Registrada pela primeira vez em outubro do ano passado, a variante indiana do coronavírus, chamada de B.1.617, foi classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como preocupação global porque pode ser mais transmissível que a cepa original do vírus.
Segundo informou o secretário de Estado da Saúde, Nésio Fernandes, na última sexta-feira (21), não há confirmação de casos de transmissão dessa variante no Espírito Santo. Ela foi identificada em tripulantes do navio MV Shandong da Zhi, que está próximo a um porto de São Luís, no Maranhão. O governo do Ceará informou que também investiga um caso suspeito.
Variante indiana - o que sabemos sobre ela e como pode impactar a pandemia no ES
"A Índia é um país com uma população enorme, é grande produtor de vacinas e insumos hospitalares e que viverá, neste mês de maio, um verdadeiro desastre epidemiológico que deve ser maior que a crise brasileira na última expansão da doença. O fenômeno da Índia tem relevância internacional tanto pela competição de insumos, medicamentos e vacinas, quanto pela possível disseminação de uma nova variante com várias mutações", disse Fernandes em coletiva de imprensa recente.
Especialistas em saúde avaliam que a cepa provavelmente se tornou mais transmissível após mutações sofridas desde a sua descoberta. O imunologista, pesquisador e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Daniel de Oliveira Gomes, ressalta que a princípio a cepa está confinada no Maranhão, já que as pessoas que tiveram contato com os infectados estão em observação.
Daniel destaca que as variantes inglesa (B.1.1.7) e a de Manaus (P1) apresentam duas mutações importantes. Uma delas se refere à capacidade de infectar indivíduos, neste caso, está relacionada a uma evolução na capacidade de causar infecção. Já a segunda mudança está possivelmente associada a possibilidade da cepa sobreviver às respostas imunológicas produzidas pelos imunizantes.
O pesquisador então questiona. “Por que a cepa indiana causa um frisson na comunidade científica?”. Segundo ele, a descoberta é preocupante “porque, além dela ter essas duas mutações, de infectividade e de autoproteção, ela tem uma terceira mutação, só que essa nova não foi associada a nenhuma função celular do vírus”.
O pesquisador da Ufes alerta que a B.1.617 “apresentou grande incidência em regiões onde pessoas foram vacinadas ou tiveram infeções primárias, sugerindo que ela possa ter melhoria genética capaz de infectar indivíduos vacinados ou que já tiveram um infecção primária. Do ponto de vista clínico, é muito preocupante porque sugere que ela possa ser mais resistente à infecção”.
Também pesquisadora da Ufes, a pós-doutora em Epidemiologia, Ethel Maciel, chama a atenção para o impacto que a chegada da nova cepa pode causar na população capixaba. Ela ressalta que ainda não há estudo que aponte a efetividade da Coronavac, principal vacina aplicada no Espírito Santo, contra a cepa descoberta há sete meses em outro continente.
“Ainda não temos dados sobre a Coronavac, que foi a vacina mais usada para imunizar os capixabas. O impacto da primeira dose da Astrazeneca foi grande no Reino Unido, mas as pessoas que tomaram as duas doses o impacto foi menor. Uma grande preocupação [no Estado], seria o escape da vacina, mais ainda, o tanto de gente que não foi vacinada. Essas pessoas vão estar mais suscetíveis, pessoas que já adoeceram podem adoecer novamente. Essa é a parte ruim”, lamenta.
O QUE SE SABE SOBRE A VARIANTE
AUMENTO DA VACINAÇÃO
Pesquisadores e autoridades de saúde seguem monitorando a presença da B.1.617 em diversos países e na própria Índia, onde foram encontradas três sub-linhagens dela. Por enquanto, o que se sabe é que ela possui 23 mutações que resultaram em trocas de aminoácidos (mudando, assim, as proteínas que formam o vírus), das quais quatro ocorreram na proteína S do Spike (espícula usada pelo vírus para invadir e infectar as células).
Duas dessas mutações já são conhecidas de outras formas do vírus por conferirem uma capacidade maior de transmissão ao invasor. A terceira mutação é muito semelhante a uma mutação encontrada nas variantes P.1 e B.1.351 (sul-africana), e permite ao vírus fugir da proteção adquirida por anticorpos neutralizantes. A mesma mutação foi também encontrada em uma possível nova variante (batizada de "P.4") na região metropolitana de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais.
Um estudo publicado recentemente testou o soro convalescente de indivíduos que tiveram Covid-19 no passado contra a nova variante e também o soro de vacinados com o imunizante Covaxin, de origem indiana, para saber se há perda de imunidade, e viram que não houve bloqueio da ação de neutralização dos anticorpos.
O número de pessoas analisadas foi baixo (menos de 40) e a pesquisa foi feita em laboratório, quando o ideal é avaliar a eficácia da vacina na vida real contra a nova variante. Para isso, argumentam os autores, é preciso acelerar a vacinação no país para tentar reduzir drasticamente o número de novos casos e óbitos.