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Vitor Vogas

Ricardo distribui acenos para a esquerda, o centro e a direita não radicalizada

Equilibrando pratos, governador fez acenos importantes na sabatina de A Gazeta e CBN, definindo-se como de “centro-direita”, representante do “centro democrático” e avesso a “autoritarismo”

Publicado em 09 de Outubro de 2026 às 16:06

Públicado em 

09 out 2026 às 16:06
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Ricardo Ferraço na sabatina A Gazeta e CBN Vitória
Ricardo Ferraço na sabatina A Gazeta e CBN Vitória Arte AG

“Eu sou reconhecidamente uma pessoa de centro-direita.” A afirmação foi feita pelo governador Ricardo Ferraço (MDB), durante a sabatina do candidato à reeleição para A Gazeta e a CBN Vitória, na manhã desta sexta-feira (9). A “autodeclaração” confirma uma obviedade: por sua história política e suas convicções pessoais, Ricardo realmente é e sempre foi um político de centro-direita (ou direita moderada). A novidade é ele ter verbalizado isso, dando a si mesmo uma definição do ponto de vista ideológico.


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Durante todo o 1º turno – inclusive em nossa sabatina, na qual lhe perguntei diretamente sobre isso –, Ricardo evitou qualquer tipo de identificação político-ideológica.


Agora, classificar-se como centro-direita denota uma mudança de estratégia por parte de Ricardo, acenando para esse eleitorado que também se identifica assim.


Trata-se de parcela significativa do eleitorado capixaba. Segundo a Quaest de 25 de setembro, 22% dos eleitores do Espírito Santo se consideram de “direita não bolsonarista”. A pesquisa também mostrou que Ricardo estava perdendo por muito, para Pazolini, não só entre os “bolsonaristas”, mas também entre a “direita não bolsonarista”. Essa tendência captada pela Quaest certamente escoou para as urnas no último domingo (5).


Esse foi o primeiro aceno importante feito por Ricardo na sabatina. Mas não foi o único. Ao mesmo tempo, ele acenou para eleitores de centro, mais independentes (28% do total, segundo a Quaest) e, de maneira mais sutil, também para eleitores de esquerda que, no 1º turno, deram 15,32% dos votos válidos para Helder Salomão (PT).


Como Ricardo fez isso? Fazendo questão de se definir, também, por *seis vezes* ao longo da entrevista, como um representante do “centro democrático” e como alguém que não tem “viés autoritário”.


Ele deixou claro que não é de esquerda (e não é mesmo, esta é outra obviedade). Mas, ao incluir a si mesmo no campo democrático e frisar que não tem “viés autoritário”, Ricardo, nas entrelinhas, quer dizer para esse eleitor que foi com Helder no 1º turno e agora está meio à deriva: “para você que é contra a radicalização de direita e vê algum risco à democracia do país, eu sou sua melhor opção no Espírito Santo; sou seu ‘voto útil’”...


Até porque, por essa ótica, esse mesmo eleitor rejeita a candidatura de Pazolini, aliado de Flávio Bolsonaro (PL) e agora colado na imagem dele no 2º turno.


A declaração de Ricardo e seu subtexto estão em linha com a nota oficial do PT-ES, orientando seus filiados e apoiadores a votarem contra Pazolini no Espírito Santo (precisamente, “nos aliados do candidato Flávio Bolsonaro”), embora sem um apoio explícito a Ricardo. O argumento central do PT-ES: “não permitir retrocessos e ameaças à democracia”. Foi emblemático, aliás, que o PT tenha emitido sua nota oficial logo após a sabatina de Ricardo.


Pessoalmente (até por coerência), Ricardo não está alinhado com Lula... Mas notem bem: na sabatina, foi igualmente emblemático que ele não tenha declarado voto em Flávio para presidente (enquanto 16 diretórios estaduais do MDB já o fizeram). Se o fizesse, automaticamente se incluiria entre “os aliados do candidato Flávio Bolsonaro”, rechaçados pelo PT-ES.


Mais uma vez questionado sobre quem apoia para presidente, o governador do Espírito Santo preferiu não declarar voto. Se tivesse manifestado preferência por Flávio, teria instantaneamente perdido os potenciais milhares de votos que foram para Helder no 1º turno – decisivos se ele quiser nutrir alguma esperança de virar o jogo contra Pazolini.


Os votos dos bolsonaristas mais engajados – aqueles que só votam em quem está com Flávio –, Ricardo dificilmente terá, ainda mais agora que Pazolini colou de vez no presidenciável do PL.


Mas nem todos os eleitores de Flávio necessariamente votarão em Pazolini. Há aqueles da direita moderada, ou direita não bolsonarista, que votam em Flávio contra Lula para presidente, por absoluta rejeição ao petista, mas podem preferir um governador de centro-direita democrática, com o perfil de Ricardo, para governar o Espírito Santo. A campanha pelo voto “RicaNaro”, inclusive, já foi posta por aliados dele (não ele) nas redes.


É para esse eleitorado que Ricardo fez o primeiro aceno. Se fizesse um gesto muito forte para atrair eleitores de Lula, ele poderia afugentar essa grande parcela de eleitores da direita não bolsonarista.


Ao mesmo tempo, se fizesse um gesto forte em direção ao bolsonarismo, para atrair eleitores de Flávio, ele perderia de cara a possibilidade de conquistar “votos úteis” de petistas (e da esquerda em geral) no 2º turno.

O difícil equilibrismo de Ricardo

É nessa delicada situação que Ricardo busca agora se equilibrar no 2º turno. Está como um equilibrista de pratos, tentando girar um nesse canto, sem deixar que o outro, no outro canto, pare de girar.


É difícil a situação do governador porque, mais uma vez, numa espécie de terceiro tempo de um desgastante Fla x Flu político (2018, 2022 e agora), que já exauriu grande parte da população, as eleições presidenciais estão extremamente polarizadas, o país está cindido ao meio do ponto de vista ideológico e, em grande medida, isso acaba desaguando nas disputas locais nos estados.


Nesse contexto novamente tão polarizado, no qual grande parte do eleitorado quer e cobra posicionamento para um lado ou para o outro, Ricardo ficou sem um “gancho”: enquanto Pazolini é o candidato do Flávio, Ricardo não é (nem pode ser) nem o do Lula nem o do Flávio.


Para poder continuar no cargo, o sucessor de Renato Casagrande (PSB) precisa dos votos dos eleitores de Lula, sem poder se associar diretamente ao atual presidente. E necessita dos votos dos eleitores de Flávio, sem poder se vincular pessoalmente ao filho de Jair Bolsonaro.  

O que disse exatamente o governador

“O povo capixaba me conhece. O povo capixaba sabe que eu não sou uma pessoa de esquerda, mas sabe que eu sou uma pessoa do campo democrático, com capacidade para entender a pluralidade da sociedade, mas com capacidade de fazer o Espírito Santo avançar.”

 

“A gente não é o que é do dia para a noite. A gente é aquilo que a trajetória da vida da gente indica. Eu sou uma pessoa reconhecidamente como de centro-direita, mas eu sou uma pessoa democrática. Eu sou uma pessoa que entendo e respeito a pluralidade da população capixaba. Eu sou uma pessoa que não tem viés autoritário. Eu sou uma pessoa que sabe dialogar, que sabe mobilizar, que tem capacidade de construir agenda, que tem capacidade de respeitar os movimentos sociais, entendendo que na sociedade você precisa ir para muito além, quando você governa, das pessoas que pensam igual a você.”

 

“Eu não estive com o candidato Helder, eu não estive com o PT. A população capixaba conhece a minha trajetória de vida. Eu não sou uma pessoa da esquerda, eu sou uma pessoa de centro-direita, mas eu sou uma pessoa do campo democrático. Nós vamos seguir nessa direção com essa capacidade de conversar com todo mundo que deseja o bem do Espírito Santo, que deseja o fortalecimento do Espírito Santo, que quer ver o Espírito Santo avançar e avançar com velocidade.”

 

“Eu não tive oportunidade de conversar com o Helder, nem com o PT, mas obviamente que o projeto que eu lidero é um projeto que na minha base tem pessoas que vão votar com o Lula e tem pessoas também que vão votar com o Bolsonaro. Como eu sou do campo democrático, eu lidero uma plataforma, eu lidero um movimento político amplo e democrático.”

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Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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