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Alta da energia deve afetar preço do leite, da carne e até da cerveja

Associados à crise hídrica, "jabutis" na MP da Eletrobras, recentemente aprovada pelo Congresso, devem fazer com que a conta de energia pese no bolso de empresas e seja repassada aos consumidores

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 23/06/2021 às 20h44
Rodízio de churrasco do restaurante Minuano
Rodízio de churrasco: preço da carne deve ficar ainda mais caro. Crédito: Vitor Jubini

Leite, carne e cerveja. Esses são apenas alguns dos itens que podem ser afetados pela alta do preço da energia elétrica no país, segundo estudo da Associação dos Grandes Consumidores de Energia e de Consumidores Livres (Abrace). A entidade aponta que a eletricidade compõe grande parte do preço desses e de outros produtos, como dos materiais de construção e do açúcar, por exemplo. Assim, com o aumento dos custos de produção, derivado da crise hídrica e do processo de privatização da Eletrobras, o produto final também deve pesar no bolso.

Especialistas ouvidos por A Gazeta pontuam que, em maior ou menor nível, todos os setores serão afetados pela alta na conta de luz, e destacam que segmentos importantes para a economia Espírito Santo podem ser prejudicados. É o caso, por exemplo, do setor de rochas ornamentais, que é grande consumidor de energia.

 O aumento do custos com eletricidade se deve a uma série de fatores. O de impacto mais imediato é o fato de o Brasil enfrentar hoje a maior crise hídrica em quase um século, segundo avaliação do Ministério de Minas e Energia (MME), que compromete o nível de água nos reservatórios das hidrelétricas. Com risco de racionamento a partir do segundo semestre, o governo federal vem autorizando a adoção de uma série de medidas extraordinárias para tentar contornar o problema, como o acionamento de plantas termelétricas, que produzem eletricidade mais cara.

Ao mesmo tempo, “jabutis” acrescentados na Medida Provisória (MP) que trata da privatização da Eletrobras, aprovada nesta semana pelo Congresso, devem contribuir para que o custo da energia cresça ainda mais em território brasileiro.

As mudanças, que foram incluídas no texto durante a tramitação no Congresso, não têm relação direta com a desestatização da companhia, e criaram polêmica no setor elétrico e até mesmo entre os técnicos do governo. Elas incluem, por exemplo, a contratação obrigatória de 8 mil megawatts de termelétricas a gás por 15 anos em diversas regiões do país. Esse tipo de energia é muito mais cara que a hidrelétrica, principal matriz utilizada no país.

Além disso, como as áreas previstas para contratação das térmicas ainda não têm infraestrutura para receber o gás natural, será preciso construi-la, criando gastos extras milionários com gasodutos. Quem pagará essa conta será, como sempre, a população.

"JABUTIS" PODEM FAZER CONTA DE LUZ FICAR ATÉ 20% MAIS CARA

Segundo levantamento da Abrace, para o setor produtivo, os aumentos provocados pelos "jabutis" incluídos na MP da Eletrobras podem chegar a 20%. Essa alta se refletirá nos preços dos produtos e serviços fornecidos aos brasileiros.

A entidade aponta que o custo com energia elétrica representa, por exemplo, 48% do preço do leite, 34% do valor da carne, 28% do que pagamos na cerveja e 10% do gasto em materiais de construção e açúcar.

O acréscimo na conta de energia do setor produtivo pode se traduzir em um aumento de 10% no preço final do leite e de 7% na carne, estima a Abrace. A Associação destaca que esse impacto se soma um cenário já conturbado, de pressão tarifária. Conforme já anunciado pela própria Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), um novo aumento na conta de luz está previsto já para julho.

“Há setores mais impactados, e outros menos impactados, mas não há um que escape desse aumento de custos porque a energia afeta todos os setores. No caso das carnes, do leite e dos derivados, são alimentos cuja produção necessita bastante da refrigeração”, observa o economista Ricardo Paixão.

Ele explica que, para outros setores, o impacto pode não ser percebido de forma tão imediata ou tão direta. É o caso, por exemplo, do setor de serviços, em especial o segmento de eventos, já tão afetado pela pandemia do novo coronavírus.

DE SALÃO DE BELEZA AO SETOR DE ROCHAS

Paixão observa que para que um cerimonial funcione, por exemplo, precisará, durante horas seguidas, de luzes ligadas, equipamentos eletroeletrônicos, refrigeração, entre outros componentes que podem acabar afetando o preço final do serviço fornecido. Da mesma forma pode acontecer com um salão de beleza,  que geralmente requer o uso de diversos equipamentos ligados na tomada.

“Estamos lidando com uma alta de preços em um momento em que, na verdade, os segmentos precisam de energia com custo menor. O custo da energia no Brasil já é muito caro. Toda a cadeia de negócios que depende do uso de energia será impactada de uma forma ou de outra se nada for feito para reverter essa crise de energia.”

Um dos segmentos que também pode ser fortemente impactado, conforme observou o economista Orlando Caliman, é o de mármore e granito, cuja produção é bastante expressiva em território capixaba, sendo um dos principais produtos exportados pelo Estado.

Orlando Caliman

Economista

" Os setores mais afetados são os que usam intensamente a energia. Se você olha para o Espírito Santo, o setor de mármore e granito tem na energia um de seus maiores custos. Ele é um entre vários outros ramos que serão prejudicados. E direta ou indiretamente, o consumidor sentirá esses aumentos no bolso, seja na conta de luz, ou nos produtos e serviços consumidos, porque o custo da energia afeta tudo que se consome"

ENTENDA A CRISE ENERGÉTICA BRASILEIRA

Crise hídrica: pior seca em 91 anos

O país enfrenta atualmente a maior crise hídrica dos últimos 91 anos, segundo avaliação do Ministério de Minas e Energia (MME). Os reservatórios das hidrelétricas terminaram o período de chuvas em níveis baixíssimos. Entre setembro do ano passado e abril de 2021, o Brasil registrou o menor volume histórico de água nas represas das usinas hidrelétricas, responsáveis pela maior parte da energia gerada no país.

O baixo volume dos reservatórios afeta, principalmente, as Regiões Sudeste e Centro-Oeste, responsáveis por grande parte da capacidade de armazenamento de água em território brasileiro. Embora nos últimos meses o Espírito Santo tenha tido momentos de chuva, não é suficiente para atender ao sistema elétrico, que é interligado em todo o país.

Diante da situação crítica, no início de maio, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) autorizou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a utilizar todos os recursos disponíveis para poupar água nos reservatórios das hidrelétricas, "sem limitação nos montantes e preços associados".

Além disso, autorizou o acionamento das usinas termelétricas e também a importação de energia da Argentina e do Uruguai e a importação de gás natural da Bolívia, de modo minimizar a crise do setor de energia.

À época, o presidente da Associação Brasileira de Companhias de Energia (ABCE), Alexei Vivan, explicou, em entrevista à Gazeta, que a adoção dessas medidas excepcionais implica em aumento de custos para o consumidor, porque embora seja uma solução para o problema, a geração de energia termelétrica cria despesas mais elevadas do que a geração hidrelétrica.

Desde 2015, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) antecipa parte dos custos das térmicas por meio da cobrança mensal de bandeiras tarifárias sobre a conta de luz. Esse sistema é usado para indicar, nas mesmas cores do semáforo, se as condições de energia estão favoráveis para a geração (verde); se há uma produção moderada (amarelo); se há um custo maior (vermelha 1); ou se o patamar de geração está ainda mais caro (vermelha 2).

Esta última é a bandeira adotada pela Aneel atualmente, e implica em um custo adicional de R$ 6,24 na fatura para cada 100 kWh consumidos. Não obstante, segundo o jornal O Globo, estudos da agência indicam que o valor da bandeira vermelha 2 vai subir 60% já em julho, para cerca de R$ 10.

MP da Eletrobras: "jabutis" escondidos

Além da falta de chuvas e do baixo nível dos reservatórios de água, trechos incluídos na medida provisória (MP) de desestatização da Eletrobras podem elevar os custos da energia distribuída no país, trazendo um impacto de cerca de R$ 20 bilhões por ano aos consumidores. 

As mudanças no texto, que foi aprovado pelo Senado na segunda-feira (21) e agora vai a sanção presidencial,  incluem, por exemplo, a contratação obrigatória pelo governo de 8 MW(megawatts) em termelétricas a gás natural por 15 anos, que devem ser instaladas em Estados das regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, áreas onde ainda não existe a infraestrutura necessária.

O texto também prevê que o governo compre mais energia das pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), além de prorrogar os contratos com usinas eólicas no âmbito do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa).

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