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Após tanto procurar, 52 mil desistem de achar vaga de emprego no ES

Falta de experiência, idade e ausência de oportunidades estão entre os motivos. Percentual de trabalhadores desalentados bateu recorde na pandemia

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 12/05/2021 às 02h00
Carteira de Trabalho: muitos profissionais desistem de encontrar uma oportunidade
Carteira de Trabalho: muitos profissionais desistem de encontrar uma oportunidade. Crédito: Marcello Casal/Agência Brasil

Moradora de Itararé, em Vitória, a diarista Wilbervânia Maria de Andrade, 41 anos, está há quase um ano sem trabalho. Em meio à pandemia, conseguir uma oportunidade de emprego já não é simples. Mas por causa de um acidente corriqueiro, ela fraturou um dos tornozelos e, desde então, várias portas lhe foram fechadas.

“Eu tenho andado com alguma dificuldade, mas isso não me impediu de procurar emprego. Eu precisava, e ainda preciso. O problema é que, com a crise, a situação já está difícil. Não há tantas oportunidades quanto antes e, quando veem minha situação, as pessoas desistem de contratar.  Então, depois de quase um ano vivendo desse jeito, parei de procurar.”

Ela conta que, atualmente, aguarda na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) por atendimento fisioterapêutico, pelo qual não tem condições de pagar. Enquanto isso, sobrevive de doações de amigos, que ajudam-na a se manter enquanto uma solução mais definitiva — isto é, a recuperação e uma eventual recolocação no mercado de trabalho — não vem.

Wildervânia não conseguiu achar trabalho e acabou parando de procurar. Crédito: Acervo pessoal
Wildervânia não conseguiu achar trabalho e acabou parando de procurar. Crédito: Acervo pessoal

Ainda que os motivos de Wilbervânia lhe sejam particulares, não se trata de um caso isolado. No ano passado, o número de pessoas desempregadas no Estado saltou para 263 mil, com um crescimento de 10,97% em relação a 2019 (237 mil). Mas, muito além do mero desemprego, a crise levou a novos recordes de pessoas desalentadas, isto é, que desistiram de buscar trabalho apesar da necessidade.

No Espírito Santo, foram registradas 52 mil pessoas nessa situação em 2020 — um avanço de 40,54% em relação a 2019, quando havia 37 mil desalentados em território capixaba. Também foi o ano com maior número de pessoas desalentadas desde 2012, segundo série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE.

Conforme observa a economista Danielle Nascimento, a pandemia da Covid-19 contribuiu significativamente para a elevação do número de pessoas desocupadas que não buscaram emprego no ano passado. Entretanto, essa desistência não ocorre por falta de interesse, e sim por uma série de outros fatores.

São consideradas desalentadas as pessoas que não buscam emprego por julgar que não conseguirão um trabalho adequado, por não preencherem os requisitos para as vagas disponíveis — seja por falta de experiência profissional ou qualificação necessária, por exemplo, ou por que são jovens ou idosas demais —, ou simplesmente por não haver trabalho na área em que vivem.

“Muitos ficaram desempregados durante a pandemia e simplesmente não procuraram uma recolocação porque a situação geral era de empresas fechando as portas em vez de abrir oportunidades, e não achavam que haveria vagas. Esse é um caso. Mas há outros grupos, entre eles o de pessoas que já estavam desempregadas há tempos e, depois de tanto buscar emprego, resolveram pausar essa busca porque ninguém lhes contratava.”

Ela observa ainda que, no país, de um modo geral, os trabalhadores de baixa escolaridade costumam fazer uma busca mais ativa por emprego, distribuindo currículos de porta em porta e indo presencialmente nos Sines, na esperança de contratação. Entretanto, a crise agravou a situação da financeira das famílias, que já enfrentavam dificuldades, e tornou escassos até mesmo recursos que antes eram utilizados para pagar pelo transporte público, o que dificulta essa procura por uma recolocação.

“Paralelamente, diante da crise sanitária, a maioria das instituições migrou a oferta de vagas para a internet. Mas ao mesmo tempo que isso pode ser um facilitador, também torna a concorrência mais difícil para as pessoas de baixa escolaridade, pois é comum, nesses casos, que haja dificuldade de acesso à tecnologia, seja pela renda ou pelo conhecimento necessário.”

Conforme já mostrou A Gazeta, apesar de bastante difundida, a internet, que alcança cerca de 1.2 milhão de famílias capixabas, ainda não chegou a todos os lares. No Estado, pelo menos 222 mil casas não tinham nenhuma conexão nos meses que antecederam a pandemia, número que equivale a 15,4% do total de domicílios capixabas.

Isso significa que 689 mil pessoas no Espírito Santo, com idade a partir de 10 anos, não possuem nenhuma conexão com a internet e estão fora da era digital em pleno 2021.

A especialista em Carreiras e diretora da Efetive, Gisélia Freitas, observa ainda outros fatores. Um deles é que muitos se frustram ao fazer uma busca mal direcionada, candidatando-se a qualquer oportunidade de emprego que surja, sem verificar se primeiro preenchem os requisitos para ocupar determinada posição. Isso faz com que a pessoa que está desempregada se desanime, porque nunca recebe uma resposta.

“Se eu disponibilizo uma vaga, surgem mais de 200 currículos para a mesma oportunidade. Em muitas casos, a pessoa nem tem nada a ver com aquela vaga, não preenche os requisitos, mas se candidata assim mesmo porque precisa, porque está desesperada. E de tanto insistir em algo que não dá resultado, a pessoa acaba abandonando de vez a busca por emprego."

Ela reforça ainda que, nesse cenário, tem ficado cada vez mais frequente a busca pelo autoemprego, pelo empreendedorismo. Mas mesmo essa alternativa tem se tornado fonte de estresse, porque muitos recorreram às mesmas ideias, e o mercado ficou saturado.

"Empreender ficou mais difícil porque todo mundo começou a vender comida, a fazer isso, fazer aquilo, então houve aumento de competitividade. Em alguma escala, também houve a questão dos auxílios, que ajudou as pessoas que estavam em situação de dificuldade e lhes permitiu que esperassem até que surgisse uma oportunidade que considerassem mais adequada. São vários motivos."

Para este ano as especialistas descartam a possibilidade de renovação do recorde de pessoas desalentadas. A expectativa é de que, com o avanço da vacinação contra a Covid-19, as taxas de contaminação comecem a cair e mais empresas voltem a contratar, o que tende a dar novo ânimo a quem está em busca de emprego.

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