Desde o fim da semana passada, a campanha de Ricardo Ferraço
(MDB) “abriu a caixa de ferramentas”. Está indo para o ataque com todas (ou
quase todas) as armas, intensificando a estratégia de desconstrução da imagem
projetada pela campanha de Pazolini, em várias frentes e de várias formas.
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Decompondo, letra por letra, o nome próprio Ricardo
(R-I-C-A-R-D-O), chegamos a um acrônimo que contém as sete principais
estratégias da campanha do governador do Estado, executadas de maneira
combinada nesta linha de chega:
Risco
Incoerência
Comparação
Artificialidade
Renato Casagrande
Dona Vivian
Ovo Maltine
Risco
A campanha de Ricardo passou a explorar com força um dos
sentimentos mais primários do ser humano e um dos principais mobilizadores de
qualquer tomada de decisão, não só na política: o medo.
Ricardo e sua propaganda têm enfatizado a palavra “risco”. Têm espalhado a mensagem de que eventual eleição de Pazolini representaria o risco de retrocesso e de paralisação de obras.
“Acho que não é certo, neste
momento, a gente trocar o certo pelo duvidoso”, diz um cidadão num programa
eleitoral do candidato do MDB. “O perigo é caos”, diz outro.
Pazolini tem afirmado que, se ele for eleito, nenhuma obra
será interrompida, pois os recursos e os equipamentos pertencem ao povo.
No último programa eleitoral de Ricardo, exibido na noite
desta quarta-feira (21), um bom pedaço foi dedicado à reforma da Previdência
municipal feita por Pazolini como primeiro ato de governo na Prefeitura de
Vitória, com uma alíquota de 14% descontada dos pagamentos dos servidores
aposentados. O locutor conclui, em tom alarmista: “Com Pazolini, sua
aposentadoria está em risco”.
A campanha do atual governador tem procurado apresentar
incoerência entre o suposto “comportamento real” do adversário e a promessa de
“paz” (primeiras letras do nome Pazolini) que é o lema da campanha do
ex-prefeito. O nome da coligação, inclusive, é “Paz pra viver um novo tempo”.
Ricardo tem explorado o mote de que Pazolini seria
“autoritário” e perseguiria quem discorda dele. Sua campanha tem veiculado
fartamente trechos de uma conversa telefônica de Pazolini com o vereador Dalto
Neves.
O diálogo ocorreu em março, tendo como pano de fundo a
eleição do próximo presidente da Câmara de Vitória. À época, o áudio da
conversa foi vazado. O então prefeito interpela o interlocutor, pré-candidato à
presidência da Casa: “Nós vamos cair pra dentro e só vai ficar um vivo”. Em
outro trecho, questiona: “Você quer guerra ou quer paz?”
O objetivo da campanha de Ricardo é expor possível
incongruência entre o discurso do adversário e sua prática como homem público.
Enquanto isso, o governador busca apresentar a si mesmo como um homem de
diálogo, que “sabe conviver com as diferenças”.
Na principal cartada deste tópico, Ricardo apresentou nesta
quarta-feira (21), no horário eleitoral e nas redes sociais, o depoimento de um
cadeirante. Vestindo a camisa da Seleção Brasileira, ele relata que, após uma
reunião na Prefeitura de Vitória, teria cobrado de Pazolini políticas para PCDs
e teria ouvido dele uma resposta atravessada. “É completamente agressivo com
quem cobra”, alega o cidadão, de nome José Olympio Barreto.
Comparação
Ricardo passou a aprofundar a estratégia de comparação não
só de projetos, mas sobretudo de perfis, tachando o adversário como “imaturo”:
“É o respeito contra a falta de respeito, a capacidade contra a imaturidade”,
diz o governador, numa inserção.
Ele também tem investido fortemente na comparação de
resultados. Num post, por exemplo,
afirma que Pazolini não entregou nenhuma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em
seus mais de cinco anos como prefeito de Vitória, enquanto o governo dele entregou
108 novas Unidades Básicas de Saúde. A conta evidentemente abrange o governo
Casagrande.
O A poderia ser de “agressividade” ou “autoritarismo”,
predicativos que Ricardo também tem atribuído ao adversário, mas isso já foi
citado acima. O ponto aqui, então, é uma suposta “artificialidade”: o
governador tem dado declarações no sentido de que o ex-prefeito não seria mais
que um personagem.
Ricardo passou a rotular o oponente como um “caçador de likes”, muito eficiente no uso das redes
sociais, mas, segundo ele, sem trabalho e resultados para mostrar.
“Talvez eu não tenha a mesma simpatia do meu adversário,
talvez eu não tenha a mesma performance nas redes sociais. [...] Desejo
continuar governando o estado do Espírito Santo, para muito além das redes
sociais, para muito além de likes”,
disse o atual incumbente, em sabatina a A Gazeta e CBN Vitória – feita com ele
no último dia 13, no lugar do debate previsto e não realizado devido à ausência
de Pazolini.
Em outra entrevista, Ricardo insinuou que seu adversário é
um showman.
Como é público e notório, o ex-governador e agora senador
eleito é não só o maior apoiador de Ricardo como foi a fiador da candidatura do
seu sucessor. Não faltavam interessados no posto de “candidato do governo”,
como o prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), mas Casagrande bancou
seu então vice-governador.
Até o começo do período oficial de campanha, o antecessor de
Ricardo participou intensamente da campanha dele. Depois, não é que tenha
sumido, mas precisou ir cuidar da própria campanha a senador.
Agora no segundo turno, já eleito, Casagrande voltou a
concentrar total atenção e empenho na campanha de Ricardo. Além de ser presença
constante ao lado dele em atividades de rua, voltou a aparecer com destaque na
sua propaganda. “Tem coisas na vida que a gente só valoriza quando perde”,
declarou Casagrande, no programa levado ao ar nesta quarta.
Coincidência ou não, é a mesma frase dita, em entrevista à
coluna, por Renato Quaresma, marqueteiro potiguar que veio do Nordeste para “reforçar” a equipe de comunicação e propaganda de Ricardo no segundo turno.
A primeira-dama, Vivian Coser, passou a desempenhar um papel
mais destacado no segundo turno. Logo na reestreia de Ricardo no horário
eleitoral, ela ficou em cena mais tempo que o próprio candidato, dando um
depoimento sobre o marido e seus atributos.
A esposa de Ricardo também tem aparecido frequentemente ao
lado dele em comícios e até participado de agendas próprias, como uma plenária
com mulheres apoiadoras, ao lado da vice-prefeita da Serra, Gracimeri Gaviorno
(MDB), e da ex-vice-prefeita de Vitória Capitã Estéfane (Podemos).
Por fim, a campanha de Ricardo passou a sublinhar a relação
político-eleitoral entre Pazolini e o senador Magno Malta. Este é o presidente
estadual do PL e fiador da aliança do partido da família Bolsonaro com o
Republicanos desde o primeiro turno no Espírito Santo.
No último sábado, ambos estiveram lado a lado no trio
elétrico de Flávio Bolsonaro (PL), no grande ato de campanha realizado pela
orla de Camburi, em Vitória, diante de uma multidão de apoiadores.
Na propaganda de TV de Ricardo levada ao ar na terça-feira
(20), apresenta-se o “Pazolovo” (trocadilho com a conhecida marca de chocolate
em formato oval que sempre vem com uma “surpresinha” dentro). Na animação
digital, de dentro do ovinho de chocolate, sai um bonequinho representando
Magno, tratado como “mentor” de Pazolini.
O texto explora (olha ele aí de novo) o medo de ascensão
indireta de Magno ao poder estadual – ao qual jamais teve acesso –, bem como a
suposta incoerência com o discurso de “novo tempo” e “nova política”.
“Esse é o Pazolovo. Tem capixaba sendo enganado por ele.
Quer ver a surpresinha que vem dentro? O Pazolovo é o único que vem com Magno
Malta. Magno Malta é o mentor e maior aliado político de Pazolini. Pazolini se
apresenta como ‘nova política’, mas a verdade é bem diferente disso. Ele
esconde quem vem com ele. Não se engane: votou Pazolini, levou Magno Malta”.
A postura da campanha
de Pazolini: acoplagem em Flávio
Enquanto a campanha de Ricardo parte com tudo para a
ofensiva, a de Pazolini não tem revidado ataques – em atitude típica de quem
está na frente e não se sente ameaçado na corrida.
Na realidade, a grande novidade da propaganda de Pazolini do
primeiro para o segundo turno, já tratada aqui, foi a definitiva acoplagem na
campanha de Flávio Bolsonaro para presidente, com a pregação do voto casado: o
candidato do Republicanos para governador; o do PL para presidente.
A apoteose dessa estratégia se deu no último sábado, no
“Bloquinho 22” de Flávio em Vitória, um desfile num trio elétrico por um
trajeto de 1,3 quilômetro pela orla de Camburi, que atraiu milhares de
apoiadores. Pazolini ficou o tempo todo no trio elétrico ao lado de Flávio e de
outras celebridades do PL nacional, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato,
além do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Os discursos foram brevíssimos, serviram para energizar a
massa de apoiadores, mas nada acrescentaram em termos de ideias e propostas.
Nikolas falou palavras de ordem contra o PT (“Petista não se cria no Espírito
Santo”). Pazolini cantarolou o refrão do seu jingle e logo passou a palavra a Flávio, que fez uma fala bem
rápida e superficial. Em menos de 5 minutos, disse coisas como “mudança”, “a
era do PT vai acabar” e “vocês vão viver no melhor Brasil que já viveram”.
Contudo, além da imensa mobilização popular, o ato serviu
para consumar a aliança de Pazolini com o bolsonarismo e rendeu muitíssimas
imagens valiosas para sua campanha a governador. Nesta quarta-feira (21), foram
ao ar takes não só da multidão, mas
dele mesmo ao lado de Flávio e Nikolas, por exemplo.
Não passou despercebido que a campanha não usou nenhuma
imagem de Pazolini com Magno, embora o senador também estivesse próximo a ele
no trio. Aliás, Magno não aparece em nenhum frame.
Críticas ao atual
governo: comissionados e feminicídios
Não são exatamente revides pessoais, mas a campanha de Pazolini
também tem criticado o atual governador por, supostamente, gastar mal. Como já
fez em entrevista à TV Gazeta, sua propaganda prometeu o corte de centenas de
cargos comissionados para economizar dinheiro.
“O Espírito Santo tem dinheiro. Tem arrecadação forte. Mas
quando a gente olha os gastos, alguns números chamam a atenção. O Estado tem
cerca de 4.400 cargos de confiança, que custam quase R$ 300 milhões por ano.
Gastar dinheiro público é uma coisa. Fazer esse dinheiro virar resultado na vida
das pessoas é outra”, diz o locutor.
Outra crítica vem numa inserção, que destaca: o Espírito
Santo tem a maior taxa de feminicídios da Região Sudeste. “Combater feminicídio
é decisão de governo. E o governo atual decidiu não enfrentar.”
A campanha também segue apresentando o ex-prefeito como
símbolo de renovação política, abraçado pela população capixaba. “Pazolini é
safra nova na política, e o povo está com ele.”
Também se adotou a estratégia de responder às investidas
adversárias com alguns compromissos básicos:
“Eles atacam, e o Pazolini responde com estrada, internet restaurante
popular...”. “Ataque não cura ninguém. Hospital funcionando, sim”. “Ataque não leva
desenvolvimento para lugar nenhum. Governo perto, sim”.
Adendo 1: Pazolini
aparece na de Flávio
A propaganda de Flávio citou de passagem o ato em Vitória e,
por um ou dois segundos, Pazolini apareceu num frame ao lado de Flávio no alto do trio elétrico.
Adendo 2: a de
Ricardo teve um upgrade
No primeiro turno, critiquei aqui a propaganda eleitoral de
Ricardo, particularmente na TV. Estava meio sem rumo e, principalmente, sem
ritmo. Para fazer justiça: melhorou bastante no segundo turno, na forma e no
conteúdo. Ficou mais dinâmica e mais assertiva.
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