Há notícias que dizem respeito apenas às empresas envolvidas. Outras revelam mudanças mais profundas. A decisão da Gávea Investimentos — do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga — de encerrar sua estratégia de fundos multimercados pertence à segunda categoria.
Quando um dos gestores mais respeitados do mercado brasileiro decide deixar uma classe de ativos que ajudou a consolidar, vale olhar além da manchete. O episódio revela como a indústria de fundos mudou nos últimos anos.
Durante muito tempo, os multimercados foram a grande promessa do mercado financeiro. A proposta era sedutora: entregar retornos superiores ao CDI explorando oportunidades em juros, bolsa, câmbio e ativos internacionais.
Entre 2012 e 2021, a indústria viveu uma expansão extraordinária. A queda da Selic levou investidores para produtos mais sofisticados, enquanto uma nova geração de gestoras independentes surgia. O patrimônio crescia e parecia existir uma máquina capaz de produzir retornos acima da média.
Mas nenhum setor cresce indefinidamente sem passar por um processo de seleção.
Hoje, o ambiente é outro. A renda fixa voltou a oferecer retornos elevados com risco bastante reduzido. Quando títulos públicos e CDBs oferecem taxas próximas de 15% ao ano, a régua para avaliar um multimercado sobe consideravelmente.
A pergunta já não é apenas se o gestor consegue ganhar dinheiro. É se consegue justificar o custo para tentar ganhar mais.
Taxas de administração de 2% ao ano, somadas a 20% de performance, tornam essa equação ainda mais difícil. Em momentos em que a melhor decisão é simplesmente permanecer conservador, o espaço para gerar alfa diminui, enquanto os custos continuam correndo.
Não é necessariamente uma questão de competência. É uma questão de contexto.
Os mercados ficaram mais eficientes, a informação circula em tempo real e estratégias que antes eram diferenciais passaram a ser mais conhecidas. Encontrar oportunidades realmente assimétricas ficou mais difícil.
Esse cenário ajuda a explicar outro movimento importante: a consolidação da indústria.
Nos últimos doze anos, surgiram centenas de fundos e dezenas de gestoras independentes. Agora, o movimento começa a se inverter. Fundos serão incorporados, gestoras buscarão fusões e produtos sem escala ou sem capacidade consistente de gerar valor tendem a desaparecer.
Não porque os multimercados deixaram de funcionar, mas porque o mercado ficou mais seletivo.
A decisão da Gávea simboliza essa transição. Bons gestores continuarão existindo e estratégias multimercado continuarão tendo espaço em carteiras diversificadas. O que parece estar ficando para trás é a expectativa de que sempre haverá um gestor capaz de entregar retornos extraordinários, em qualquer cenário, independentemente do preço pago pelo investidor.
Talvez essa seja a principal lição para quem investe.
O investidor não precisa procurar heróis. Precisa procurar processos sólidos, custos compatíveis e estratégias coerentes com cada momento do mercado.
Existem ciclos em que assumir risco é necessário. Em outros, preservar patrimônio é a melhor decisão disponível. Reconhecer essa diferença também é uma forma de gerar valor.
No fim, mercados maduros deixam menos espaço para promessas e mais espaço para consistência.
E talvez seja justamente isso que estamos começando a ver nos multimercados brasileiros.