Pergunte a qualquer multimilionário(a) como ele(a) construiu admirável resultado. É praticamente consenso que a resposta não será: “eu só estava tentando ganhar do CDI.” Estudos como o Capgemini World Wealth Report e o UBS Billionaire Ambitions Report apontam que pessoas com grandes patrimônios construíram riqueza empreendendo ou herdaram suas fortunas.
Em nenhuma possibilidade, o CDI (ou taxas equivalentes em outros países) teve papel central na estratégia. Curiosamente, um CDI mais baixo teria até ajudado bastante. Para entender essa dinâmica, é preciso reconhecer que a taxa DI (comumente chamada de CDI) nada mais é do que o quanto seu dinheiro deveria render no curtíssimo prazo (liquidez diária).
Faz muito sentido comparar os investimentos líquidos ao CDI. Um exemplo claro é a poupança, que hoje rende 0,5% ao mês mais TR (Taxa Referencial). Esse resultado é inferior à taxa DI oferecida por muitos CDBs no mercado, já pagando o imposto no resgate, e com o mesmo nível de risco (emissão bancária coberta pelo Fundo Garantidor de Crédito). De fato, investir em poupança é “deixar dinheiro na mesa”.
Por outro lado, investimentos de longo prazo apresentam uma dinâmica completamente diferente e a comparação com os resultados parciais não faz sentido algum. Considere comprar um imóvel na planta. Se, na semana seguinte, você ligar para o corretor imobiliário perguntando se o seu investimento já superou o CDI, provavelmente ele dará algumas longas risadas entendendo como uma boa piada.
Seja no mercado imobiliário ou em outras possibilidades de investimento, taxas DI mais baixas são grandes aliadas à construção de riqueza. Elas permitem menor custo de dívida, viabilizam projetos e elevam a TIR (Taxa Interna de Retorno) de muitos ativos. Um estudo de 1992, intitulado A Model of Growth Through Creative Destruction (Um Modelo de Crescimento por meio da Destruição Criativa), já havia relacionado juro baixo às iniciativas inovadoras. Para os autores, Philippe Aghion e Peter Howitt, juros altos reduzem o interesse por investimentos de longo prazo.
Isso explica muito do comportamento dos brasileiros com suas finanças. Mesmo que projetos de longo prazo tragam resultados promissores, por que reduzir liquidez se já é possível ser bem remunerado com liquidez diária? Esse é um viés que induz a comparação constante de carteiras de investimentos com o CDI.
O grande problema dessa comparação de curto prazo é que ela gera uma disfunção dupla. De um lado, drena o capital que deveria financiar projetos importantes para o país; de outro, sabota o potencial de multiplicação patrimonial das famílias no longo prazo.
Em se tratando de planejamento financeiro, o CDI apresenta pouca relevância no sentido que muito pouco se pode prever sobre seu comportamento futuro. O Relatório Focus, por exemplo, que apresenta o consenso do mercado sobre vários indicadores, constantemente altera suas previsões.
Mais importante do que tentar seguir o CDI é estabelecer os seus objetivos financeiros pessoais e utilizar ferramentas para alcançá-los. Nesse caso, é inevitável buscar ativos que superem a inflação, mas não apenas isso. Deve-se investir em oportunidades com ganho real superior ao necessário para que tais objetivos sejam atingidos.
Conhecendo o patrimônio inicial, a capacidade de aportes (renda menos despesas) e o patrimônio final desejado, é possível calcular a rentabilidade real (acima da inflação) necessária. Esse deve ser o foco de quem pretende enriquecer de fato.
Investindo no longo prazo, é perfeitamente possível superar a taxa de curto prazo (DI) simplesmente por uma questão de prêmio de risco (como provado por Sharpe em 1964). Entretanto, é preciso entender que a rentabilidade corrente de ativos de longo prazo não é uma “linha reta”.
Assim como incorporações imobiliárias, que precisam de tempo para retornarem o capital, outras possibilidades de alocação de longo prazo também exigem paciência e compreensão do investidor. A comparação recorrente com a taxa DI tende a trazer uma percepção incorreta sobre a qualidade dos ativos investidos e do retorno esperado. Em outras palavras, para superar o CDI, é preciso esquecê-lo.
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