A misteriosa mancha que apareceu na Praia da Guarderia, em Vitória, entre janeiro e março foi causada por uma série de fatores, que incluem questões ambientais combinadas a falhas na rede de drenagem e esgotamento. Essa mesma soma de problemas fez com que trechos do local fossem classificados como impróprios para banho, segundo estudo conduzido pelo grupo de trabalho criado para investigar o fenômeno que assustou banhistas.
De acordo com a Nota Técnica nº 01/2026, assinada por diversos órgãos e entidades, não é possível atribuir a origem da mancha a uma única causa. A avaliação aponta que o escurecimento da água está associado, principalmente, ao aumento temporário de nutrientes no mar — condição que favorece a proliferação de microalgas e outros organismos. Esse processo pode provocar alterações visuais, odor e até irritações na pele, sem necessariamente indicar o despejo direto de esgoto bruto.
Ainda assim, o estudo identifica falhas estruturais como parte importante do problema. Um dos principais pontos é o comprometimento temporário do sistema de “tempo seco” da Estação de Bombeamento de Águas Pluviais (EBAP), responsável por interceptar ligações irregulares de esgoto. Durante obras realizadas entre dezembro de 2025 e o início de fevereiro de 2026, o sistema ficou inoperante, o que pode ter permitido o lançamento de matéria orgânica e nutrientes diretamente na rede de drenagem que deságua na praia.
“Esse sistema tem a função de interceptar, em períodos sem chuva, contribuições irregulares de esgoto conectadas à rede de drenagem pluvial, direcionando-as para tratamento adequado. Com a redução dessa funcionalidade, parte desse aporte pode ter sido lançada diretamente na rede de drenagem que deságua na praia, aumentando a carga de matéria orgânica e nutrientes no ambiente costeiro”, descreve a nota.
Nesse período, também houve aumento do aporte de água subterrânea em razão do rebaixamento do lençol freático, o que contribuiu para a sobrecarga do sistema. Segundo o documento, há registros prévios indicando dificuldades operacionais, o que reforça a hipótese de que a estrutura já operava sob pressão antes mesmo do surgimento da mancha.
Outro fator relevante é o chamado “tempo de residência” da água na região — estimado entre 25 e 30 dias. Isso significa que os poluentes lançados no mar tendem a permanecer acumulados por semanas antes de se dissiparem. Esse comportamento ajuda a explicar por que a mancha surgiu após a paralisação do sistema e desapareceu gradualmente com a retomada da operação e a renovação das águas.
Além das fontes locais, o grupo de trabalho destaca que a Praia da Guarderia recebe contribuições de outros municípios da região da Grande Vitória, por meio de canais e cursos d’água que transportam cargas difusas de poluentes. Essa dinâmica amplia a vulnerabilidade ambiental da área, especialmente em períodos de altas temperaturas e menor renovação das águas.
Como consequência desse cenário, a área próxima à manilha de drenagem foi classificada como imprópria para banho de forma imediata. O local apresenta histórico de ligações clandestinas de esgoto e foi identificado como fonte ativa de poluição, o que representa risco à saúde pública mesmo em períodos de aparente melhora na qualidade da água.
Já outros pontos da praia, como o trecho em frente ao Quiosque do Alemão, são considerados áreas sensíveis e seguem sob monitoramento após apresentarem comportamento microbiológico intermitente e indícios de contaminação recorrente.
A nota técnica também aponta que a região apresenta vulnerabilidade ambiental significativa, sujeita à influência de múltiplas fontes de poluição — tanto locais quanto regionais. A piora da qualidade da água em períodos chuvosos está associada ao lançamento irregular de esgoto na rede de drenagem pluvial.
Diante das conclusões, o grupo reforça que o problema é complexo e exige soluções integradas, como a eliminação de ligações clandestinas, melhorias nos sistemas de drenagem e o acompanhamento contínuo da qualidade da água. O documento também recomenda ampliar o monitoramento ambiental e revisar protocolos de balneabilidade para prevenir novos episódios.
As conclusões, no entanto, ainda são preliminares e podem ser complementadas com a análise de dados físico-químicos que seguem em processamento.
A reportagem acionou a Prefeitura de Vitória e a Cesan para detalhar quais ações estão previstas para o local e aguarda retorno. Caso haja resposta, a matéria será atualizada.
Órgãos ampliam fiscalização e apontam irregularidades
A situação também é alvo de apuração pelo Tribunal de Contas do Espírito Santo, que identificou o lançamento irregular de resíduos poluentes na rede de drenagem que deságua nas praias da Guarderia e da Ilha do Frade.
Em decisão recente, o órgão apontou que a contaminação está associada à mistura entre esgoto sanitário e águas provenientes do rebaixamento do lençol freático durante obras nas Estações de Bombeamento de Águas Pluviais (Ebaps), com descarga direta na faixa costeira.
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Segundo o Tribunal, o cenário também evidencia falhas na fiscalização por parte de órgãos municipais, além de problemas operacionais no sistema de “tempo seco”, já citados na nota técnica. A decisão determina a adoção de medidas para interromper o lançamento irregular e a responsabilização dos envolvidos, reforçando o diagnóstico de que a poluição tem origem estrutural e resulta da atuação combinada de diferentes fatores e agentes públicos e privados.