Erick enterra eleição da Mesa com discurso de paz e pitadas de guerra
Guerra e paz
Erick enterra eleição da Mesa com discurso de paz e pitadas de guerra
Pronunciamento do presidente da Assembleia teve frases de pacifistas, teve muitas citações a Deus, teve indiretas para adversários, mas não teve a resposta mais importante: por que o presidente realizou, do nada, a eleição da Mesa Diretora?
Erick Musso em meditação, no alto da montanhaCrédito: Amarildo
“Eu subi a montanha. Eu precisava refletir. Porque é no silêncio que surgem as vozes mais sábias dentro do nosso pensamento. Chegou a hora de quebrar esse silêncio e de dividir com vocês aquilo que aprendi com ele.” Foi assim, com essas palavras, que Erick Musso começou seu aguardado pronunciamento na sessão plenária desta terça-feira (10), após duas semanas de avalanche deflagrada por ele mesmo com uma pisada em falso no meio de sua acelerada escalada política: a eleição precoce da Mesa Diretora do biênio 2021-2023.
Erick Musso chegou ao cume da montanha. E ao cúmulo da pressão. Na verdade, no topo da montanha, a pressão atmosférica é menor. A pressão política é que ficou grande demais. No topo da montanha, o ar é rarefeito, quase irrespirável. Após dias de silêncio e meditação, o presidente da Assembleia desceu da montanha diretamente na tribuna da Assembleia. E fez, antes de tudo, um grande desabafo, botando para fora o que parecia estar a sufocá-lo nas últimas duas semanas. O discurso foi marcantemente ambíguo: guerra e paz nas palavras do mesmo deputado.
Pareciam dois oradores em um só: diligentemente preparado para ele por sua assessoria para a ocasião, o discurso foi escrito com tom ora pacífico e conciliador (citações ao Mahatma Gandhi e ao Nobel da Paz Nelson Mandela), ora com o tom de quem acredita que a melhor defesa é o contra-ataque, não tão próprio de um líder pacifista ou de um monge zen-budista que sobe a montanha para jejuar e meditar. Sem nominar pessoas físicas nem jurídicas, acusou os “oportunistas de ocasião” que o acusaram, as “pessoas que se movem com as pernas e as mãos de outrem”. Denunciou “o acinte como forma de persuasão e o achincalhe como estratégia política para ganhar holofotes”.
Diversas vezes, deixou de lado o script e fez digressões repletas de indiretas para sabe-se lá quais adversários (de novo: ele não citou ninguém). Foram nesses parênteses abertos por Erick (ou “aspas”, como se confundiu uma vez), quando falou de improviso, que a montanha de mágoas do presidente se deu a ver ainda mais, após duas semanas sob críticas da imprensa, de entidades da sociedade civil e de outros deputados estaduais, incluindo dois de seus principais aliados e conselheiros políticos: Enivaldo dos Anjos e, destacadamente, Marcelo Santos.
Sob críticas de todos os lados, Erick Musso optou por só dar satisfações ao público por meio do pronunciamento dele nesta terça-feira em plenário, jogando em Casa e com pleno controle da situação. Ok, é direito dele. Mas o método escolhido pelo presidente não permite que a imprensa lhe faça algumas perguntas fundamentais que ele até agora não respondeu e, pelo visto, jamais responderá.
A mais importante delas: qual é a versão dele para os fatos ocorridos entre a noite do dia 26 (quando conversou a sós com Renato Casagrande, no Palácio Anchieta) e a manhã do dia 27 (quando promoveu à eleição de supetão, pegando até o governador de surpresa)? POR QUE ele decidiu fazer a eleição daquela maneira e com aquela urgência toda? Esse porquê passou longe do discurso do presidente, que aliás se deteve muito pouco na eleição em si.
INDEPENDÊNCIA TOTAL: A PARTE DO DISCURSO QUE MENOS COLA
Numa parte do discurso de Erick - que chega a ser prescritiva em relação ao trabalho da imprensa -, ele volta a sustentar que a eleição da Mesa no dia 27 foi, antes de tudo, uma demonstração de independência da Assembleia na interface com o Poder Executivo.
“Ao longo dos anos, criou-se uma cultura de que determinadas decisões das Casas de Leis - incluindo eleições da Mesa Diretora - deveriam passar pelos palácios de governo. Esse hábito nocivo para a independência do Poder Legislativo sempre foi mal visto pela sociedade e impiedosamente criticado pela imprensa, que precisa voltar seu olhar para as tentativas de interferência que se insurgem, travestidas de ordenamento legalitário”.
Só tem um detalhe que põe completamente por terra esse discurso de suposta “independência plena” da gestão Erick Musso: até a noite do dia 26, essa eleição da Mesa na verdade passou pelo Palácio Anchieta. Ele e Casagrande conversaram sobre o tema, como já tinham conversado antes, o próprio Erick levou essa pauta ao governador, e ambos só não chegaram a um consenso com relação à data, pois Casagrande só a queria para agosto do ano que vem.
Então, assim... ou a Assembleia é completamente independente ou não é. Não dá para só arrogar-se independência quando alguma coisa na combinação de bastidores dá errado ou desagrada a uma das partes.
Outro argumento de Erick que é muito ruim, porque apequena a Assembleia, é o da comparação com o que as câmaras municipais vivem fazendo por aí. “A decisão de apresentar a PEC 28/2019, que permitiu a antecipação do processo eleitoral da Mesa Diretora, não foi uma invenção desta Casa. Câmaras municipais Brasil afora, inclusive neste Estado, já fizeram uso desse expediente.” Então agora o Poder Legislativo estadual vai se equiparar a câmaras municipais e deputados vão se colocar no mesmo patamar de vereadores? A comparação tem que ser para cima. Imagine se o presidente da Câmara Federal resolvesse antecipar sua reeleição em mais de 400 dias.
QUEM TEM UM PARCEIRO COMO ESSE…
Para preservar sua boa relação com o governo Casagrande, Marcelo Santos não jogou a corda para salvar o seu parceiro de escalada, Erick Musso.
AS FRASES DE MANDELA E DE GANDHI
“Depois de termos conseguido subir a uma montanha, só descobrimos que existem ainda grandes montanhas para subir.” Esse foi o aforismo de Mandela citado por Erick. O de Gandhi foi: “A alegria está na luta”.
“I’VE BEEN TO THE MOUNTAIN TOP”
Ficou de fora do discurso de Erick Musso no rol de citações de pacifistas, mas bem que poderia ter entrado. Em seu célebre discurso “I have a dream”, o pastor Martin Luther King também faz uma metáfora montanhesca: “Eu não sei o que vai acontecer agora. Nós temos alguns dias difíceis à frente. Mas realmente não me importa agora, porque eu estive no topo da montanha!”
Mas um gaiato foi mais maldoso, na lembrança de outro “pastor”: o Cabo Daciolo, candidato com um parafuso a menos que disputou a Presidência em 2018 e, antes dos debates, subia ao topo do Monte das Oliveiras, no Rio, onde ficava em orações.
HAJA DEUS!
Nos momentos em que fugiu do roteiro e falou de coração aberto, Erick Musso também assumiu retórica de pastor e falou várias vezes em Deus (não citado nenhuma vez no discurso escrito), além de fazer citações bíblicas (também fora do roteiro).
Cena Política: Erick usa frase "patenteada" pelos Ferraços
Numa prévia do que viria, Erick postou numa rede social, na manhã desta terça, a seguinte mensagem bíblica, do livro “Eclesiastes”: “Tempo de calar e tempo de falar”. Curiosamente, a citação é adorada e bastante usada pelo deputado Theodorico Ferraço, o mesmo que foi tirado por Erick da presidência da Assembleia em 2017. E até o ex-senador Ricardo Ferraço, filho de Theodorico, chegou a citar a mesma frase em julho de 2018, dias após o anúncio de Paulo Hartung de que não disputaria a reeleição ao governo, quando o então senador era cotado para lançar-se ao Palácio Anchieta.
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo