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Data: 03/10/2019 - ES - Vitória - Daniel Satlher, ele foi entrevistados sobre Aids - Editoria: Cidades - Foto: Ricardo Medeiros - GZ
Daniel Sathler

"Infelizmente, eu fui carimbado pelo HIV"

Universitário conta como foi descobrir que é soropositivo aos 21 anos e como a sua vida mudou após ser infectado

Data: 03/10/2019 - ES - Vitória - Daniel Satlher, ele foi entrevistados sobre Aids - Editoria: Cidades - Foto: Ricardo Medeiros - GZ
Publicado em 08/10/2019 às 16h58

“Mesmo sendo uma pessoa que sempre estudou muito, que sempre esteve muito atento a todas as informações que circulam, eu não entendia muito sobre a Aids, não entendia muito sobre HIV”. A afirmação é do universitário Daniel Sathler, que aos 21 anos foi infectado pelo vírus da imunodeficiência humana. O jovem faz parte dos 508 capixabas que descobriram a sorologia positiva este ano.

Um número que pode ser ainda maior, pois devido a demora de manifestação do vírus no organismo humano, muitas pessoas não sabem que estão infectadas, como foi o caso de Daniel. Ele só descobriu dois meses após ter tido uma relação sexual sem o uso de preservativo. “Infelizmente, as pessoas não falam sobre o assunto por causa do estigma, do preconceito. E se continuar assim essa epidemia não terá fim”, afirma.

Em entrevista para A Gazeta, o universitário fala sobre sua vida, como foi descobrir que foi infectado pelo vírus HIV e de que maneira  tem enfrentado a situação.

CRIAÇÃO

"Eu nasci dentro de uma realidade privilegiada. Nasci morando com meus pais, tive uma infância normal,  tranquila e focado nos estudos. Minha família sempre se dedicou muito, se preocupou muito com meus estudos, com o meu profissional. Sou de um lar cristão por parte de mãe, e sempre gostei muito, tanto que isso é uma influência muito grande na minha espiritualidade até hoje."

INFECÇÃO

"Eu infelizmente fui carimbado. É esse termo, que é muito pejorativo, muito pesado, mas é um termo que é utilizado dentro desse universo HIV/AIDS, que é quando uma pessoa transmite o vírus para outra pessoa sem falar da sua sorologia ou até mesmo sem saber da sua sorologia. Para quem entende um pouco dessa realidade, sabe que é um pouco mais demorado o processo de se descobrir se você não faz exames periódicos. Eu só descobri minha sorologia quando me vi doente. Não com a AIDS, mas na crise aguda do HIV."

SINTOMAS

"Quando o vírus se encontra no nosso organismo, demora um tempo para poder se proliferar. E quando se prolifera muito, ele começa a matar as suas células de imunidade. Tem uma crise aguda, que qualquer resfriado que você pega, qualquer coisa que você pega, você fica muito mal. Foi o que aconteceu comigo. Eu tinha saído uma noite, peguei um resfriado e no outro dia de manhã já estava passando muito mal. Foi uma semana passando muito mal, e eu nem lembrava que eu tinha estado com uma pessoa, que eu não tinha usado preservativo, nem pensei nisso.

Infelizmente, a última coisa que os médicos pensam de uma pessoa que está chegando com uma inflamação na garganta, com muita febre, dor no corpo, é que ela está com HIV. É a última coisa que eles pensam, o último exame que eles pedem. Isso é muito complicado porque o exame é muito acessível e muito fácil de ser feito." 

72 HORAS CRUCIAIS

"Logo depois que você tem uma relação de risco, é comprovado que se tomar os antirretrovirais em até 72 horas, você tem quase 100% de chance de se tornar uma pessoa vivendo sem HIV. Por ausência de informação, eu não procurei o centro de referência, até mesmo por um preconceito, mesmo tendo um pouco de acesso à informação."

IDAS AO HOSPITAL

Daniel Sathler 

Universitário

"Eu lembro que quando eu passei mal, fui três vezes para o hospital. Fui primeiro para o UPA de Carapina, depois eu fui para o UPA de Praia do Suá e depois eu fui para o posto de saúde de Vitória. Eu passei cinco dias mal. Muito mal mesmo. Eu perdi cinco quilos. Eu não conseguia comer, não conseguia ficar em pé, todo o remédio que eu tomava vomitava, foi complicadíssimo"

EXAMES

"Lá para o quarto dia, eu falei com a minha irmã para a gente ir no posto de saúde de Vitória fazer o teste rápido. Fiz todos: hepatite B, Hepatite C, Sífilis e HIV. Todos deram negativos. Daí eu saí tranquilo, mas novamente voltou aquilo para minha mente: 'tem alguma coisa assim acontecendo comigo'.  A minha relação com a minha espiritualidade é muito forte, alguma coisa me induzia a procurar novamente um serviço para saber se tava tudo bem com minha saúde."

DIA DA CONFIRMAÇÃO

"No dia 28 de Fevereiro, eu peguei o ônibus no meu bairro, procurei na internet onde era o Centro de Referência mais próximo, e fui parar lá em Carapina. Fiz o teste rápido, mas antes a gente tem uma conversa com a psicóloga. O teste demora meia hora para ficar pronto, e foi meia hora de muita tranquilidade, não fiquei ansioso. E quando a psicóloga me chamou, ela falou: 'olha, deu negativo para Hepatite C, Hepatite B, Sífilis, mas deu positivo para HIV'". 

REAÇÃO

"Foi um processo de dois minutos pensando o quê que eu ia fazer, o que tava acontecendo. E a primeira coisa que eu me preocupei foi a minha mãe. Eu precisava preservar ela. Não me importo de me expor, mas eu precisava preservar a pessoa que é mais importante da minha vida, que é a minha mãe. Foi a primeira coisa que eu me preocupei."

 ANGÚSTIA E NOVO COMEÇO

"Fui para casa na angústia de pesquisar sobre o assunto. Pesquisei um pouco e me desliguei de tudo, fui tirar um tempo de meditação, tempo para pensar. Foi processo de se entender como soropositivo. E aí eu tô nessa luta até hoje, tentando me entender, tentando entender minhas complexidades, particularidades. Com o passar dos dias, as informações foram sendo digeridas, foram sendo acatadas e resolvidas dentro de mim.

Mesmo não tendo tanta informação eu sabia que tudo ia ficar bem. Tem um ditado que eu falo: 'não existe amanhã'. Eu não acredito no amanhã . O futuro não existe. O que existe é o agora. Então eu vivo o agora e tento viver as minhas relações agora, fazer tudo agora porque o amanhã não existe."

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