Quem acompanha esta coluna em A Gazeta conhece a postura de permanente vigilância contra o voluntarismo econômico. Não faz muito tempo, criticou-se por aqui o que foi classificado como o "perigoso malabarismo do Copom". Na ocasião, o Banco Central insistia em esticar horizontes inflacionários para chancelar quedas de juros que flertavam diretamente com o risco fiscal, o que arranhava a credibilidade técnica da instituição. Destarte, o tempo provou que a prudência deveria ter ditado o tom desde o início, e os fatos deram razão aos alertas emitidos por esta coluna.
Na última quarta-feira (4), ao manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, o Copom finalmente puxou o freio de mão e adotou a sobriedade que o cenário exige. Diferentemente de parte do mercado que reagiu com surpresa, a interrupção no ciclo de quedas é vista aqui como uma vitória da responsabilidade sobre o simbolismo. Juros baixos são o desejo de toda a sociedade; entretanto, o "preço do dinheiro" não aceita desaforo ideológico, leniência fiscal ou pressões de curto prazo.
Olhar para o retrovisor ajuda a compreender por que o comitê agiu de forma amplamente acertada. Em março de 2024, quando a Selic caiu para 10,75%, esta coluna ponderou que o movimento exigia cautela extrema com a inflação interna e com a dinâmica global. O que se viu nos meses seguintes foi o oposto da calmaria: o IPCA estourou o teto da meta ao acumular 4,58% e o dólar em forte escalada, enquanto o governo federal operava no sentido inverso, estimulando o crédito e anulando o esforço técnico da autoridade monetária.
Para além das fronteiras domésticas, a postura do Banco Central brasileiro apenas se alinha à rigidez que hoje impera nos principais centros financeiros do mundo, sem a necessidade de uma submissão cega aos humores de Washington. O Banco da Inglaterra, em Londres, acaba de subir os juros britânicos para 4%, o Banco do Japão (BoJ) elevou sua taxa para conter preços e o Banco Central Europeu (BCE), ditando o ritmo de potências como a Alemanha, travou um freio rígido em patamares elevados, escoltado por autoridades monetárias em diversos países asiáticos. Ignorar esse cordão global de isolamento contra a inflação seria uma aventura desastrosa para a estabilidade do real.
Portanto, o país já pagou caro demais no passado pelo voluntarismo de tentar forçar a queda dos juros por decreto econômico. A decisão atual mostra que, entre o malabarismo estatístico e a sobriedade fiscal, o comitê escolheu o único caminho que garante a preservação do poder de compra. Para o poupador capixaba, o recado é continuar colhendo prêmios reais robustos na renda fixa por mais tempo, enquanto para o tomador de crédito a ordem permanece de máxima cautela e orçamento estritamente defensivo.
Leia mais na coluna de Carol Campos