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Pai que liberou corpo do filho em SML ilustra descaso do poder público

Falhas da Polícia Civil, como a falta crônica de funcionários, adicionaram crueldade ao drama de famílias que aguardavam para enterrar parentes. A solução é um concurso, mas a contratação de efetivo é promessa antiga que não se cumpre

Publicado em 18/02/2020 às 13h17
Gessé Barcelos vestiu um uniforme do SML e ajudou na liberação do corpo do filho. Crédito: Heriklis Douglas
Gessé Barcelos vestiu um uniforme do SML e ajudou na liberação do corpo do filho. Crédito: Heriklis Douglas

Não é preciso passar pela experiência para imaginar que uma das piores dores é aquela vivida por pais que perdem seus filhos. Em Colatina, no Noroeste do Estado, falhas imperdoáveis do poder público adicionaram crueldade ao drama de parentes e amigos que aguardavam a liberação de corpos no Serviço Médico Legal (SML), na segunda-feira (17). A tortura é ilustrada por Gessé Barcelos que, diante da falta de funcionários e cansado da demora, ajudou a liberar o corpo do próprio filho.

“Depois dessa dor ainda tenho que passar por isso, é preciso ser forte. Eu nunca pensei que ia ter que passar pela situação de tocar no corpo do meu filho em cima de um balcão, isso tudo para poder dar um velório e um enterro digno para ele”, disse o agente penitenciário à TV Gazeta, ainda vestindo o uniforme do SML.

Assim como ele, outras famílias passaram pela mesma provação. A angústia foi ainda maior pela falta de informações sobre os motivos do atraso – houve quem esperasse por mais de 12 horas. Cobrada pela reportagem, a Polícia Civil informou que existe a previsão de um concurso, com 173 vagas, entre elas para médico-legista e auxiliar de perícia. Nada foi dito, no entanto, sobre o que será feito até que o edital seja lançado, as provas sejam realizadas, os recursos sejam analisados e os aprovados finalmente ocupem os postos. Qual é o plano de emergência?

O concurso é necessário, vê-se. Mas vem muito tarde. Neste momento, o problema chega ao cúmulo de que pessoas vejam-se obrigadas a lidar com os cadáveres de seus parentes, mas a carência de funcionários não é de agora. Em outubro de 2019, o colunista Leonel Ximenes já apontava que os SMLs de Colatina, Linhares e Cachoeiro de Itapemirim estavam sem efetivo para atender a população. A solução do governo do Estado à época? Um concurso com 173 vagas.

Há ainda um outro componente nessa tragédia, que merece relevo. Não se critica a atitude de um pai que, diante do descaso do poder público, toma a atitude extrema de liberar o corpo do filho. Mas é inconcebível que autoridades tenham permitido a entrada de parentes em áreas reservadas de um órgão delicado como o SML. Eis aí mais uma tragédia para ajuntar às tantas desse caso.

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