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Expedição Trindade: ilha capixaba atrai pesquisadores do país inteiro

O arquipélago está localizado a mais de 1.200 quilômetros da costa de Vitória e é berçário de espécies de plantas e animais. Uma equipe de A Gazeta visitou a região e revela os segredos da ilha

Publicado em 08/12/2019 às 09h45
Atualizado em 18/12/2019 às 18h18
A Gazeta acompanhou uma expedição de pesquisadores da Ufes até a Ilha da Trindade. Crédito: Carlos Alberto Silva
A Gazeta acompanhou uma expedição de pesquisadores da Ufes até a Ilha da Trindade. Crédito: Carlos Alberto Silva

Localizada a aproximadamente 1.200 quilômetros de Vitória, a Ilha da Trindade é um verdadeiro paraíso.  De formação rochosa por conta das erupções vulcânicas, o arquipélago ostenta samambaias gigantes e é berçário para diversas espécies de animais que só existem por lá.

Por causa da sua posição estratégica para a defesa do país, o local é ocupado permanentemente pela Marinha brasileira, que mantém o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade, o Poit . O acesso de turistas é proibido e as visitas são permitidas  apenas para os militares e pesquisadores.

A reportagem de A Gazeta foi autorizada a acompanhar um estudo sobre a formação das chuvas e rios na região, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Participamos, no mês de outubro,  de uma expedição que durou oito dias. Nessa aventura, embarcamos no Navio Doca Multipropósito Bahia, a segunda maior embarcação da Marinha, em uma viagem repleta de curiosidades.

O Bahia é um navio francês que já participou de missões de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A embarcação possui sete andares, sala de comando, refeitórios, cozinha, padaria, sala de máquinas, administração, dormitórios e três porta-helicópteros. O navio é tão grande que, na expedição até a Ilha, estavam a bordo 700 tripulantes e 13 pesquisadores.

A VIAGEM

Até chegar à Ilha, foram três dias de viagem navegando pelo Atlântico Norte. No navio, participamos de uma simulação de incêndio e de resgate, conhecemos a área de comando – chamada de passadiço – liderada pelo comandante Alexandre Assano.

As primeiras horas a bordo foram de muito enjoo. Como somos marinheiros de primeira viagem, precisamos nos acostumar com o balanço do navio. Para superar o mal-estar, a recomendação era manter a barriga sempre cheia. Essa parte não foi difícil, já que o dia começava com um café da manhã que tinha até pão fresquinho feito pelo padeiro da embarcação – por dia, ele preparava 1.400 unidades. Depois vem o almoço, o jantar e, à noite, para finalizar, ainda era servido um lanche.

No trajeto até a ilha, fomos presenteados por situações deslumbrantes da natureza, como o nascer e pôr do sol na imensidão do mar azul turquesa, e ainda a lua cheia e as estrelas que embelezaram as noites. Cenas vivenciadas que mereciam compor um belo quadro a ser pendurado em lugar de destaque na parede da sala.

CHEGADA

Após três dias embarcados, nos aproximamos da Ilha da Trindade bem cedo. O horário local está uma hora atrás em comparação a Vitória e fomos recepcionados pelos primeiros raios de sol do Brasil. O desembarque foi de helicóptero e, de imediato, nos impressionamos com a coloração das formações rochosas.

A ILHA

Trindade é pouco conhecida pelos brasileiros. A ilha está localizada na extremidade oriental de uma cadeia de montanhas de vulcões submarinos inativos que remete a cerca de 3,5 milhões de anos, chamada de Cadeia Vitória-Trindade. O arquipélago de Trindade e Martim Vaz são os únicos pontos emersos e formam um arquipélago.

A ilha é ocupada permanentemente por militares – destacados pela Marinha do Brasil – que passam um período de dois meses no local. A ocupação é para garantir a soberania brasileira sobre a ilha e atender ao requisito para a existência de uma Zona Econômica Exclusiva, garantindo ao país uma área de 200 milhas náuticas ao se redor (cerca de 370 km), como previsto na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM).

No Poit, ficam alojados cerca de 30 militares. O local possui dormitórios, refeitório, gerador, água encanada e uma estação meteorológica. Não há sinal de internet nem de celular. A única forma de comunicação com o continente é por meio de uma cabine telefônica.

UM POUCO DE HISTÓRIA

O passado da Ilha da Trindade é repleto de histórias. Uma delas, marcante no imaginário de seus visitantes, é a presença de piratas que teriam escondido um tesouro sob o seu terreno acidentado. Teve ainda a ocorrência de uma batalha naval travada entre dois cruzadores: um da Alemanha e outro da Inglaterra, no início da Primeira Guerra Mundial.

Em 1501, a ilha serviu como um entreposto para traficantes de escravos e sofreu duas ocupações: uma inglesa e outra portuguesa.

Em abril de 1700, o famoso astrônomo Edmond Halley -  o mesmo do cometa - desembarcou na em Trindade durante uma expedição para realizar medições magnéticas para o governo inglês. Na ilha, ele inseriu várias espécies de animais, como cabras e porcos, com a intenção que servissem de alimento para as tripulações dos navios ou eventuais náufragos. Porém, com o passar dos tempos, os animais se proliferaram e devastaram grande parte da vegetação nativa.

 PESQUISAS

A Ilha da Trindade atrai pesquisadores de universidades de todo o país, selecionados pelo Programa de Pesquisas na Ilha da Trindade (Protrindade). Para recebê-los, o programa construiu uma Estação Científica, com laboratórios e acomodações que comportam oito pessoas.

 Crédito: Carlos Alberto Silva
Crédito: Carlos Alberto Silva

Trindade é um laboratório a céu aberto. Diversas pesquisas analisam o relevo, as cadeias marinhas, corais, pássaros e caranguejos que compõem aquele paraíso. A reportagem companhou o trabalho desenvolvido pelo pesquisador Gabriel Nogueira, com orientação do professor universitário Eberval Marchioro, ambos da Ufes, que analisam a formação dos rios da Ilha.

“A Ilha da Trindade tem uma característica muito peculiar, que é a associação ao relevo oceânico de região vulcânica. Isso nos despertou interesse para desenvolver estudos de hidrogeomorfologia, onde avaliamos, por exemplo, a ação da água sobre a evolução do relevo”, detalhou o professor.

Para realizar a pesquisa, Gabriel passou dois meses na Ilha. Fomos conhecer o trabalho dele de perto em um passeio pelos vales rochosos repletos de caranguejos e plantas endêmicas da região até o ponto mais alto da Ilha. Toda saída do Poit é supervisionada por militares, que garantem a segurança e dão apoio logístico aos pesquisadores.

Grande parte do trajeto foi feita no meio das rochas que há milhares de anos passam por processo erosivo. Uma parte já se tornou sedimento, em que a vegetação toma conta. Um dos grandes destaques dessa vegetação é a floresta de samambaias gigantes, que têm mais de dois metros de altura.

 Crédito: Carlos Alberto Silva
Crédito: Carlos Alberto Silva

A Ilha da Trindade possui uma sequência de cumes e picos. O ponto mais alto é o Pico do Desejado, onde chegamos após duas horas de subida. Enquanto fazíamos esse percurso, o tempo virou completamente. Fomos cobertos por um nevoeiro de deixar as orelhas geladas, mas logo o sol apareceu novamente. São esses nevoeiros com massa de ar fria que formam as precipitações de chuvas passageiras durante o dia, chamadas de “pirajá”.

São nesses picos que Gabriel realiza as medições de sua pesquisa. “A ilha tem a sequência do desejado, que é essa sequência de pináculos, de cumes e de picos, e eles são os divisores de águas. O primeiro estudo que a gente fez foi para entender como que é geomorfologia de Trindade, onde está distribuída essa chuva”, explicou.

Para realizar a pesquisa, Gabriel espalhou pluviômetros. Os trabalhos começaram em março deste ano. “Os dados primários já mostram que existe uma diferença na distribuição de chuva. Os lados leste e oeste da Ilha têm distribuição de chuvas diferente, e há diferença para a chuva encontrada aqui no topo”, concluiu o pesquisador, que além das precipitações, também analisa os compostos químicos presentes nas água dos rios.

 Crédito: Carlos Alberto Silva
Crédito: Carlos Alberto Silva

AVES E OS CARANGUEJOS AMARELOS

A ilha possui uma diversidade de aves que só se reproduzem por lá. Trindade é ainda um berçário para a reprodução de tartarugas-verdes. Por causa da riqueza ecológica, hoje o arquipélago de Trindade e Martim Vaz é uma Área de Proteção Permanente (APP), mantida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Além das aves e das tartarugas, o local possui moradores ilustres que estão por todo o canto: os caranguejos-amarelos, chamados carinhosamente de Johon. O apelido vem do nome científico desses crustáceos: Johngarthia lagostoma. Os encontramos em toda a Ilha, inclusive no topo mais alto.

Os caranguejos-amarelos são os predadores mais "ferozes" de lá. Eles aparecem aos montes, principalmente à noite, comem de tudo e não se intimidam com a presença humana. Na praia, as presas são os filhotes de tartaruga.

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