Em 2017, Joana Mendes da Rocha apresentou ao público “Tudo é Projeto”, um filme sobre a obra do pai, Paulo Mendes da Rocha (1928 - 2021). Logo no início do longa, ela conta que foi a Vitória e é indagada por ele: “E você, gostou daquilo?”. Joana responde que sim.
"Daquilo" era o Cais das Artes. Na época, a construção, iniciada em 2010, estava paralisada. A praça só foi aberta em janeiro de 2026. O museu, em abril. O teatro está previsto para ser concluído em dezembro. São 16 anos de obras. Paulo morreu sem ver seu projeto concluído.
No evento de inauguração do museu, aberto com a exposição "Amazônia", de Sebastião Salgado, a cerimonialista citou uma longa lista de personalidades ligadas à obra, de governantes a profissionais da cultura. Em meio aos nomes estava o de Martin Corullon, arquiteto que trabalhou com Paulo no projeto.
Ele observava o movimento até então inédito naquele espaço quando foi abordado por A Gazeta e questionado sobre a sensação de ver um projeto pronto.
“É sempre a realização máxima. Quando você vê as pessoas entrando, como agora você está vendo aqui a rampa cheia de gente (aponta para a entrada do Cais), é para isso que a gente faz, é para isso que a gente trabalha, para as pessoas usarem”, reflete.
Logo após a solenidade de inauguração, a fila de curiosos em descobrir o que guardavam as paredes de concreto se alongava pela esplanada abaixo do museu. No dia anterior, uma centena de operários foi convidada a parar os trabalhos por um momento e ver as fotos da Amazônia. Todos aceitaram.
Você começa a ter uma sensação de desapego. Até o fim da obra, você está muito ali, é tudo responsabilidade sua. Agora, a ‘coisa’ ganha vida e as pessoas vão usar
Martin Corullon Arquiteto
Martin trabalhou com Paulo no projeto do Cais desde o início, em 2007, e voltou a atuar na retomada da obra em 2023. “Ele tinha um jeito de trabalhar bem particular, porque se associava a escritórios para desenvolver os projetos, não tinha um escritório dele. A gente fez desde o início todos os desenhos e desenvolvemos junto com ele, como em outros projetos também.”
Apesar de o teatro ainda estar sendo erguido, a abertura parcial teve ares de inauguração total. Pela primeira vez, o público pode acessar o interior da construção. A exposição de Salgado ocupa cerca de um terço da área de exposições.
O restante, incluindo os outros andares, que permitem ao público ter a sensação de subir e descer no espaço, e as claraboias térreas por onde as luzes do sol entram por meio do chão, seguem fechadas. Em entrevistas sobre o projeto, Paulo contava com entusiasmo sobre a proposta.
“Das salas de exposição, você pode ver o chão, porque essas superfícies são de vidro. E também a luz do sol entra no museu por reflexão do chão, nunca entra luz do sol direta no museu”, diz ao explicar o projeto a um canal francês em 2011.
Quando Paulo questionou a filha no filme se ela havia gostado “daquilo”, parecia, de alguma forma, ter o entendimento de que seu projeto se destacava em relação às outras construções de uma Enseada do Suá cheia de prédios de vidro e parecidos entre si.
Martin explica que o Cais tem uma dimensão que vai para além do terreno e se expande para a paisagem de Vitória e Vila Velha. “A influência dele é muito grande. Essa ideia sempre esteve muito presente, de que tinha que ser um espaço muito livre, acessível”, relembra. É o que Paulo conta à filha no filme.
“Não é bonito, chegar naquela praça?”, pergunta Paulo, que, em seguida, questiona se Joana chegou a ver algum navio. “Vários, passou um enorme, vermelho”, ela responde.
A proposta de Paulo era levantar o museu e deixar a praça embaixo, fazendo a conexão entre a cidade e o mar. Quem chega ao Cais não tem a vista obstruída, podendo ver dois cartões-postais que unem períodos arquitetônicos diferentes da história do Estado: o estilo colonial do Convento da Penha e o moderno, da Terceira Ponte.
“A presença do Cais das Artes na paisagem era uma ideia muito forte, com esse diálogo com os navios. Você viu, passou um ali. Isso tudo, sempre que a gente via, era uma festa. O Paulo adorava essa história, que tem a ver com o discurso dele de transformação da natureza. Esse projeto, de alguma maneira, simboliza e materializa essas ideias dele”, explica o arquiteto.
Paulo parecia fazer literatura ao narrar como havia pensado o Cais. “Nós podemos fazer o teatro com os pilares dentro d’água. A graça é essa! O café do teatro embaixo da plateia fica numa calçada fora, e em cima da água os pilares, como se fosse uma veneza. E o museu? Nós fizemos as salas de exposições, também levantadas do chão, de tal sorte que quem vai ver o museu vê um território longe das vistas para o mar.”
Martin diz que trabalhar com Paulo era assim. Diálogos sobre projetos se convertiam em reflexões sobre a vida. “Nossas conversas eram 10% projeto e 90% vida, mundo, ideias, filósofos, cinema. Era muito encantador e, além de ter um privilégio do ponto de vista da arquitetura mesmo, ele era brilhante, enfim. Era uma delícia, era uma escola, não só para a arquitetura, mas de vida, era uma experiência bem interessante e intensa.”
“Tudo é Projeto” começa com cenas de pai e filha e, logo depois, aparecem imagens do mar de Vitória e dos traços do Cais. O destaque para a capital capixaba no longa não é por acaso. Paulo nasceu em Vitória em 1928 e depois foi para São Paulo (SP), onde se formou em Arquitetura e Urbanismo, em 1950. Nesse período, tornou-se membro da vanguarda "brutalista paulista".
Aos 29 anos, venceu o concurso para o Ginásio do Clube Atlético Paulistano (1958), obra que lhe vale o Grande Prêmio Presidência da República na 6ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1961. Passou a integrar o grupo que, com a liderança de Vilanova Artigas, constitui a chamada "escola paulista" na arquitetura.
Em 1957, aos 29 anos, criou uma de suas primeiras obras-primas, o Clube Atlético de São Paulo. Depois, fez o Museu de Arte Contemporânea (1975) da Universidade de São Paulo, a loja Forma Móveis (1987) em São Paulo e o Museu Brasileiro de Escultura (1987-1992).
Em 2006, Mendes da Rocha recebeu o Prêmio Pritzker de Arquitetura, condecoração máxima entre os arquitetos no mundo. O júri citou sua “profunda compreensão da poética do espaço” e uma “arquitetura de profundo engajamento social”.
Paulo morreu na madrugada do dia 23 de maio de 2021, aos 92 anos de idade, em um hospital de São Paulo devido a um câncer no pulmão.
Bom, qual é o objeto, o objetivo da arquitetura? Eu poderia dizer: 'amparar a imprevisibilidade da vida'
Paulo Mendes da Rocha Em entrevista ao El País em 2011
Fazer o projeto do Cais pode ter sido para Paulo uma volta às memórias de infância na Baía de Vitória, por isso os traços robustos do projeto, que às vezes se assemelham aos navios que passam em frente. No filme de Joana, o arquiteto resgata essa conexão emocional com o pai, o engenheiro Paulo de Menezes Mendes da Rocha.
“Todos nós, pelas experiências de cada um, sabemos que não é nada assim de uma vez só. Mas, antes de mais nada, o avô da Joana, meu pai, foi um grande engenheiro. Tornou-se especialista cada vez mais em navegação interior. O meu pai me levava nas grandes visitas de grandes obras para ver tudo isso, com 8, 9 anos de idade. É impossível não imaginar uma certa convocação, administração, e o que fica, você vai dizer: ‘é arquitetura’.”
Martin lamentou o fato de Paulo não ter visto o Cais pronto, mas disse que a conclusão da obra o torna para sempre presente. "É uma pena, mas ele está presente sim", manifestou.
"Esse projeto foi concebido na mesma época do Museu Nacional dos Coches em Lisboa, que ele fez também na frente do mar do Rio Tejo, eram projetos de irmãos, mas infelizmente, aquele ele chegou a ver concluído, esse não."
Paulo não chegou a ver seu último projeto pronto, mas, como disse Martin, estará sempre presente. Seu projeto insere Vitória na lista das cidades com projetos arquitetônicos que fazem as pessoas pararem para refletir sobre o espaço em que vivem.
A estrutura do cais, composta pelo museu — que será um dos maiores da América Latina —, pelo teatro, com capacidade para 1.300 pessoas e pronto para receber orquestra, fora os espaços de cafés, restaurantes, bibliotecas e a esplanada para contemplar a paisagem, dão novas possibilidades para que a cidade abra suas portas para receber outros mundos vindos em outras exposições, assim como a de Sebastião Salgado. Até então, justamente pela falta de um espaço do tipo, Vitória estava excluída desse circuito cultural.