Quando uma família é assassinada porque não se curva ao domínio criminoso, como foi divulgado pela Polícia Militar sobre a chacina em Cariacica no último sábado (23), o que está em cena não é apenas um crime bárbaro, mas a demonstração brutal de que a ordem pública foi afrontada de forma inaceitável.
Essa tragédia no bairro Flexal II não pode ser tratada como mais um episódio da violência cotidiana. É uma mensagem criminosa que desafia o Estado, afronta a sociedade e tenta transformar comunidades em território cativo do tráfico. Quando facções passam a definir quem pode ficar, quem deve sair e que todos devem se curvar a elas, toda a sociedade perde com a democracia local sequestrada pela barbárie.
A população tem o direito elementar de circular, trabalhar, morar e criar os filhos sem ser submetida ao terror de grupos armados que ditam regras, expulsam famílias, tomam terrenos e impõem o medo como forma de sustentar o poder no território. É o mínimo, o básico, o essencial... e é revoltante que o contrário disso esteja se naturalizando. A indignação não pode adormecer quando pessoas são mortas por levarem a vida que bem desejam, dentro da lei.
As autoridades têm o dever de responder com rapidez. Atuar com investigação consistente que leve à prisão dos envolvidos e consequentemente à Justiça. Um suspeito de ser um dos atiradores foi preso, felizmente, outros quatro foram identificados pela polícia. O poder público deve manter presença permanente na área.
Além disso, a resposta não pode se limitar à repressão depois do alto preço pago com a vida dessas pessoas. É preciso incluir ocupação territorial, inteligência policial, proteção a moradores ameaçados e retomada concreta do espaço comunitário pelo Estado.
O que aconteceu em Cariacica é grave demais, é algo que mexe com nossas histórias pessoais, o fundamental direito que temos de tocar a própria vida com dignidade. Onde o crime dita as regras até de sobrevivência, a lei é reduzida a algumas palavras escritas num papel. E a violência não perde tempo em se instalar. E esse é o tipo de derrota que não dá para aceitar numa sociedade democrática.
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