Dormir menos, consumir mais álcool, fumar e apresentar maior acúmulo de gordura corporal estão entre os fatores associados à hipertensão arterial em policiais militares de elite do Espírito Santo. É o que mostra uma pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que identificou pressão alta em 53,2% dos integrantes da Companhia de Choque do Batalhão de Missões Especiais (BME) avaliados. Nenhum deles sabia que tinha a doença ou fazia tratamento.
O estudo analisou 47 policiais militares e chama atenção porque os participantes mantinham elevados níveis de atividade física. Mesmo assim, parte apresentou indicadores cardiovasculares piores do que o restante dos colegas.
Entre os fatores avaliados, a duração do sono foi uma das que apresentaram associação mais forte com os níveis de pressão arterial. Os policiais hipertensos dormiam, em média, 6,2 horas por noite, enquanto os demais registravam em média 7,7 horas de sono.
Além do descanso insuficiente, os pesquisadores identificaram diferenças na composição corporal. Os militares com hipertensão apresentavam maior percentual de gordura, maior acúmulo de gordura abdominal e maior massa gorda, características relacionadas ao aumento do risco de doenças cardiovasculares.
Os hábitos de vida também foram diferentes entre os grupos. O consumo de bebidas alcoólicas foi relatado por 68% dos policiais hipertensos, contra 22% entre aqueles com pressão normal. O tabagismo apareceu apenas entre os participantes com hipertensão.
Para a capitã da Polícia Militar e médica cardiologista Glicia Chierici, a própria rotina policial contribui para aumentar o risco cardiovascular. Segundo ela, trata-se de uma profissão marcada por estresse crônico, trabalho em turnos e dificuldade para manter hábitos saudáveis durante o expediente.
"É uma carreira com estresse crônico elevado. O trabalho em turnos prejudica o sono, e já existem diversos estudos mostrando que um sono de qualidade está relacionado ao melhor controle da pressão arterial", afirma. Ela acrescenta que, durante os plantões, muitos policiais acabam recorrendo a alimentos ultraprocessados e ricos em sódio, já que nem sempre encontram opções saudáveis disponíveis.
Segundo a cardiologista, a atividade física, embora importante, não é suficiente para eliminar o risco de desenvolver hipertensão. "As doenças cardiovasculares são multifatoriais. Além do exercício, alimentação, tabagismo, excesso de peso, fatores genéticos e o próprio estresse influenciam no desenvolvimento da doença", explica.
Para o cardiologista clínico Leandro Rua Ribeiro, o fato de nenhum policial saber que tinha hipertensão não é inesperado, já que a doença costuma evoluir de forma silenciosa. "Hipertensão não gera sintomas. Quando gera, geralmente já são sequelas graves, como AVC, infarto ou doença renal", reiterou.
Relação com o sono e o estado de alerta
Ribeiro explica que a hipertensão está relacionada não apenas à quantidade de horas dormidas, mas também à qualidade do sono. “Ficar muito tempo sem dormir e em estado de alerta, como ocorre na profissão policial, ativa o sistema nervoso simpático e aumenta a produção de adrenalina e cortisol, hormônios que elevam a pressão”, disse.
De acordo com Ribeiro, o estado de alerta é um mecanismo fisiológico normal quando ocorre por períodos curtos, mas pode se tornar prejudicial quando é prolongado e rotineiro.
O cardiologista acrescenta que o sono inadequado também está associado ao ganho de peso e ao aumento da inflamação sistêmica, fatores que contribuem para doenças cardiometabólicas. As sociedades médicas, segundo ele, recomendam entre sete e nove horas de sono por dia, embora a necessidade varie entre as pessoas e dependa de um sono restaurador, sem distúrbios como a apneia.
“Há estudos mostrando que pessoas que trabalham à noite têm maior risco de hipertensão do que aquelas que trabalham durante o dia, justamente por alterações relacionadas ao sono e ao estado de alerta”, afirmou.
Segundo os pesquisadores, a prática de atividade física foi semelhante entre os dois grupos, indicando que, sozinha, ela não foi suficiente para compensar outros fatores de risco. Ribeiro concorda que o exercício é apenas um dos elementos de proteção. "Não adianta a pessoa ser ativa fisicamente e dormir mal, beber, fumar ou ser obesa. A hipertensão é multifatorial", observou.
Ele destaca que fatores modificáveis — como peso, atividade física, sono, manejo do estresse, tabagismo e consumo de álcool — se somam a fatores não modificáveis, como genética e idade. O cardiologista defende ainda avaliações anuais, especialmente em homens acima dos 40 anos, para detectar a doença ainda na fase silenciosa e evitar complicações futuras.
Estudo vai ampliar acompanhamento dos policiais
A pesquisa já começou a gerar mudanças dentro da Polícia Militar. De acordo com o cabo Geanderson Sampaio de Oliveira, doutorando da Ufes e um dos pesquisadores do estudo, os resultados levaram à criação de um Programa de Acompanhamento Contínuo do Efetivo (PACE), que pretende monitorar a saúde dos policiais de todas as unidades do Estado.
"Identificamos essa prevalência de hipertensão e, com base nisso, criamos um programa de acompanhamento contínuo do efetivo para mitigar esses possíveis danos. Hoje, contamos com cardiologistas e outros especialistas para intervir precocemente e cuidar da saúde desse policial", destaca.
Segundo Oliveira, embora alguns fatores de risco sejam inerentes à profissão, como o trabalho noturno, a intenção é atuar sobre aspectos que podem ser modificados, como alimentação, excesso de peso e monitoramento da saúde. O programa prevê que equipes do Hospital da Polícia Militar percorram todos os batalhões para realizar avaliações e identificar precocemente alterações cardiovasculares.
Para Glicia Chierici, o estudo também pode ajudar a fortalecer uma cultura de prevenção entre os policiais militares. Ela destaca que, por se tratar de um público majoritariamente masculino, muitos profissionais ainda deixam de procurar atendimento preventivo. "A gente precisa estimular a realização de exames e o tratamento precoce. Colocar esse tema em evidência pode gerar uma mudança de comportamento", analisou.
A capitã acrescenta que os policiais identificados com exames alterados durante as avaliações já serão encaminhados para tratamento e acompanhamento pela equipe de saúde da corporação.
A pesquisa foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Ufes pelo mestrando e cabo da PM Renalt Gonçalves, com colaboração do doutorando Geanderson Sampaio de Oliveira e orientação do professor Danilo Bocalini.
De acordo com o grupo, a frequência de hipertensão encontrada foi superior à observada em estudos realizados com outras corporações militares brasileiras, reforçando a necessidade de monitoramento contínuo da saúde desses profissionais.