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Indústria do ES encolhe na década e deixa ranking das 10 maiores do país

Movimento segue tendência observada em Estados produtores de petróleo. Participação do segmento de papel e celulose também diminuiu. Novos movimentos do setor dão ao ES perspectivas mais positivas para os  próximos anos

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 19/05/2021 às 02h00
Data: 20/12/2019 - Produção de celulose Suzano em Aracruz . Crédito: Sagrilo
Produção de celulose em Aracruz, no Espírito Santo. Crédito: Sagrilo/Suzano/Divulgação

A indústria capixaba tem perdido espaço na produção nacional nos últimos anos, aponta um raio-x do setor no país publicado pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Em uma década, a produção do Espírito Santo registrou queda nas quatro principais áreas da indústria (extrativa, transformação, construção e serviços), o que fez o Estado deixar a lista dos dez maiores produtores industriais do Brasil.

O estudo, que compara os biênios de 2007-2008 e 2017-2018, mostra um encolhimento de 0,7% na participação capixaba na indústria brasileira. Com isso, o Estado passou da 8ª para a 11ª posição no ranking. Foi o terceiro local com maior perda de participação na indústria nacional, atrás apenas de Rio de Janeiro (-4,44%) e São Paulo (-2,88%) — que mantém a liderança, apesar disso.

Não por acaso, os três Estados que apresentaram maior queda na participação na indústria nacional são os principais produtores de petróleo e gás do país. Na indústria extrativa, que engloba essa produção, a participação do Espírito Santo encolheu 0,87% no período, saindo de 10,03% para 9,16%. Com isso, o Estado deixou o 2º lugar entre as indústrias extrativas do país e passou para a 4ª colocação no segmento.

Um dos fatores que contribuíram para a queda na produção de petróleo foi o amadurecimento dos poços em território capixaba e a queda no volume de investimentos pela Petrobras, que, nos últimos anos, tem se dedicado a vender ativos de menor interesse para focar em áreas de pré-sal.

A expectativa, no entanto, é que na medida que a estatal "desinveste",  novas empresas entrem em campo e explorem essas áreas, conforme observou o economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado (Findes) e diretor-executivo do Instituto de Desenvolvimento Educacional e Industrial do Espírito Santo (Ideies), Marcelo Saintive.

"Podemos ter realocação de investimentos por empresas menores, para as quais talvez faça mais sentido investir nesses poços maduros. Também há boas perspectivas em relação ao setor de gás, que pode puxar muito fortemente a atividade econômica nos próximos anos, graças ao novo marco regulatório, e ajudar o Estado, que já é um grande produtor, a se tornar ainda mais competitivo."

O economista Eduardo Araújo ressaltou que outros segmentos da indústria extrativa também lidaram com situações desafiadoras nos últimos anos e estão tentando reverter o quadro anterior. É o caso da paralisação das atividades da Samarco a partir de 2015, após o rompimento da barragem da companhia em Mariana, Minas Gerais, que derrubou a produção de pelotas de minério pelo Estado.

“A empresa tinha uma participação muito importante para produção de pelotas de minério no Estado, e, com a paralisação, a produção da indústria de modo geral foi muita afetada. O Espírito Santo ficou ‘perneta’, sem uma das bases de maior relevância na sua economia”, acrescentou.

A mineradora, que já chegou a ser responsável por cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB) capixaba, só retomou as atividades no final de 2020, e, ainda assim, de forma parcial. Ele pontua, entretanto, que mesmo essa retomada gradual já ajuda a melhorar os indicadores.

Araújo apontou ainda outros fatores que contribuíram para a queda de participação da indústria capixaba não apenas na área extrativa, mas de modo geral. Entre eles, a asfixia, a partir de 2013, do Fundo de Desenvolvimento de Atividades Portuárias, o Fundap, que permitia a oferta de incentivos fiscais vantajosos em operações interestaduais.

“Houve uma mudança na regra que permitia obter crédito de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) em operações interestaduais e isso trouxe certo prejuízo para o Estado porque era um mecanismo que facilitava a atração de empresas, a geração de emprego e renda. Então, não é só o desempenho do setor, mas do ambiente.”

Na indústria de transformação, a participação capixaba encolheu 0,47%, recuando de 1,98% para 1,51% do total, o que fez com que o Espírito Santo passasse da 10ª para a 13ª posição do ranking nacional.

No ramo de papel e celulose, por exemplo, o Estado saiu do 4º lugar no ranking dos maiores produtores, com 6,87% de participação nacional, para a 8ª posição, com 5,07% da produção total.

Neste quesito, de acordo com Saintive, o avanço de outros Estados foi um fator preponderante para a queda do Espírito Santo no ranking. Ele observou, por exemplo, o caso do Mato Grosso do Sul, que saiu do 14º lugar no ranking dos maiores produtores do segmento, com 0,23% da produção nacional, para a 3ª posição, com 11,09%.

“A principal empresa do setor é a Suzano e, numa estratégia empresarial, ela priorizou novas plantas naquele Estado e para lá foram redirecionados os maiores investimentos. Não nos cabe julgar a decisão empresarial, mas isso traz um impacto e afeta o desempenho do setor de transformação como um todo.”

Ao mesmo tempo, desde então, a empresa tem realizado investimentos robustos em território capixaba, o que pode dar novo impulso à produção do setor de papel e celulose nos próximos anos. No primeiro trimestre deste ano, por exemplo, a empresa inaugurou uma nova planta em Cachoeiro de Itapemirim, voltada para a produção de papel higiênico. Além disso, tem investido em modernização do parque fabril, a fim de torná-lo mais produtivo, e na ampliação da base florestal no Estado.

Não obstante, em 2020, o segmento de papel e celulose foi o que mais se destacou na economia capixaba, junto à construção civil, que foi impulsionada pela baixa da Selic, principal taxa de juros do mercado brasileiro.

Entre os biênios de 2007-2008 e de 2017-2018, entretanto, o Espírito Santo caiu da 13ª para a 14ª posição no ranking nacional da indústria da construção, com recuo de 0,44% na participação. Em 2018, a produção capixaba na área representava somente 1,77% do total. Dez anos antes, era equivalente a 2,21%.

Já no segmento de serviços industriais de utilidade pública, que também é afetado pelo desempenho dos demais setores, o Estado passou da 11ª para a 17ª posição. A participação, que era de 2,15%, passou a 1,66% em uma década.

"É PRECISO MELHOR AMBIENTE PARA ATRAIR DIVERSIFICAR NEGÓCIOS"

A entrada de novos agentes no mercado de petróleo e gás, a retomada das atividades da Samarco e a expansão dos negócios de empresas exportadoras são alguns dos fatores que podem contribuir para que o Estado ganhe mais protagonismo na indústria nacional nos próximos anos. Ainda assim, na visão dos analistas, é urgente a melhoria do ambiente de negócios, para garantir não apenas a atração de empresas, mas a diversificação de negócios.

Conforme pontuou o economista-chefe da Findes e diretor-executivo do Ideies, Marcelo Saintive, a indústria capixaba, há algum tempo, tem se concentrado em setores específicos, como petróleo e gás, alimentício, rochas e cimentos, papel e minério de ferro. Entretanto, para que se torne mais competitivo, o Estado precisa ampliar essa gama de negócios.

“Para isso, precisamos atrair novas empresas. Mas, para que elas venham, precisam da certeza de que vão encontrar mão de obra qualificada, um ambiente que forneça condições de saúde, saneamento e infraestrutura adequada.”

Ele destacou que a necessidade de reforçar investimentos nessas áreas têm ganhado destaque na pauta do governo estadual e da própria Federação das Indústrias, mas frisa que há sempre espaço para avançar.

O economista Eduardo Araújo reforçou que alguns investimentos para aumentar a competitividade do Estado dependem ainda do governo federal, como é o caso de alguns projetos de ferrovias, portos e rodovias, cuja contribuição é de grande importância para o desenvolvimento econômico do Estado.

Ainda assim, Araújo ponderou quanto a necessidade de “fazer o dever de casa” e dialogar com as empresas, fazendo com que negócios se interessem pelo território capixaba.

“No passado, apostamos tudo na indústria do petróleo. Acreditava-se que seria o novo propulsor de desenvolvimento, após o café e a industrialização com a chegada de grandes empresas. Graças a isso, claro, conseguimos um bom desempenho fiscal. Estado e municípios foram muito beneficiados. Mas esses ganhos não se converteram em grandes avanços. É preciso investir pesado em infraestrutura logística e em áreas básicas.”

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