Os tiros disparados por um policial militar fardado, em serviço, que mataram duas mulheres em Cariacica não permitem eufemismos. O que se viu foi a completa inversão da função policial. A atividade que existe para proteger a vida apareceu como condutora da morte. A tragédia ganha contornos de indignação diante da informação de que o policial militar, um cabo, respondia a um processo anterior em um caso que também levou uma mulher trans à morte. O policial estava afastado das ruas desde 2022.
Em Cariacica, houve uma discussão entre vizinhos, uma ligação para o cabo da PM e, em seguida, tiros disparados pelo policial contra as duas mulheres. As reportagens apontam que estava em jogo uma desavença privada, e o que entrou em cena foi a autoridade pública armada, numa mistura altamente tóxica de poder, arma e emoção.
Quando a prerrogativa estatal se converte em ferramenta pessoal não dá para exigir menos que muito rigor na aplicação da lei e que as autoridades revisitem seus procedimentos institucionais. Algo ali deu muito errado, e fazer a correção é mandatório. As polícias, no geral, precisam aprender a dar respostas mais rápidas sobre a má atuação de seus membros à sociedade.
A arma do Estado nunca pode ser extensão do temperamento do agente. E muito menos instrumento de acerto de contas.
A prisão em flagrante imediata foi importante, mas não encerra a cadeia de providências. Os capixabas precisam saber se as restrições impostas ao policial eram adequadas e por que um caso anterior não produziu um desfecho mais restritivo às atividades do servidor. Ele estava armado. Deveria estar, nessas circunstâncias? A possibilidade de ter havido uma sucessão de erros que desaguaram em mais duas mortes deve estar no radar, inclusive para que se vedem essas falhas.
A resposta do governador Ricardo Ferraço, ao classificar o episódio como inadmissível e também informar a prisão do policial, prometendo rigor absoluto é adequada no tom e absolutamente necessária à população que precisa confiar nas instituições. As decisões tomadas daqui para frente são cruciais para sustentar a credilidade da corporação e do próprio conjunto da segurança pública.
Não pode haver impunidade quando um crime envolve um agente responsável por cumprir a lei, sob risco de descrédito e fragilização do poder público e do sistema de Justiça. Nenhum policial está acima da lei. O lamento da tia de uma das vítimas à TV Gazeta acaba apontando o caminho: "A gente está muito abalado e muito triste, sem saber o que a gente pode fazer, realmente não vamos poder fazer nada, só esperar a justiça agora". E ela não pode faltar.