Durante uma ida à praia em março de 2024, a dona de um apartamento localizado em um edifício de alto padrão da Praia da Costa, em Vila Velha, teve mais de R$ 700 mil em dinheiro, joias e outros pertences furtados de dentro do imóvel. Dois anos depois, a Polícia Civil concluiu a investigação, que revelou uma quadrilha altamente especializada em crimes semelhantes.
Segundo o chefe do Departamento Especializado de Investigações Criminais (Deic), delegado Gabriel Monteiro, a escolha dos alvos é feita pela internet, a partir de dados obtidos na chamada deep web. As buscas são feitas, inclusive, em diferentes idiomas, como português, espanhol, inglês, árabe, chinês, entre outros.
“Eles sabem quem tem renda alta e quem não tem porque eles têm acesso a sites hospedados até fora do Brasil. Conseguem informações detalhadas, como nome completo, endereço, telefone celular, endereço do condomínio, telefone da portaria do condomínio em alguns casos, imposto de renda, veículos e até assinaturas digitais da pessoa. Com esse acesso, eles não vão no escuro. Eles estudam muito bem (cada vítima)".
O apartamento furtado em 2024 pertence à ex-participante de um reality show, que mora na Inglaterra e vinha ao Espírito Santo somente em alguns momentos do ano. Para adentrar o local, duas jovens, agora identificadas como Rayssa Carneiro Arruda, de 20 anos, e Maria Luyza Silva de Oliveira, 20 anos, se passaram por parentes da moradora para ter acesso ao condomínio.
“Essas duas meninas entraram no edifício e a zeladora estava neste momento na portaria, porque o porteiro tinha ido resolver uma pendência – o que já é uma falha na segurança. A zeladora perguntou para onde estariam indo, e elas falaram que estavam indo ao apartamento 301, dizendo que eram netas da senhora. Quando a zeladora disse que ia interfonar, uma dessas meninas começou a apresentar nervosismo, gritando, xingando, e ela, com medo de perder o emprego, acabou liberando a entrada".
Elas subiram, arrombaram a porta do apartamento e passaram cerca de 40 minutos em seu interior, saindo, em seguida, com duas malas.
“E como eles sabem que não tem ninguém em casa? Telefonam para a casa. Ligam e ninguém atende, depois batem na porta. E quando ninguém atende, arrombam a porta. Elas saíram do apartamento com duas malas, cujo conteúdo deixou um prejuízo de mais de R$ 700 mil, o carro já estava esperando, e foram embora para onde estavam hospedados.”
Até isso é pensado para dificultar a identificação do grupo. Via de regra, só permanecem uma noite na cidade, pagam a hospedagem em dinheiro e se locomovem usando carros alugados.
Neste furto em específico, o rastreamento de um aparelho levado do apartamento permitiu que a polícia localizasse a pousada onde haviam se hospedado.
No local, o dono informou que dois casais haviam se hospedado, mas somente Joel da Silva Santana, de 43 anos, que é pai de Maria Luyza, havia apresentado documentação. E o número de telefone fornecido por ele no cadastro não lhe pertencia: era de Rayssa Carneiro Arruda, de 20 anos, que deu suporte ao crime à distância.
“Essa Rayssa tem vasta ficha criminal, e os pais dela também, por vários desses crimes”, frisou o delegado, explicando ainda que ela era a responsável por receber os produtos dos furtos e dar destinação a eles, repassando a receptadores.
Foi a partir da identificação de Rayssa e Joel que Maria Luyza e Carolina, que invadiram o apartamento, foram descobertas. Um quinto indivíduo envolvido no crime ainda não foi identificado.
“A gente percebeu que não há uma participação nem do porteiro, nem da zeladora, mas há uma falha da segurança e eles se utilizam disso para entrar no prédio. Ou eles falam que são parentes, ou eles ligam para a portaria, se passando por morador, e pedindo que liberem a entrada. O que a gente indica: que os porteiros liguem para o morador, que façam uma lista de visitantes…”