Tribunal do Júri de Vitória
Tribunal do Júri de Vitória. Crédito: Farley Sil/Arte Geraldo Neto

Promotores enxergam "concretização do mal" na morte de Milena Gottardi

Para os representantes do MPES que atuam no julgamento dos seis apontados como os responsáveis pelo assassinato da médica, o crime foi praticado com "extrema covardia e requintes de crueldade", com premeditação e frieza que os deixou chocados

Vitória / Rede Gazeta
Publicado em 20/08/2021 às 18h26

Os três promotores de Justiça que atuam no julgamento dos seis apontados como os responsáveis pelo assassinato da médica Milena Gottardi, morta em setembro de 2017, afirmam que o crime foi executado com tamanha crueldade, premeditação e frieza que os deixou chocados. Para os representantes do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), na trama é possível “enxergar a concretização do mal".  

“Um crime praticado por motivo egoístico, sob mando da pessoa que à época era marido e não aceitava a separação, com outras pessoas. Um crime praticado com extrema covardia e requintes de crueldade gigantes, com situações de premeditação, algo que em 15 anos de Ministério Público eu nunca tinha visto. Uma frieza que nos deixa chocados. Neste processo você enxerga a concretização do mal”, assinalou o promotor Rodrigo Monteiro em coletiva de imprensa na tarde desta sexta-feira (20).

O assassinato de Milena, segundo o promotor Bruno Noya, foi praticado com torpeza. “Além disso, foi feito de forma a dificultar a defesa da vítima. Milena foi emboscada. Um feminicídio, porque foi pela condição dela ser mulher. Há provas suficientes de todas estas qualificadoras. Estamos convictos que a Justiça prevalecerá”, assinalou.

Outro ponto, segundo o promotor Leonardo Augusto de Andrade Cezar dos Santos, é que houve fraude processual. “É  de menor potencial ofensivo, mas eles praticaram crime de tentar inovar a prova, para tentar induzir o juiz a erro”, explica.

Ele relata que desde que os acusados começaram a tramar o crime, a ideia era forjar um latrocínio - assalto seguido de morte. “Tanto que o tempo todo a narrativa fictícia era a de roubar o celular da vítima. A artimanha dos réus foi a de praticar um homicídio, mas travesti-lo de latrocínio, para tirar foco e a motivação que ligasse aos mandantes e intermediários, para ludibriar a Justiça”, explicou o promotor Leonardo.

Mas as investigações policiais provaram o contrário, explicou o promotor Rodrigo. “Foi provado que não houve latrocínio, mas homicídio triplamente qualificado, praticado com a clara e inequívoca tentativa de enganar a justiça. Temos dezenas de circunstâncias que demonstram premeditação, o desejo de praticar o crime, o interesse inclusive de que fosse em outra comarca, fora de Vitória”.

Um crime, acrescenta Rodrigo Monteiro, que foi planejado com antecedência. “Tentou-se realizar este crime em outro dia, mas em razão alheia aos acusados, ele não aconteceu. Os acusados estiveram outras vezes no hospital e não conseguira matar a médica. E no dia 14 de setembro de 2017, conseguiram executar. A tramoia, a organização prévia, a premeditação, é algo cristalino, tal como água mineral”.

Caso Milena Gottardi
Milena Gottardi  em sua formatura. Crédito: Acervo da família

AMEAÇAS ATÉ AO EXECUTOR

Outro ponto, segundo o promotor Leonardo, que revela a maldade dos acusados, é o pedido de escolta especial solicitada pela defesa do Dionathas Alves Vieira, por temer coações, ameaças e intimidações por parte dos demais réus. Segundo o promotor, isto aconteceu em outra audiência.

“As ameaças aconteceram em audiência, está na ata. Queriam que ele mudasse o depoimento, retirasse dois outros acusados da cena do crime, prometendo advogado, dinheiro e ajuda a família”, relata o promotor Leonardo. Na avaliação dele, esta é mais uma demonstração da maldade.

Leonardo Augusto de Andrade Cezar dos Santos

Promotor de Justiça

"O próprio executor, que assassinou a médica a sangue-frio, teme os demais réus. Pensem a grandiosidade da maldade dos demais réus. Neste caso, o mal deixou de ser um substantivo abstrato para se transformar, no caso da morte dela, em um substantivo concreto"

Outro ponto destacado pelos promotores é que o crime foi praticado contra uma médica que cuidava de crianças com câncer, diz Monteiro. “Uma mulher jovem, mãe de duas crianças, médica, trabalhava com oncologia pediátrica em dois locais, além de prestar serviço voluntário”.

“Ao matarem Milena, não mataram somente a filha, irmã, amiga, mas a médica que tratava crianças com câncer, algumas em estado terminal, que trabalhava de graça. Além da família e dos amigos, centenas de famílias, que demoraram um tempo para construir uma relação de confiança com a médica, tiveram assassinada a esperança de tratamento, de cura”, acrescentou Monteiro.

Os três promotores assinalam que estão confiantes na condenação dos seis réus. “Matar Milena também matou um pouco de você que é filha, irmã, mãe, mulher. O Ministério Público do Espírito Santo não vai permitir, em nenhum momento, que esta dor, lágrimas derramadas e sofrimento tenha sido em vão. Não vamos descansar enquanto a Justiça não for feita”, assinalou Leonardo.

Zilca Gottardi, mãe de Milena. Entrevista coletiva sobre o julgamento dos acusados de matar a médica Milena Gottardi.
Zilca Gottardi, mãe de Milena. Crédito: Vitor Jubini

FAMÍLIA ESPERA POR CONDENAÇÃO

Em entrevista na manhã desta sexta-feira, o advogado Renan Sales, que atua como assistente de acusação ao lado Zilca Gottardi e Douglas Gottardi, mãe e irmão de Milena, disse que está confiante na condenação dos réus. "Não temos dúvidas de que todos serão punidos. Há provas suficientes para isto”.

Ele destaca que os réus devem receber penas diferenciadas, de acordo com as suas condutas. “Caso elas sejam menores que 30 anos, vou recorrer contra a decisão”, antecipou.

Os familiares de Milena relataram que aguardam com ansiedade a conclusão do julgamento dos seis réus. “Confiamos na condenação dos réus, punição pela brutalidade praticada contra a minha irmã”, disse o irmão.

Zilca Gottardi relata que a família ainda vive com medo. “A gente sempre fica pensando se não estamos sendo vigiados”, relata. Douglas acrescentou que a família quer encerrar esta etapa, garantindo justiça para a irmã. “Para termos um pouco mais de sossego, de paz, de conforto”.

CRIME E JULGAMENTO

Seis pessoas foram apontadas como as responsáveis pelo assassinato da médica, dentre elas o ex-marido da vítima, Hilário Frasson, hoje um ex-policial civil. Todos vão ser julgados na próxima segunda-feira (23), no Fórum Criminal de Vitória, a partir das 9 horas.

DEFESA DOS RÉUS

O advogado Rodrigo Bandeira de Mello, que também faz a defesa de Hilário Frasson, assinalou que provas relevantes vão ser apresentadas ao Tribunal do Júri. “Compreendemos que esta certeza de condenação alegada pela acusação cabe somente a cada um dos jurados, após a averiguação de todos os fatos que serão mostrados durante o júri. Igualmente afirmou o Ministério Público, a defesa irá mostrar provas robustas e altamente relevantes para o caso”.

Destacou ainda que Hilario sofre com a separação das filhas. “Hilário, enquanto pai, está sofrendo alienação parental e o maior objetivo da vida dele é restaurar o relacionamento com as filhas. Respeitamos muito a dor da família da Milena e nos solidarizamos muito com ela”.

Acrescentou ainda: “Esse fato é uma grande tragédia na vida de todos. Hilário amava e ama a Milena até hoje. As maiores dores na vida dele são a perda da Milena e do relacionamento com as filhas. Vamos aclarar todo o ocorrido no momento oportuno, durante o julgamento e perante o júri popular”, disse Mello.

Leonardo da Rocha de Souza, que faz as defesas de Dionathas e Bruno, informou que, em relação a Bruno, a expectativa será a sua absolvição. “Será o nosso grande desafio. Ele está muito angustiado e espero provar a sua inocência e que a Justiça seja feita em relação a ele”, destacou.

Já Dionathas, réu confesso, quer prestar os esclarecimentos. “Espero que ele tenha tranquilidade para esclarecer todos os fatos”, pontuou Rocha.

Alexandre Lyra Trancoso, que realiza a defesa de Valcir, assinala que ele não participou do crime. “Queremos reverter a situação. Entendemos que ele não atuou como intermediário do crime”.

Os advogados Davi Pascoal Miranda e David Marlon Oliveira Passos, que fazem as defesas de Esperidião e Hermenegildo, respectivamente, não foram localizados. Assim que a reportagem conseguir o contato, esta matéria será atualizada com as informações deles.

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