> >
Decisão do STJ suspende retirada de quilombolas de área em Itaúnas, no ES

Decisão do STJ suspende retirada de quilombolas de área em Itaúnas, no ES

Decisão do ministro Herman Benjamin considerou risco à preservação das famílias; Justiça Federal deve analisar o caso por envolver demarcação de terras quilombolas sob responsabilidade do Incra

João Barbosa

Repórter / [email protected]

Publicado em 16 de setembro de 2025 às 08:11

Área fica às margens da ES 010, a poucos quilômetros da Vila de Itaúnas
Área alvo de reintegração de posse fica às margens da ES 010, a poucos quilômetros da Vila de Itaúnas Crédito: Reprodução/Google Maps

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu a liminar que determinava o despejo de moradores da área conhecida como Quilombo Itaúnas, em Conceição da Barra, no Norte do Espírito Santo. A informação foi divulgada pelo ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, em seu Instagram no início da madrugada desta terça-feira (16).

Num conflito de competência suscitado pela Defensoria Pública do Espírito Santo. Por isso, nós esperamos a reversão desse despejo para a titulação dessa comunidade quilombola

Paulo Teixeira

Ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar

A decisão liminar da Justiça determinava que os quilombolas residentes da área conhecida como Quilombo Itaúnas deveriam deixar a ocupação nesta terça-feira. O terreno, às margens da rodovia ES 010 e a poucos quilômetros da Vila de Itaúnas, é alvo de uma ação de reintegração de posse movida pela empresa multinacional Suzano.

A 1ª Vara Cível de Conceição da Barra havia determinado a desocupação da área, mas o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) argumentou que o caso deve ser analisado pela Justiça Federal, por envolver a demarcação e titulação de terras de comunidades remanescentes de quilombos. Segundo o TRF-2, a questão diz respeito a interesses do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), autarquia federal responsável pelo tema. 

O presidente do STJ, ministro Herman Benjamin, decidiu em caráter de urgência suspender a reintegração de posse. Ele levou em conta a iminência do despejo e o risco à preservação das famílias que vivem na área.

A Suzano, por meio de nota (veja na íntegra), informou ter recebido com "estranheza" a suspensão da liminar de reintegração de posse. "Causa perplexidade o contexto dessa decisão, uma vez que foi proferida após 10 anos de tramitação judicial (ação iniciada setembro de 2015) e, ainda, sem a devida atenção às manifestações de diversas autoridades federais já apresentadas nos autos", disse. 

A companhia destacou que acredita na reversão da decisão e reafirmou seu compromisso com o respeito às comunidades tradicionais e com o cumprimento das decisões judiciais. 

Entenda o caso

Por decisão liminar da Justiça, moradores da área conhecida como Quilombo Itaúnas deveriam deixar a ocupação nesta terça-feira. O terreno, que fica às margens da rodovia ES 010 e a poucos quilômetros da Vila de Itaúnas, é alvo de uma ação de reintegração de posse movida pela empresa multinacional Suzano.

Segundo Luiza Faresin, coordenadora do Coletivo Terra do Bem, que assessora o Quilombo Itaúnas em questões sociais e ambientais, a área na Região Norte começou a ser ocupada há mais de 300 anos. Ela relata que, há pelo menos 15 anos, famílias voltaram a plantar e a construir casas para viver na região. O local, porém, ainda passa por um processo de reconhecimento junto à Fundação Cultural Palmares para ser incluído no grupo de comunidades quilombolas com direito a demarcação de terra no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

“Essa é uma comunidade ancestral, formada por mais de cinco gerações de quilombolas. Há indícios de que Zacimba Gaba (princesa de Angola trazida ao Espírito Santo no período da escravidão) tenha ajudado a criar esse quilombo. Agora, pela especulação imobiliária na região, não há diálogo com a comunidade para um projeto para a área. A Suzano passou a tratar os moradores como invasores e oportunistas”, relata Luiza Faresin.

Em meados de 2015, segundo Luiza, a Suzano se apresentou como proprietária do terreno e abriu uma ação judicial para reintegração de posse. Após 10 anos do entrave judicial, a 1ª Vara do Juízo de Conceição da Barra determinou, em março deste ano, a saída dos moradores do terreno. O cumprimento da decisão judicial, marcada para terça-feira (16), prevê ações de oficiais de Justiça com apoio da Polícia Militar para a retirada de cerca de 200 famílias que vivem em 128 construções na região.

Manifestantes protestam contra reintegração de posse de uma área onde vive comunidade quilombola
Manifestantes protestaram na Assembleia Legislativa contra reintegração de posse da área Crédito: Ricardo Medeiros

Com a situação, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) chegou a emitir uma nota se manifestando contra a reintegração de posse. O órgão diz que a ação requerida pela Suzano é uma ameaça a um espaço de resistência, memória e ancestralidade.

“Ali vivem diversas famílias, incluindo crianças, mestres da cultura popular e guardiões de tradições que fazem parte do patrimonio cultural brasileiro. A possível expulsão dessas famílias, somada à derrubada de mais de 130 casas, configura um crime social e cultural, um ataque frontal ao direito constitucional dos povos quilombolas à terra, à dignidade e à preservação de seus modos de vida”, destaca a Conaq.

O Incra, que é o órgão responsável pela demarcação de terra, e a Fundação Palmares, que faz o reconhecimento de áreas apontadas como quilombo, também foram procurados por A Gazeta, mas não responderam à demanda da reportagem sobre a situação atual do Quilombo Itaúnas.

O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) afirmou, em nota, que acompanha a situação envolvendo a comunidade do Quilombo Itaúnas. O órgão diz, ainda, que está atento à situação e que vai continuar adotando as medidas jurídicas cabíveis, se verificadas violações de direitos, visando assegurar a proteção das famílias e a preservação da cultura e das tradições.

Nota Suzano | Na íntegra

"A Companhia informa ter recebido com estranheza a suspensão da liminar de Reintegração de Posse antes deferida pela Justiça Estadual do Estado do Espírito Santo, proferida no final da segunda-feira (15/09) pelo Ministro Herman Benjamim.

Causa perplexidade o contexto dessa decisão uma vez que foi proferida após 10 anos de tramitação judicial (ação iniciada setembro de 2015) e, ainda, sem a devida atenção às manifestações de diversas autoridades federais já apresentadas nos autos:

- O INCRA, em 25/03/2019 apresentou manifestação informando que a área não está inserida em território de pretensão quilombola e a Fundação Cultural Palmares, em 07/10/2022, afirmou não deter expertise para realização da identificação das áreas contidas nas matrículas imobiliárias, devendo prevalecer o entendimento do INCRA.

- A Justiça Federal, em 28 de novembro de 2023, reconheceu a ausência de interesse jurídico da Fundação Cultural Palmares e/ou do INCRA na ação e, assim, declarou sua incompetência processual, uma vez que ali já estava comprovado que os invasores da área não pertenciam a comunidades quilombolas certificadas ou reconhecidas.

A tentativa de reconhecimento posterior e intempestivo dos invasores como quilombolas, sem adequado respaldo técnico e jurídico e em contradição com manifestações anteriormente apresentadas no processo, configura grave afronta à segurança jurídica, à boa-fé processual e ao princípio da confiança legítima. Tal conduta, além de gerar instabilidade institucional, coloca em risco o cumprimento de decisão judicial regularmente proferida, que determinou a reintegração de posse em favor da Suzano. 

A companhia acredita na reversão da decisão recentemente proferida e reafirma seu compromisso com o respeito às comunidades tradicionais e com o cumprimento rigoroso das decisões judiciais. Reafirma, ainda, que cumpre rigorosamente a legislação brasileira e continuará conduzindo suas atividades de forma a contribuir com o desenvolvimento sustentável do país e do Estado do Espírito Santo."

Este vídeo pode te interessar

  • Viu algum erro?
  • Fale com a redação

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais