos, a figura do vice tem peso, a ponto até de consolidar apoios e a construção de uma candidatura mais robusta e nada decorativa. Mas você sabe quais são os critérios utilizados para a escolha do vice em uma chapa eleitoral?
Três critérios dominam essa escolha, segundo observa o cientista social e mestre em Ciência Política Deivison Souza Cruz: complementaridade, aliança e confiança. Ele diz que o vice deve trazer o que falta ao titular (região, eleitorado, imagem) e o pacote do partido dele, como tempo de TV, estrutura, palanques e apoio futuro.
"Como o eleitor vota na chapa inteira e o vice é o sucessor imediato, a vaga só vai a quem soma votos e merece herdar o cargo."
Vale observar que o vice pode substituir o titular no cargo em caso de viagens, renúncia, morte, cassação ou impeachment. Portanto, quem ocupar essa função deve ter a confiança de quem estiver na cabeça de chapa.
É por isso que, até as vésperas do fim do prazo legal para a realização das convenções partidárias, nesta quarta-feira (5), são realizadas muitas tratativas. Pré-candidato ao governo do Estado, o ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), por exemplo, ainda não definiu o vice.
Aliados tentam emplacar nomes. As articulações seguem movimentando o cenário político e podem se estender até a data-limite para o registro das candidaturas, em 15 de agosto.
O governador Ricardo Ferraço (MDB), que vai tentar a reeleição, também só tornou pública a sua decisão nesta terça (4), após muitas negociações, opiniões divergentes entre apoiadores e até ameaça de rompimento.
Deivison Souza Cruz diz que a decisão opera em dois tempos: na
campanha, soma recursos; no governo, define sócios (coalizão de
governo). Um vice de partido aliado amplia tempo de TV e verbas,
porque esses recursos seguem o tamanho das bancadas. Após a posse, o
mesmo acordo vira base no Legislativo, sendo o vice fiador da
coalizão.
"Quando a aliança é apenas eleitoral, a conta chega. O sócio cobra espaço e governar encarece", analisa.
Questionado sobre como características geográficas e demográficas influenciam a opção por outro nome para compor a chapa como vice, o cientista social explica que esses atributos funcionam como mapa de compensação. Significa dizer que o vice cobre o território, o perfil do público ou a faixa ideológica em que o titular é fraco.
Dessa maneira, um candidato da Região Metropolitana pode buscar um vice no interior. Ou um nome considerado radical procura um moderado. Assim como gênero, idade e religião, afirma Deivison, ampliam o espelho social da chapa. Helder Salomão, candidato ao governo pelo PT, é de Cariacica e optou por uma mulher de São Mateus, no Norte capixaba, numa composição para reforçar essa complementaridade.
Para o cientista social, o vice é um sinal sobre como o titular trata as próprias fraquezas. Um cabeça de chapa inexperiente ganha lastro com alguém de longa trajetória, bem como um candidato com rejeição em um segmento modera a imagem ao escolher alguém bem-quisto nessa área.
Ainda assim, Deivison sustenta que esse efeito tem limites porque o voto é definido pelo titular. O vice atenua rejeições mais do que gera adesões.
Quando a chapa é eleita, uma nova etapa se apresenta: com funções combinadas, o cientista social pontua que a diferença que ajudou a compor a candidatura pode virar ponte e o vice pode fazer a intermediação com a bancada no Legislativo. Mas, se não houver esse pacto, tudo pode virar disputa por espaço.
"Como o vice sucede o titular em caso de vaga, qualquer crise o transforma em alternativa de poder e essa condição alimenta desconfiança, trava nomeações e abastece a oposição", diz o cientista social.
Então, a decisão pelo nome do vice não é uma escolha simples. Muitos fatores são ponderados para que, na campanha e, em eventual eleição, a composição funcione bem.
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