Por muito tempo, o debate sobre a diferença de comportamento financeiro entre homens e mulheres recaiu sobre clichês rasos ou justificativas individuais. No entanto, dados recentes mostram que essa lacuna começa muito antes do primeiro emprego, da primeira conta bancária ou da formação da própria família.
Um estudo inédito conduzido por pesquisadores da FGV-EESP, da Universidade Stanford e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), viabilizado pelo projeto Equidade Info, revelou um diagnóstico preocupante: alunas adolescentes têm uma probabilidade 14,3 pontos percentuais menor de dominar conceitos fundamentais de finanças em comparação aos seus colegas do sexo masculino.
O achado rebate qualquer argumento sobre diferenças biológicas ou de capacidade intelectual. A disparidade não está nas métricas de aprendizado geral, mas no repertório, na confiança e no estímulo cultural.
O ecossistema em que o jovem está inserido, da conversa à mesa de jantar às dinâmicas em sala de aula, tende a socializar os meninos mais cedo para temas como investimentos, autonomia e risco, enquanto priva as meninas desse mesmo convívio com o tema.
As consequências dessa assimetria inicial acumulam-se ao longo do tempo. Uma jovem que cresce menos confiante para discutir finanças tende a ingressar na vida adulta mais vulnerável ao endividamento, menos propensa a gerir ativos com autonomia e em desvantagem na construção de patrimônio.
A educação financeira nas escolas surge, portanto, não apenas como uma pauta de cidadania econômica, mas como uma ferramenta indispensável de equidade. Reduzir esse abismo exige intencionalidade: é preciso criar ambientes em que as alunas sejam ativamente incentivadas a participar de discussões sobre dinheiro, formular perguntas e tomarem decisões estratégicas sem o receio do julgamento.
Ao trazer o viés de gênero para o centro da gestão educacional e das políticas públicas, o estudo do projeto Equidade Info deixa claro que ensinar finanças não é só uma questão de matemática, mas de democratização de oportunidades desde a base.
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