Politização da cloroquina por Bolsonaro é piada cada vez mais sem graça

A cloroquina já se provou um assunto acessório, diante das prioridades sanitárias e econômicas impostas pela pandemia. Não há esquerda e direita quando a saúde está em risco

Publicado em 21/05/2020 às 06h00
Atualizado em 21/05/2020 às 06h00
Presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa
Presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa. Crédito: Marcello Casal JrAgência Brasil

Tubaína é um refrigerante tipicamente paulista, mas que acabou associada a qualquer bebida mais barata, de marca popular. Quando Bolsonaro faz a piada sem graça, relacionando a cloroquina à direita e a tubaína à esquerda, além do escárnio em um momento tão dramático para o país, ele mais uma vez impõe um caráter ideológico a uma questão que nada tem a ver com o espectro político, essa obsessão que impede qualquer avanço considerável no enfrentamento da pandemia.

Para piorar, coroa negativamente o dia em que o Brasil bateu recorde no número de mortes por Covid-19, com 1179 perdas registradas nesta terça-feira (19). Mesmo data em que se reuniu com presidentes de Vasco e Flamengo para um inoportuno retorno do futebol aos gramados

Mas o comentário jocoso e inconveniente sobre a cloroquina era apenas o prefácio do que viria nesta quarta-feira (20), quando o Ministério da Saúde enfim fez as vontades do presidente com a recomendação do medicamento  desde os primeiros sintomas da doença causada pelo coronavírus

É uma irresponsabilidade tão grande, que a piada do dia anterior ganha dimensões ainda mais sórdidas. A politização do uso do medicamento chega talvez ao seu ápice, sem que haja qualquer comprovação científica da eficácia da sua prescrição. Efeitos colaterais, como a arritmia, têm estado presente na crônica médica, uma razão a mais para a precaução. 

O diretor de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS), Michael Ryan, afirmou que tanto a cloroquina quanto a hidroxicloroquina  só devem ser usadas contra a Covid-19 em ensaios clínicos, sob a supervisão de médicos em hospitais. O que já vinha sendo feito no Brasil, é bom frisar.

O novo protocolo, ao permitir que médicos prescrevam as substâncias para pacientes em estágios iniciais, vai ampliar a vulnerabilidade, principalmente porque nesses casos o infectado permanece em quarentena domiciliar. Se houver algum problema, uma reação adversa, talvez não haja tempo suficiente para um atendimento médico. 

Dois ministros da Saúde caíram para que Bolsonaro não tivesse impedimentos para colocar em prática a nova diretriz: Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Ambos médicos, eles se se apoiaram nas respostas científicas que tinham até o momento para negar os caprichos presidenciais. O Ministério da Saúde nunca esteve em mãos mais convenientes para o governo, portanto. O caráter interino do general Eduardo Pazuello à frente da pasta tem tudo para se prolongar, já que, com ele no comando, Bolsonaro, um completo ignorante em protocolos médicos, conseguiu ditar a norma. 

É interessante destacar que o estoque disponível de medicamentos à base de cloroquina e hidroxicloroquina no Brasil teve crescimento de 30% em menos de um mês. A produção das Forças Armadas foi responsável por esse "boom", com 1,25 milhão de comprimidos fabricados pelo Exército no período. Enquanto isso, outros insumos médicos, como reagentes, continuam  escassos. Sem falar no maquinário hospitalar.

Há muito a ser feito pelo governo federal para conter a Covid-19 no país. A insistência em colocar a cloroquina em um pedestal cega o presidente para medidas que devem ser levadas a sério, como um isolamento social de fato rigoroso, que consiga frear o contágio.

A cloroquina já se provou um assunto acessório, diante das prioridades sanitárias e econômicas impostas pela pandemia. Não há esquerda e direita quando a saúde está em risco. Como disse o ex-ministro Mandetta à Globo News, entre a cloroquina e a tubaína, é hora de escutar a medicina.

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