Na comunidade de Jaburu, em Vitória, Dona Dila passou a descer o caminho até a rua principal arrastando o próprio corpo. Aos 70 anos, com artrose nos dois joelhos, doença que surgiu nos últimos anos, ela já não consegue subir e descer a principal escadaria da comunidade sem sentir fortes dores.
O caminho que antes percorria de olhos fechados, como lembra, hoje só é possível graças À muleta e aos remédios, que, segundo afirma, a deixam “meio dopada”. “Eu desço arrastando, não tem como descer em pé”, relata.
A situação vivida por Dona Dila não é isolada. Composto pelas comunidades de Itararé, Jaburu, Bairro da Penha, Bonfim, Engenharia, Consolação, Floresta, Gurigica e São Benedito, o Território do Bem reúne um conjunto de becos e escadarias formado ao longo de décadas de ocupação, que hoje funciona como barreira ao acesso a direitos básicos. Problema que faz moradores se mobilizarem e pedirem melhorias de acessibilidade e mobilidade na região.
Para conseguir buscar o neto na creche, no bairro João Bandeira, Dona Dila abandonou os degraus e passou a usar um atalho improvisado: uma trilha de barro aberta entre pedras, sem pavimentação, sem iluminação e sem qualquer garantia de segurança. Em um dos pontos, precisa se arrastar sobre uma pedra alta para seguir caminho até a rua principal da comunidade.
De acordo com ela, o cenário se agrava pois o trecho é tomado por entulho, tábuas e mato alto. “Pode ter até escorpião. É uma nojeira”, diz.
Em dias de chuva, o trajeto fica ainda mais perigoso, e Dila prefere não sair de casa. À noite, quando precisa ir à igreja, a travessia é feita no escuro, guiada pela própria fé, como descreve: “Jesus vai me trazendo, eu vou subindo”.
Nicoly Reis
A dificuldade de locomoção reduziu a rotina da moradora. “Fico mais tempo em casa porque eu não consigo descer e nem subir”, conta.
O receio maior, no entanto, é em situações de emergência. Ambulâncias não conseguem acessar o local e carros por aplicativo param em pontos mais baixos do morro. “Se eu passar mal, como é que vou descer aqui?”, questiona.
A situação enfrentada por moradores do Território do Bem ocorre apesar de intervenções realizadas na região ao longo das últimas décadas. Procurada, a Prefeitura de Vitória informou que atua na área há 26 anos, com investimentos que ultrapassam R$ 60 milhões, incluindo obras de contenção, construção de escadarias e implantação de algumas rampas e passarelas.
Crédito: Fabrício Christ/ TV Gazeta
Morador há 40 anos do bairro Floresta, José Alves Pereira relata que levar idosos, crianças ou pessoas com deficiência a uma consulta médica exige que vizinhos os carreguem no colo ou em cadeiras, devido à falta de rampas. A dificuldade se agrava à noite, quando a ausência de iluminação pública esconde degraus irregulares e aumenta o risco de acidentes.
Para Ivete Pereira e Souza, presidente da associação de moradores de Floresta e Consolação, o problema impacta diretamente o acesso à saúde. “Se é acionada às 12h, uma ambulância só vai conseguir subir por volta das 17h”, relata. Segundo ela, quando não há ajuda de vizinhos, moradores com dificuldade de mobilidade acabam ficando trancados dentro de casa.
Pedido antigo
No Jaburu, a cobrança por melhorias é antiga. De acordo com Sebastião Luiz, presidente da associação de moradores, pedidos formais por intervenções nas escadarias são feitos desde 2010. A principal demanda é por obras que considerem critérios reais de acessibilidade, como degraus nivelados, piso antiderrapante, corrimãos e iluminação adequada.
A ausência desses elementos compromete o deslocamento diário de toda a comunidade, inclusive de crianças que precisam acessar a escola e de idosos que dependem de atendimento médico.
Para o defensor público Tiago Bianco, o problema não é apenas urbano, mas jurídico. Ele explica que o conceito de deficiência mudou e passou a considerar os obstáculos impostos pelo ambiente. “A deficiência não está na pessoa, mas na barreira”, afirma.
Segundo ele, quando a falta de acessibilidade impede o acesso a serviços básicos, há violação de direitos fundamentais. “Se a pessoa não consegue chegar a um posto de saúde, há violação do direito à saúde. Se não consegue acessar a Defensoria, há violação do acesso à justiça”, explica.
O defensor também destaca que o poder público tem responsabilidade objetiva nesses casos e não pode justificar a ausência de intervenções com base na falta de recursos.
Na avaliação do arquiteto Renan Grisoni, que atua há mais de 15 anos na região, a falta de mobilidade adequada tem provocado um movimento de saída de moradores mais velhos dos morros. “Muitos acabam procurando bairros mais baixos ou até outras cidades, porque não conseguem mais viver aqui”, afirma.
Ele defende que a mobilidade urbana deve ser tratada de forma integrada, com soluções que garantam autonomia, como a construção de rampas adequadas e alternativas de deslocamento.
Enquanto isso, moradores seguem aguardando intervenções. No caso de Dona Dila, a expectativa está na ligação entre os becos José Bones e José Rosa Neto, reivindicação antiga da comunidade.
Para ela, a mudança teria impacto direto na rotina. “Vai mudar a minha vida para subir e descer. E o caminho das mulheres que levam as crianças à creche”, afirma.
O que diz a prefeitura
Procurada, a Prefeitura de Vitória informa que realiza intervenções no Território do Bem há 26 anos, com investimentos que ultrapassam R$ 60 milhões. Segundo o município, desde 2021 foram executadas obras de contenção de encostas, reformas e construções de escadarias, além da implantação de algumas rampas e passarelas em diferentes pontos da região.
A gestão municipal também destaca obras em andamento, como novas escadarias, intervenções habitacionais e melhorias urbanas, além da entrega recente de equipamentos públicos, como o Complexo Esportivo do Jaburu, unidades de ensino e projetos na área da saúde.
Sobre a ligação entre os becos José Bones e José Rosa Neto, no Jaburu, a Secretaria de Desenvolvimento da Cidade e Habitação informa que a área está em avaliação quanto a risco geológico, nível de ocupação e situação fundiária, para verificar a possibilidade de realização de estudos técnicos.
Em relação às críticas sobre acessibilidade, a prefeitura afirma que, sempre que as condições do terreno permitem, são executadas rampas e passarelas. No entanto, em áreas de maior inclinação, a administração aponta que a solução tecnicamente viável é a implantação de escadarias com corrimão, devido a limitações geotécnicas e ao impacto que outras estruturas poderiam causar em imóveis existentes.
A prefeitura também diz que todas as demandas são analisadas com base em critérios técnicos de engenharia, segurança e impacto urbano, e que intervenções podem não ser realizadas quando há risco de deslizamento, inviabilidade construtiva ou interferência em áreas já consolidadas.
“Isso significa que cada demanda – incluindo a ligação de becos específicos, a instalação de rampas em locais de alta declividade ou o alargamento de vias para acesso de ambulâncias – é analisada sob critérios objetivos de engenharia, segurança e impacto urbano. Quando o estudo aponta impossibilidade construtiva, risco de deslizamento ou interferência irremediável em edificações consolidadas, a obra não pode ser executada, independentemente da vontade administrativa”, destaca.