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Opinião da Gazeta

Decisão sobre royalties reforça drama das “pobres cidades ricas” do ES

Terror se acentua em função da extrema dependência criada em torno do dinheiro que jorra nas administrações municipais. O petróleo acaba sendo uma riqueza que não consegue produzir mais riqueza, apenas a acomodação dos gestores públicos

Publicado em 10 de Outubro de 2020 às 06:00

Públicado em 

10 out 2020 às 06:00

Colunista

Presidente Kennedy: proximidade com Rio de Janeiro facilitou a propagação da Covid-19 na cidade
Presidente Kennedy foi a campeã capixaba de royalties em 2019, quando recebeu R$ 295 milhões Crédito: Divulgação
Com a guerra federativa do petróleo prestes a ser retomada com o julgamento no Supremo, em dezembro, da constitucionalidade da legislação que prevê a divisão de royalties e participações especiais com Estados e municípios não produtores, o fantasma da queda substancial de receitas no Espírito Santo, sobretudo nas cidades que mais arrecadam com a exploração, volta a assombrar.  
Se a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) nº 4.917 acabar sendo derrubada pelos ministros, a nova lei de partilha aprovada pelo Congresso em 2012 passará a vigorar, o que vai implicar em uma perda anual de 40% dos recursos do petróleo pelo Tesouro Estadual. O equivalente a R$ 560 milhões deixarão de entrar nos cofres públicos estaduais.
E esse terror se acentua em função da extrema dependência criada em torno do dinheiro que jorra nas administrações municipais. O petróleo acaba sendo uma riqueza que não consegue produzir mais riqueza, apenas a acomodação dos gestores públicos. Assim, municípios como Presidente Kennedy e Itapemirim, no Sul do Estado, tornaram-se o que já se convencionou chamar de “pobres cidades ricas”, pela incapacidade de diversificar suas economias. 
Municípios estagnados, mesmo regados por cifras milionárias, marcados por uma população pobre e pela baixa qualificação de mão de obra.
A incapacidade de disciplinar os gastos públicos perpetua o uso dos recursos no custeio da máquina pública. Práticas ilícitas ajudam a compor o cenário de degradação, com o patrimonialismo se infiltrando no poder público. Não há investimento em infraestrutura, não há um planejamento estratégico para tornar a economia mais dinâmica, não há geração de emprego. Tudo gira em torno da administração pública, sem produção de riqueza.
É como se todos ignorassem a finitude do combustível fóssil, pivô de tantos conflitos ao longo da história. O petróleo é uma fonte não renovável, um tesouro com prazo de validade, ainda que indefinido.  Na letra da lei, os royalties são uma contrapartida aos riscos ambientais e sociais da produção, deveriam portanto ser usados para proteger o futuro, não para imediatismos do presente.
Presidente Kennedy foi a campeã capixaba de royalties em 2019, quando recebeu R$ 295 milhões. É de fato o município mais emblemático, por ter um dos maiores PIB per capita do país sem que isso se traduza em desenvolvimento e qualidade de vida. Em 18 anos, a cidade abriu, em média, apenas 24 novos postos de trabalho formais por ano, de acordo com informações do Ministério da Economia.
O Espírito Santo, terceiro maior produtor do país, costura um acordo para que a perda seja de apenas 6% ao ano. Independentemente do resultado em dezembro, o relapso no trato dos recursos dos royalties já tem sido nocivo nessas cidades, sem impacto algum na atividade econômica. Mas ruim com eles, pior sem eles.

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