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Em recuperação judicial, Heringer levanta suspeita após ações dispararem

Preço dos papéis da empresa na Bolsa de Valores subiu mais de 400% desde o início do ano. Há rumores de venda para grupo estrangeiro

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 14/05/2021 às 02h01
Unidade da Fertilizantes Heringer em Viana, no Espírito Santo
Unidade da Fertilizantes Heringer em Viana, no Espírito Santo. Crédito: Heringer/Divulgação

A performance das ações da Fertilizantes Heringer nos últimos meses tem levantado a curiosidade de atores do mercado financeiro e da indústria. Os papéis da companhia, que tem unidade em Viana, no Espírito Santo, e está em recuperação judicial desde 2019, registraram alta de mais de 400% só em 2021, saltando de R$ 3,83 para R$ 18,13 em pouco mais de cinco meses.

Segundo fontes ouvidas por A Gazeta, tirando alguns rumores, não há nenhuma movimentação concreta que justifique a valorização da empresa. A própria Heringer já foi questionada pela B3, a Bolsa de Valores de São Paulo, a respeito dessa brusca oscilação e afirmou em fato relevante divulgado ao mercado que não sabe o porquê da alta dos preços das ações.

A aposta de fontes do mercado financeiro é de que se trata de especulação, provavelmente baseada em alguma informação sobre a empresa. Funciona assim: de posse de algum indício a respeito do futuro da companhia, um grupo de investidores compra ações, o que faz o preço subir. A alta, por si só, também atrai outros compradores, o que contribui ainda mais para o aumento do preço do papel, em um tipo de “efeito manada”.

As duas hipóteses mais citadas como “estopim” para essa movimentação são de uma suposta melhora nas finanças da empresa que a colocaria em posição de encerrar o processo de recuperação judicial ou a possibilidade venda da Heringer para uma empresa estrangeira.

Por outro lado, há também um certo temor de alguns analistas do mercado financeiro de que possa estar ocorrendo alguma conduta suspeita ou atraso na divulgação de informações que possa ter influência no preço das ações nesse momento.

INTERESSE DE EMPRESA ESTRANGEIRA

No caso de uma possível aquisição, a principal cotada, segundo fontes, seria a empresa suíça Eurochem, líder mundial em fertilizantes. Ela comprou no ano passado a Fertilizantes Tocantins com o plano de ocupar 15% do mercado brasileiro de fertilizantes no Brasil até 2025.

Em entrevista ao Valor, Lieven Cooreman, CEO da nova empresa, que foi batizada Eurochem Fertilizantes Tocantins, falou sobre o interesse da empresa em expandir no país através de "aquisições oportunas”.

Analistas do mercado afirmam, inclusive, que a empresa já estaria fazendo visitas às plantas da Heringer. “A empresa que está mais fragilizada e mais fácil de comprar nesse momento é a Heringer. Na minha opinião, se eles fizerem a aquisição, conseguirão alcançar a meta com facilidade”, disse um deles.

A Eurochem tem minas de químicos usados na fabricação dos fertilizantes e é uma das fornecedoras da Heringer, além de ser uma das empresas credoras no processo de recuperação judicial.

“O cara que tem minas, ele pode comprar essa empresa (Heringer) que tem misturadoras no Brasil e acesso à uma grande carteira de clientes. É um ativo que pode ser interessante para ele", avalia outra fonte.

Há, no entanto, quem desconfie dessa possibilidade, tendo em vista que outras tentativas de aquisição acabaram frustradas no último minuto. No fim de 2019, a empresa desistiu de firmar negócio com dois grupos russos quatro dias depois de a aquisição ter sido aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A Gazeta questiona a Eurochem desde segunda-feira (10) sobre um possível interesse na aquisição da Heringer, mas ainda não obteve resposta. Caso haja retorno, esse texto será atualizado.

MELHORA NAS FINANÇAS DA EMPRESA

A segunda hipótese é de que a empresa estaria obtendo resultados financeiros positivos nos últimos trimestres, o que poderia levá-la a sair da recuperação judicial em breve.

Segundo os dados mais recentes divulgados pela Heringer, houve um aumento de 75,7% no volume de entregas, que passou de 785 mil toneladas de fertilizantes em 2019 para 1,3 milhão em 2020. Segundo o comunicado, o dado “confirma o processo de forte retomada operacional da companhia''.

O crescimento, segundo fontes do setor, se deu graças ao boom das commodities, principalmente as agrícolas, no período da pandemia. Quando há o crescimento da produção no campo, também se beneficia a cadeia produtiva como um todo, como é o caso dos fertilizantes.

Com isso, a empresa reabriu duas unidades misturadoras, em Sergipe e Goiás, que haviam sido hibernadas em 2019 por conta da recuperação judicial.

A Heringer ainda assinou um acordo para a venda de outra planta, em Uberaba (MG), que também estava paralisada. O negócio foi feito com a Cibra, empresa baiana controlada pelo grupo americano Omimex, no valor de R$ 55 milhões. Ainda é preciso aprovação do Cade.

No mesmo período, contudo, o passivo da empresa também aumentou, passando de R$ 1,5 bilhão para R$ 1,9 bilhão entre dezembro de 2019 e dezembro de 2020.

EMPRESA DIZ NÃO SABER MOTIVO DE ALTA

A repentina alta das ações da Heringer não passou despercebida pela Bolsa de Valores brasileira. Em 14 de abril deste ano, quando o papel ainda valia R$ 8,04, a B3 enviou um ofício à empresa perguntando se algum fato poderia ter motivado o movimento.

“Tendo em vista as últimas oscilações registradas com os valores mobiliários de emissão dessa empresa, o número de negócios e a quantidade negociada, conforme abaixo, vimos solicitar que seja informado, até 15/04/2021, se há algum fato do conhecimento de V.S.a. que possa justificá-los”, diz o ofício.

No dia seguinte, a empresa respondeu, também em ofício, que não tinha conhecimento de nenhum evento específico que explicasse a alta. Disse apenas que a ação é de baixa liquidez e, por isso, tende a variar com frequência.

“[...] após inquirir os seus administradores e acionistas controladores, informa que não tem conhecimento de nenhum fato ou ato relevante que justifique as últimas oscilações registradas com as ações de emissão da companhia, o número de negócios e quantidade negociada, bem como de qualquer fato que não tenha sido devidamente divulgado ao mercado ou não seja de conhecimento público que possa ter justificado a movimentação das ações ordinárias de sua emissão nos pregões da B3”, diz o documento assinado pelo diretor Financeiro e de Relações de Investidores, Danton Carlos Heringer.

Ofício enviado pela B3 e resposta da Heringer

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Em maio do ano passado a empresa foi multada em R$ 250 mil por demorar a revelar ao mercado informações a respeito da recuperação judicial. Segundo processo aberto pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), entidade que disciplina e fiscaliza o mercado de ações no Brasil, a Heringer deixou de divulgar em 1º de fevereiro de 2019 fato relevante a respeito da sua situação, deixando para fazer o comunicado oficial a respeito da recuperação judicial só em 4 de fevereiro.

Por conta desse histórico, há o temor entre fontes do mercado de que possa ocorrer alguma irregularidade ou atraso na divulgação de informações que possa ter influência no preço das ações.

A Heringer foi procurada por telefone e e-mail por A Gazeta desde segunda-feira para comentar a respeito da alta no preço das ações, mas não respondeu. Caso haja retorno, esse texto será atualizado.

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