A história de Dona Dila carrega o peso dos extremos. Uma mulher de 70 anos que, no alto do morro do Jaburu, em Vitória, encontra os maiores obstáculos para sair de casa: os físicos, por conta de uma artrose nos dois joelhos, são circunstâncias da vida; já as barreiras de acessibilidade que tornam a locomoção, essencial no cotidiano de qualquer pessoa, um suplício não precisariam existir.
A necessidade de se arrastar em uma pedra para buscar o neto na creche é chocante. É algo que só não inviabiliza o seu deslocamento porque esse atalho, sem pavimentação e iluminação e repleto de entulho, acaba sendo melhor para os seus problemas de mobilidade do que os degraus desnivelados da escadaria da comunidade, sem piso antiderrapante, corrimão e iluminação adequada.
É, como dito, uma situação extrema. E não pode ser minimizada: o direito de ir e vir precisa chegar a todas as pessoas, e essa luta não pode ser individual. Ela é coletiva, com pressão por políticas públicas consistentes para impedir que qualquer pessoa precise passar por situações degradantes assim.
Mesmo a circulação pelas ruas depende também de calçadas amplas, com acessibilidade, sem obstáculos. No ano passado, este jornal fez uma ronda pela Grande Vitória e mostrou um cenário bem problemático para quem anda pelas cidades. Esse ainda é um desafio urbano bastante negligenciado.
As condições dignas de mobilidade devem existir para as pessoas terem acesso a serviços básicos, mas não só para isso. Como afirmou o defensor público Tiago Bianco à repórter Nicoly Reis, "a deficiência não está na pessoa, mas na barreira". O caminho deve ser o melhor possível, nivelado para todos. Rampas, calçadas cidadãs, degraus seguros... os mais vulneráveis precisam da infraestrutura para garantirem seu direito de ir e vir.
Lamentavelmente, não é o que se vê. O acesso às residências nos morros de qualquer cidade brasileira é uma corrida de obstáculos, dificultando o deslocamento diário dos moradores para a escola, o trabalho ou qualquer outro compromisso. Há muitas Donas Dilas por aí, esperando intervenções urbanas que deem mais dignidade ao seu cotidiano. Enquanto houver uma pessoa em uma situação dessas, vamos continuar falhando coletivamente.
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