Veja os números e os fatores que determinaram a queda de Roberto Sá
Mudança na Segurança Pública
Veja os números e os fatores que determinaram a queda de Roberto Sá
Secretário de Segurança não resistiu a indicadores ruins. Nos últimos seis meses, ES registrou aumento de 14,4% nos homicídios, frente ao período de outubro de 2018 a março de 2019
Roberto Sá foi exonerado da Sesp por causa do recrudescimento dos homicídiosCrédito: Amarildo
Os números não mentem. Em agosto do ano passado, a taxa de homicídios dolosos no Espírito Santo voltou a crescer e, desde então, vem numa curva ascendente. O último trimestre do ano passado foi muito ruim. Janeiro foi muito ruim. Fevereiro, pior ainda. Em março, a situação explodiu. Para culminar, este início de abril foi trágico.
Foi a essa realidade estatística que sucumbiu Roberto Sá, substituído nesta terça-feira (7) oficialmente pelo coronel Alexandre Ramalho no cargo de secretário estadual de Segurança Pública, por decisão do governador Renato Casagrande (PSB). O que lhe custou o cargo foram os resultados insatisfatórios, muito aquém do esperado, nos últimos seis meses, no que se refere aos crimes violentos.
Mas o bom resultado englobando o ano todo “mascarou” o recrudescimento que já se observava desde agosto daquele ano. As melhores marcas, que garantiram ao governo fechar o ano com menos de 1 mil homicídios, foram alcançadas até julho.
A metodologia adotada pelo próprio governo (comparação de cada mês com o mesmo mês do ano anterior) também mostra, sem erro, o alarmante crescimento. De outubro de 2018 a março de 2019, foram registrados 540 assassinatos no Espírito Santo.
Já nos últimos seis meses, de outubro de 2019 a março deste ano, foram contabilizados 618 homicídios, um aumento de 14,4% comparando-se períodos iguais. O ritmo é muito acelerado. Se mantido nos próximos seis meses, num exercício de projeção, o Espírito Santo poderá registrar mais de 1,2 mil mortes do tipo em um intervalo de 12 meses.
618 HOMICÍDIOS
FOI O NÚMERO DE ASSASSINATOS PRATICADOS NO ESPÍRITO SANTO ENTRE OUTUBRO DE 2019 E MARÇO DESTE ANO, CONTRA 540 DE OUTUBRO DE 2018 A MARÇO DE 2019 (UM AUMENTO DE 14,4% NA COMPARAÇÃO DOS PERÍODOS)
Não só isso: se isolarmos o último trimestre, a curva de crescimento é ainda mais aguda. De janeiro a março deste ano, ocorreram 346 homicídios dolosos, ante 283 no primeiro trimestre de 2019, um aumento de 22%.
Contudo, fontes externas ao governo e ligadas à área de Segurança Pública no Estado apontam dois outros possíveis fatores, ambos relacionados à pandemia do coronavírus e às suas consequências.
É preciso levar em conta o timing em que a mudança ocorre: Casagrande decide tomar uma medida drástica como essa e muda, sem aviso prévio, a chefia de uma pasta tão sensível como a de Segurança em plena crise da pandemia do coronavírus, que já faz vítimas no Espírito Santo. A princípio, se não julgasse extremamente urgente e necessário, nenhum governador faria isso agora, e sim depois que o pior momento da pandemia já houvesse passado. Por que logo agora, então? O cálculo político também pode ter pesado na decisão.
O auge da contaminação se aproxima no Espírito Santo, e Casagrande mantém, como outros governadores mas contra a vontade declarada do presidente Jair Bolsonaro, o seu decreto que prevê medidas de isolamento e de distanciamento social. Tem se mantido firme nesse sentido. Mas a oposição a Casagrande, principalmente a vinculada ao bolsonarismo, está batendo nessa decisão.
Um dos argumentos dos opositores é exatamente o de que a quarentena favorece a bandidagem, isto é, a ação livre dos criminosos pelas ruas despovoadas. E o fato é que o índice de homicídios realmente está crescendo, o que está dando argumentos para os opositores. Com a mudança radical de secretário e de perfil no comando da Sesp, Casagrande pode ter tentado estancar essa sangria, dando uma resposta firme e imediata no controle da violência.
Já prevendo isso, Casagrande talvez tenha se antecipado, trocando Roberto Sá pelo coronel Alexandre Ramalho, que é, reconhecidamente, um oficial “linha-dura”, como já mostrou no governo Paulo Hartung, durante a greve da PMES. Um militar que pratica à risca a cartilha “disciplina, respeito à hierarquia e cumprimento do dever funcional”, a despeito de questões corporativas e salariais.
Certamente, o novo secretário terá mais condições de “controlar” eventuais focos de insatisfação e até de rebelião dentro da tropa do que teria Roberto Sá, que inclusive é de fora do Estado e não só conhecia pouco as tropas como era bem pouco conhecido por elas.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.