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Publicado em 6 de setembro de 2025 às 17:19
- Atualizado há 5 meses
Uma médica de 24 anos, identificada como Maria Júlia, denunciou o vereador Oldair Rossi (União), de Guarapari, por coação durante um atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do município, no último dia 24 de agosto. Áudios divulgados pelo pai da profissional, o também médico Murilo Ferraz, nas redes sociais mostram o parlamentar ameaçando a profissional e chegando a afirmar que daria voz de prisão a ela. >
Nos registros, o vereador também faz comentários dizendo que a médica era “pequenininha” e que ela “não estava conversando com criancinha de sinal”. Em outro momento, bate na mesa e ameaça ligar para o 190.>
O caso aconteceu durante o plantão da médica na unidade. O Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES) relatou que a confusão começou após o atendimento a uma paciente que chegou à UPA com fortes dores. A médica que a atendeu seguiu todos os protocolos para esse tipo de caso; a paciente foi medicada para dor e, logo em seguida, passou por exames.>
Após a realização dos exames, a paciente retornou ao consultório, mas a médica assistente estava em um intervalo de 20 minutos para jantar. Nesse momento, a paciente já não sentia dor e decidiu ir embora, mas foi contida pelo acompanhante, que acionou o vereador.>
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“Ele queria que a gente falasse com o vereador por telefone, o que a gente não pode fazer", disse a médica. O CRM-ES explicou que isso acontece por conta da garantia de privacidade da paciente. O vereador, então, foi para a UPA e exigiu que a paciente fosse transferida para o hospital de referência de Guarapari.>
Segundo a médica, antes mesmo da chegada do vereador, ela já tentava um leito pela Central de Vagas, caso fosse necessário um procedimento cirúrgico imediato na vesícula. Foi nesse momento que as agressões verbais começaram.>
De acordo com Maria Júlia, o vereador desacatou a equipe médica, atrapalhou o atendimento de outros pacientes e ainda ameaçou mandar prendê-la. A Polícia Militar foi acionada e ouviu o depoimento de ambos.>
“Quando a polícia chegou, eu estava fazendo um atendimento de emergência e, logo depois, ainda na porta da emergência, de olho também no meu paciente, prestei meu depoimento”, explicou Maria Júlia. >
O vereador Oldair Rossi (União) publicou um vídeo nas redes sociais pedindo desculpas à médica. “Quero iniciar esse vídeo pedindo desculpas à doutora Maria Júlia, caso ela tenha se sentido diminuída, coagida ou menosprezada. Em nenhum momento quis causar qualquer mal-estar. Reconheço o seu trabalho e o trabalho de toda equipe da UPA. Não tenho dúvida de que estavam prestando o melhor serviço possível”, declarou.>
Em relação à afirmação de que a médica estaria fazendo serviço voluntário, o vereador disse que ela estava sendo remunerada pelos serviços prestados.>
“Naquele momento, não estava ali um político, mas sim um ser humano atendendo um pedido de socorro de uma mulher que por várias vezes procurou o atendimento e não foi solucionado seus problemas (sic). Preciso dizer também que há 9 meses, por negligência médica, perdi o meu irmão”, afirmou o vereador.>
A reportagem de A Gazeta tenta contato com o vereador. Em caso de retorno, este texto será atualizado. >
O presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), Fernando Avelar Tonelli, informou que a instituição encaminhou um ofício à Câmara Municipal de Guarapari e ao Ministério Público solicitando providências contra o vereador Oldair Rossi.>
“A sociedade capixaba e os gestores públicos não podem continuar aceitando e considerando como normais tais agressões contra médicos e outros profissionais da saúde. Os parlamentares não podem fiscalizar o trabalho médico. A fiscalização do atendimento médico é prerrogativa legal dos Conselhos Regionais de Medicina sob a coordenação do Conselho Federal de Medicina. A fiscalização parlamentar, que é importante, deve-se ater à gestão e a estrutura do serviço de saúde, como determina a legislação brasileira”, afirmou Fernando Avelar Tonelli.>
A Prefeitura de Guarapari, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, lamentou o episódio e informou que todas as medidas necessárias foram tomadas pela direção da unidade, garantindo suporte à profissional e a preservação do ambiente de atendimento.>
“É importante destacar que o Poder Executivo e o Poder Legislativo são independentes, cabendo a cada um responder por seus atos”, informou o órgão.>
Já a Comissão da Mulher Advogada da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Espírito Santo (OAB-ES) manifestou repúdio em relação ao ocorrido.>
“Como noticiado, o referido vereador, com pretexto de ‘fiscalizar’ a Unidade de Pronto Atendimento – UPA, não apenas desacatou a médica, mas também utilizou termos ofensivos, de cunho misógino e machista, desqualificando-a pela idade e pela estatura física, chegando ao absurdo de afirmar ser ‘fiscal da lei’ e ameaçar prendê-la”, destacou.>
Além disso, informou que, ao invés de se retratar, o parlamentar levou sua fala ao plenário da Câmara Municipal para difamar a médica.>
“Reiteramos que idade e aparência jamais podem ser critérios de avaliação da competência de uma mulher, independente da profissão. A Dra. Mª Júlia é médica, profissional devidamente habilitada, cuja dedicação ao trabalho voluntário representa um gesto nobre e de imenso valor social. É profundamente lamentável que, diante de agressões dessa natureza, a sociedade venha a perder a colaboração de uma profissional que, por sua entrega e coragem, fazia a diferença na saúde pública local”, afirmou.>
O deputado federal Gilson Daniel (Podemos) pediu, em plenário, na quarta-feira (3), respeito aos profissionais da medicina e solicitou que o Conselho Regional de Medicina e a Câmara Municipal de Guarapari adotem as devidas providências.>
"Esse vereador entrou na UPA na noite de domingo com palavras fortes, gritando e agredindo essa profissional de saúde. Muitos médicos têm sofrido isso no Espírito Santo, eu quero acionar aqui o CRM que tome providências e a Câmara Municipal de Guarapari com relação a este vereador", disse o parlamentar. >
Em nota, a Polícia Militar informou que foi acionada para atender uma ocorrência de desentendimento na UPA e que os policiais ouviram as duas versões. O vereador afirmou que exercia sua função de fiscalização e questionava por que os atendimentos de emergência não estavam sendo encaminhados ao Hospital Geral Dr. Luiz Buaiz (HIFA), como, segundo ele, havia sido previamente acordado no município. >
Já a médica relatou que o homem estava exaltado e, em voz alta, exigia a realização de um procedimento cirúrgico em uma paciente. A médica defendeu que a conduta clínica adotada para o caso era de apenas medicar e liberar a paciente, contrariando a demanda do vereador. >
"Após a mediação da guarnição, as partes foram orientadas. A médica informou que não tinha interesse em registrar uma representação formal no momento. O vereador se retirou do local", disse a corporação por meio de nota. >
A reportagem também procurou a Câmara Municipal de Guarapari e o Ministério Público. Assim que houver retorno, o texto será atualizado. >
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