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Baterista do Hellacopters fala sobre banda, Suécia e até Bolsonaro

Rober Robban Erikkson, um dos fundadores do grupo sueco, conversou com a reportagem e até lembrou de histórias da única turnê brasileira da banda

Publicado em 03/04/2019 às 16h23
Atualizado em 07/02/2020 às 06h09
  • Guilherme Lage

Banda Hellacopters. Crédito: Hellacopters/divulgação
Banda Hellacopters. Crédito: Hellacopters/divulgação

Parece existir algo bastante peculiar nas águas que banham as paisagens suecas. No país escandinavo de pouco mais de nove milhões de habitantes, bandas brotam do chão como frutos que só sobrevivem no solo sub-ártico.

Foi neste contexto que os Hellacopters debutaram seu avassalador “Supershitty To The Max!” em 1996 aos alto falantes de todo o mundo. Formado dois anos antes pelo lendário Nicke Andersson na guitarra e nos vocais (que antes desrespeitava os direitos civis da bateria no Entombed, um dos precursores do death metal) e Dregen (Backyard Babies), além do baterista Robert Eriksson e do baixista Kenny Hakansson, a banda era uma aula introdutória das transformações cíclicas do rock n’ roll.

Ali se ouvia de tudo: punk rock, garage rock, classic, tudo!. Ecos dos Stooges, MC5, Alice Cooper, Chuck Berry e Ramones estrondavam nas catorze faixas que compunham o disco.

No Brasil, a banda ganhou notoriedade com a virada do milênio. Contando com uma mudança na formação, o grupo experimentou vultoso sucesso na América do Sul com os discos “High Visibility” (2000) e “By The Grace of God” (2002). Por aqui, ganharam um fiel séquito de fãs. É só perguntar: Quem gosta de rock n’ roll, gosta dos Hellacopters.

Após um hiato de oito anos, a banda decidiu novamente habitar o solo sagrado do palco em 2016, comemorando os 20 anos de lançamento do primeiro álbum. O ressurgimento era o primeiro de uma série de ressurreições que enfrentariam dali a diante, como a busca para se recuperar da morte do guitarrista Robert ‘Strings’ Dahlqvist que faleceu em 2017.

Em entrevista, o baterista e membro fundador, Rober ‘Roban’ Erikkson, fala sobre a nova fase da banda e possibilidades de um novo disco. Além disso, comentou sobre o momento político atual e sobre a passagem histórica da banda pelo Brasil em 2003.

O falecimento do Strings, a volta do Dregen, o hiato... São ingredientes de um possível disco novo?

Com certeza teve muita coisa acontecendo desde que paramos em 2008. O aniversário de 20 anos do “Suppershitty to the Max!” nos juntou por uma causa específica. Desde aquela época, a gente tem começado a planejar mais coisas. Então, pessoalmente, eu diria que sim! Acho que poderíamos e deveríamos lançar um disco novo animal.

Como foi lidar com a morte do guitarrista de vocês?

Olha, foi bem difícil. Ainda é surreal pra mim que ele não esteja mais aqui. As últimas gravações dele foram lançadas uns meses atrás e ouvir aquelas músicas o fez parecer tão vivo... Ainda parece que eu vou topar com ele na rua a qualquer momento.

Kenny também deixou a banda durante esse período. Como isso afetou a dinâmica de vocês? Trabalhar com um baixista novo depois de tanto tempo?

Também foi uma mudança gigantesca. Kenny estava com a gente desde o início, mas depois da reunião ficou claro que estávamos em páginas diferentes. Eu desejo tudo de melhor pra ele nessa vida. O lado positivo é que é sempre bom e empolgante tocar com gente nova e tocar com o Sami Yaffa (The New York Dolls, Michael Monroe, Hanoi Rocks) ano passado foi demais. Ele é um cara bem ocupado e nossas agendas começaram a entrar em conflito. Então, agora temos um baixista ótimo com a gente, Dolf DeBorst, que conhecemos desde o final dos anos 1990 quando nos encontramos na Nova Zelândia.

Como vocês decidiram se reunir?

Banda Hellacopters. Crédito: Hellacopters/Divulgação
Banda Hellacopters. Crédito: Hellacopters/Divulgação

Em 2016 nos chamaram para participar de um grande festival sueco chamado “Sweden Rock Festival”. Isso coincidiu com a Universal querendo relançar nosso disco de estreia. A gente começou a conversar e parecia bem legal tocar o primeiro álbum ao vivo, mais como uma coisa de uma vez só, com a banda original. Foi bem legal e começamos a ter mais ofertas. Uma coisa levou a outra e aqui estamos.

No que você esteve envolvido durante o período em que a banda esteve parada?

Eu, pessoalmente, além de ter dois filhos e um trabalho de meio horário num Centro Musical de Juventude, fiquei ocupado tocando em várias bandas. Na maioria, bandas suecas. Eu gravei dois discos e fiz turnês com Lars Winnerbäck, um artista sueco vencedor de vários discos de platina. Formei e lancei um álbum com uma banda chamada Tramp. Também fiz um monte de trabalhos como músico convidado em estúdio e fiz uma turnê no Japão com o Sylvain Sylvain, do New York Dolls. Atualmente, além do Hellacopters, toco com uma banda punk chamada KSM3, uma banda de powerpop chamada Strindbergs e uma banda de rock n’ roll chamada Black Weeds. Em breve vou tocar com o Keith do The Fishstones e alguns outros músicos, vai ser bem legal! Eu também trampo como DJ e me mantenho ocupado tocando com outras bandas como Backyard Babies, Lucifer e etc.

Durante o hiato de vocês, outras bandas suecas como Ghost e Graveyard ganharam notoriedade. Nicke já até se apresentou com o Graveyard algumas vezes. Você acha que o crescimento dessas bandas ajudou a atrair a atenção do público para bandas da Suécia?

É, acho que sim. Eu vi o Graveyard em Estocolmo um tempo atrás e foi demais! Eles são uma grande banda. Somos amigos há muito tempo e uma coisa engraçada é que o guitarrista deles, Jonathan (Ramm), foi nosso técnico de guitarra por um tempo, antes de entrar pra banda. Também curto bastante o Ghost e toda a imagem/mística da banda. Não vejo um show deles tem um tempo, mas já me encontrei com o Tobias (Forge, Papa Emeritus) algumas vezes.

Os fãs da América Latina estão fazendo uma campanha via “Queremos!” para uma turnê do Hellacopters por aqui...

Eu iria simplesmente amar tocar na América do Sul. Só fizemos três shows no Brasil, em 2003. Eu acho que seria simplesmente incrível e fico torcendo pra que a gente possa voltar algum dia. A gente já recebeu algumas propostas, mas ou o timing ou a questão financeira não estavam funcionando. Continuem pedindo pela gente!

Alguma lembrança especial da última vez que vieram ao Brasil?

Olha, foi uma das experiências mais memoráveis da minha vida, sério mesmo. Nossos shows foram

curtos, mas muito grandes em termos de público, porque estávamos abrindo para o Deep Purple e o Sepultura. Deveria ter rolado um quarto show, em Curitiba, eu acho. Mas que foi cancelado por causa de falhas na segurança. O que eu me lembro daquele dia é que terminamos a noite no bar do hotel com Ian Gillian e Roger Glover tomando uísque e ouvindo eles contarem histórias de estrada do Purple. Fora do hotel, estava um caos total com seguranças tentando manter os fãs do lado de fora, então a gente ficou preso lá dentro (risos). Em Belo Horizonte, nosso guitarrista, Robert (Strings) subiu no palco e tocou “Smoke On The Water” com o Purple. Isso também foi fantástico de ver.

Você está na banda desde o começo e, quando diz respeito aos discos de vocês, cada um é muito diferente do outro. Você pode falar um pouco sobre o processo de composição e como essa diferença entre as músicas afeta uma performance ao vivo?

Gosto muito do fato de que os nossos discos são diferentes. Ainda que eu consiga perceber que é a mesma banda (bom, quase). Algumas pessoas gostam mais das coisas mais barulhentas de antigamente e outras curtem mais as coisas mais recentes e mais limpas. Pra mim, todos são demais! Os primeiros álbuns foram feitos bem rápido no estúdio, mas já existia uma total concentração no trabalho. Quando a gente grava, não existe espaço pra perder tempo brincando, é entrar no estúdio e deixar o disco pronto. Se um take é bom, bora para o próximo. Agora, sobre a parte de composição, as músicas que o Nicke escreve, acho que só ele pode te dizer melhor. O que eu sei é que ele já tem a maior parte da música na cabeça. Nos anos 90, ele mostrava um riff, nós aprendíamos e partíamos para o próximo riff. Do “High Visibility” em diante, ele começou a gravar demos que a gente ouvia antes de começar a ensaiar. Depois a gente começava a trabalhar nas músicas nos ensaios mesmo antes de entrar no estúdio. Nessa hora, já conhecíamos as músicas tão bem que pouquíssima coisa era mudada no estúdio. Agora, quando tocamos ao vivo, queremos tocar músicas de todos os discos. Eu, pessoalmente, gosto de tornar cada performance um pouco diferente da outra – pra meio que me desafiar, tocar “no momento”. Quando o Strings entrou na banda, ele teve que aprender um monte das músicas mais velhas, que o Dregen tocava. Agora que o Dregen voltou, ele teve que aprender tudo que fizemos com o Strings. Eles são dois ótimos guitarristas, ambos excelentes de jeitos diferentes. Strings tinha uma pegada mais blues, o Dregen é mais punk.

A Suécia tem passado por um certo levante de movimentos de extrema direita. Qual a sua opinião sobre isso? Você acha que momentos de instabilidade política podem levar à criação de música e arte?

É horrível! Que nem o seu país com o Bolsonaro sendo eleito presidente. Mas na Suécia, o partido de extrema direita não está mandando. Ainda que estejam crescendo cada vez mais em cada eleição, estão por volta de uns 18% agora. Mas pra mim, a coisa mais alarmante que vem com isso tudo é que está ficando cada vez mais e mais comum as pessoas, simplesmente... serem racistas. Não dão a mínima pra nada. Eu vejo isso nas ruas e acho que mudou bastante desde quando eu cresci nos anos 1980 e 90. Está ficando mais comum no mundo em geral. Ninguém mais ajuda um ao outro. Todo mundo está ficando com cada vez mais medo de estranhos e ficando cada vez mais isolado e egocêntrico. A molecada fica na internet e não aprende como se comportar direito e interagir com diferentes situações, porque eles não são confrontados por essas situações o suficiente. Mas respondendo a sua pergunta, sim. Historicamente, a boa música, a arte e outros tipos de manifestações e movimentos, surgiram em momentos políticos ruins. Dessa vez, eu não tenho lá tanta certeza, porque o que tenho ouvido no rádio não faz muito o meu gosto. A música “nova” que eu escuto é bem underground. Mas eu fico com os dedos cruzados e faço o que posso para melhorar!

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