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Pequenas cidades do ES vivem 'boom' econômico após o auxílio emergencial

Municípios capixabas do interior registraram aumento de arrecadação de ICMS durante a pandemia em relação ao ano anterior. Em algumas delas, mais da metade da população recebeu o benefício federal

Publicado em 11/01/2021 às 04h00
Marcio Pina Coradini vendeu 30% a mais em 2020 na sua loja de material de construção em Governador Lindenberg
Marcio Pina Coradini vendeu 30% a mais em sua loja de material de construção em Governador Lindenberg. Crédito: Marcio Pina Coradini/Divulgação

auxílio emergencial, benefício pago pelo governo federal para ajudar trabalhadores na pandemia do coronavírus, injetou bilhões de reais na economia e provocou uma movimentação de recursos quase inédita nas pequenas cidades. Esse "boom" econômico foi sentido pelos empresários, que em muitos segmentos bateram recordes de vendas, mas também na arrecadação pública.

Em meio à crise , 67 cidades do Espírito Santo registraram aumento na arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em seus territórios. Os dados são da Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz) e consideram o período entre março e novembro de 2020 em relação ao mesmo período de 2019. As cidades menores foram as que registraram as maiores altas de arrecadação no período.

Em Bom Jesus do Norte Irupi, o valor relativo a esse imposto pago ao Estado pelas empresas mais do que dobrou no período analisado. Já em Governador LindenbergLaranja da Terra e Venda Nova do Imigrante, esse crescimento foi superior a 50%. (Veja dados sobre todas as cidades do Espírito Santo no fim da matéria)

Nessas cidades, a arrecadação registrada em 2020 até novembro foi a maior dos últimos cinco anos. Vitória, Vila Velha, Serra e Cariacica também tiveram variações positivas, mas bem menores, de menos de 10%.

Um dos empresários que sentiu esse movimento foi Marcio Pina Coradini, que tem uma loja de material de construção em Governador Lindenberg. A cidade arrecadou este ano R$ 1,6 milhão em ICMS entre março e novembro, 50,3% a mais que o mesmo período do ano anterior.

“Sentimos sim um aumento das vendas. A gente achou, quando começou a pandemia, que iria piorar, mas na verdade as vendas aqueceram. Vendi 30% a mais”, diz o empresário que também é vice-presidente da CDL local.

Ele aponta que o setor de alimentação também foi beneficiado. “Nunca vi tanta gente em supermercado na minha vida”, brincou. Para ele, o auxílio foi a principal causa do "boom" nos negócios. Isso porque, em geral, a renda dos trabalhadores é baixa e, em muitos casos, várias pessoas da mesma família foram beneficiadas.

Marcio Pina Coradini

Empresário em Governador Lindenberg

"O auxílio emergencial foi o principal motivo que realmente fez gerar o dinheiro. A gente vê famílias inteiras que receberam, foi muita gente. Girou muito dinheiro. Você imagina o valor para as pessoas que têm uma renda baixa. A renda praticamente dobrou"

Segundo o Dataprev, o auxílio emergencial injetou até outubro R$ 8,9 milhões na economia de Governador Lindenberg.

Já em Irupi, 51% da população recebeu o benefício. Os empresários do ramo do comércio e serviços da cidade recolheram este ano R$ 5,9 milhões em ICMS, R$ 3,3 milhões a mais que no mesmo período de 2019 (março a novembro).

Vista aérea de Bom Jesus do Norte
Vista aérea de Bom Jesus do Norte: auxílio injetou R$ 9 milhões no mercado. Crédito: Luciney Araújo

Em Bom Jesus do Norte, cidade de 9,9 mil habitantes, o auxílio emergencial injetou R$ 9 milhões no mercado, o que equivale a quase 6% do Produto Interno Bruto do município, segundo os dados mais recentes, de 2018.

Segundo o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Espírito Santo (FCDL), Geraldo Magela, nas cidades do interior do Estado foi evidente a presença de mais dinheiro na praça.

“Esse auxílio entrou e saiu de uma vez. Como houve muito investimento na questão do lar, as pessoas reformaram, compraram coisas pra casa, alimentos, é natural que o recurso passe por esses segmentos e gere mais ICMS. É muito dinheiro que veio pra praça. E não foi dinheiro que ficou guardado, ele circulou”, afirma.

Farmácia de João Tarcísio Reboli em Venda Nova do Imigrante teve crescimento nas vendas
Farmácia de João Tarcísio Reboli em Venda Nova do Imigrante teve crescimento nas vendas. Crédito: João Tarcísio Reboli/Divulgação

O empresário João Tarcísio Reboli, de 62 anos, tem uma farmácia em Venda Nova do Imigrante há 27 anos. Por causa da pandemia, a busca por artigos de saúde aumentou e consequentemente as vendas do estabelecimento também, o que foi impulsionado ainda pelo aumento da circulação de dinheiro na cidade.

“Desde o início da pandemia, a população tem procurado muitos itens de higiene, álcool em gel, vitaminas e zinco para aumentar a imunidade e também ivermectina. Sentimos no caixa uma boa diferença com relação a 2019”, contou Reboli

O aquecimento da economia no interior do Estado também impactou as vendas da loja de móveis e planejados dos empresários Jailson e Jocimar Canal, em Marechal Floriano, na região Serrana.

Com a loja há seis anos e a marcenaria de planejados há dois, 2020 foi o melhor ano dos empreendimentos. No período, além do aumento de 40% no faturamento, os funcionários contratados passaram de 13 para 20 e a marcenaria foi ampliada para atender a demanda.

Loja de móveis dos irmãos Jailson e Jocimar Canal em Marechal Floriano teve aumento de 40% no faturamento
Loja de móveis dos irmãos Jailson e Jocimar Canal em Marechal Floriano teve aumento de 40% no faturamento. Crédito: Jailson Canal/Divulgação

“Sem dúvida isso foi uma surpresa para a gente, porque pensamos que ficaríamos parados por meses e que teríamos uma crise muito grande, mas foi o contrário disso: 2020 tivemos o maior faturamento desde a abertura da loja. Tínhamos 11 funcionários e terminamos o ano com 17. O galpão da marcenaria de planejados também foi ampliado e lá temos mais três contratados”, contou o empresário Jailson Canal, de 43 anos, que viu o faturamento mensal crescer de R$ 180 mil para R$ 300 mil no período.

A percepção deles é a de que muitos moradores da cidade que não tinham renda foram beneficiados com o auxílio emergencial. Além disso, por causa do isolamento social, o município recebeu mais moradores. Pessoas que tinham casas onde passavam finais de semana na região decidiram mudar para lá para ficarem mais afastados.

“O que percebemos é que muitas pessoas que não tinham renda nenhuma, como esposas de meeiros, receberam o auxílio e vinham aqui na loja para comprar mobiliário. O setor de construção civil também está muito aquecido. Vários amigos meus que tem loja de material de construção chegaram a ficar sem estoque. Outra coisa que aconteceu foi que moradores da Grande Vitória, que tinham casa em Marechal, se mudaram para cá nesse período e compraram móveis que faltavam na casa”, contou Jailson.

DINHEIRO BENEFICIA TODA A CADEIA

Para o economista Eduardo Araújo, os dados mostram que, além de beneficiar as famílias, o dinheiro do auxílio emergencial voltou para o setor público na forma de impostos.

“Esses recurso federais circulam na economia, beneficiando não só famílias, mas acabam retornando para o próprio setor público que vai receber esse dinheiro através da tributação que incide sobre circulação de bens. Ele também chega às empresas porque faz aumentar a receita”, diz.

O especialista aponta, contudo, que o fim do benefício, que teve as últimas parcelas pagas no fim de dezembro, também deve ser sentido localmente.

O auxílio, criado em abril pelo governo federal para socorrer trabalhadores informais, desempregados, microempreendedores individuais, entre outros grupos vulneráveis, foi estendido apenas até 31 de dezembro por meio de medida provisória.

“Minha percepção é que deve se agravar a condição de renda de uma maneira geral nesses lugares. Passa a ter uma queda na renda familiar. O efeito disso sobre o emprego ocorre porque essas empresas do comércio que antes contavam com esse recurso do auxílio na praça não vão contar mais”, explica.

DÚVIDAS QUANTO AO FUTURO

As parcelas finais foram reduzidas pela metade, caindo dos R$ 600 pagos originalmente para R$ 300.

Márcio Coradini afirma que, em Bom Jesus, essa redução foi sentida de forma imediata. Ele diz estar com pensamento positivo para 2021, mas teme que, sem o recurso, as vendas voltem a cair.

“Até a eleição estava mais aquecido, depois deu uma enfraquecida. O governo encerrou o auxílio e é difícil responder como vai ficar. A gente se faz a pergunta: será que vai continuar nesse ritmo?”, questiona.

Para o economista, é possível que as fragilidades financeiras da população dessas cidades, que existiam antes da pandemia, voltem a aflorar neste ano.

“As pessoas tiveram percepção artificial de enriquecimento e isso vai se perder. Esse dinheiro, às vezes a pessoa usou até para se alavancar para outros compromissos financeiros e agora vai ter que voltar para a realidade antiga”, afirma.

OUTROS FATORES PODEM INFLUENCIAR NA ARRECADAÇÃO

O secretário da Fazenda do Espírito Santo, Rogélio Pegoretti, pondera que outros pontos podem ter contribuído para o aumento da arrecadação de ICMS nessas cidades.

“Onde tem produção de café, se um ano a produção foi exportada não houve pagamento da DUA (documento usado pelas empresas para pagar o ICMS). Se foi vendido para dentro do Brasil, houve o recolhimento de 12%”, exemplifica.

Ele pontua ainda que, em cidades menores, a chegada de uma empresa grande pode, por si só, fazer aumentar a arrecadação de ICMS em um determinado ano. “Pode acontecer também, principalmente em municípios pequenos, que uma empresa, que em um ano não pode pagar, o tributo recolher tudo junto no ano seguinte. Cada caso exige uma análise diferente”.

Com colaboração de Luiza Marcondes

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