Na França, a jornada legal de trabalho é de 35 horas semanais. As férias são de cinco semanas por ano. O sistema de saúde oferece cobertura universal e serviços de reconhecida qualidade, utilizados amplamente pela classe média. A proteção é tão abrangente que, em determinadas circunstâncias, até as despesas com táxi para consultas e tratamentos médicos são reembolsadas.
A generosidade francesa vai muito além. Existem programas de habitação social, aluguéis subsidiados, auxílios para moradia e uma extensa rede de proteção às famílias de baixa renda. Quem perde o emprego encontra um seguro-desemprego que substitui uma parcela considerável da remuneração anterior, por períodos que podem ultrapassar um ano. Há benefícios familiares, creches subsidiadas, educação pública, aposentadorias e incontáveis mecanismos de assistência social.
A França também incorporou praticamente toda a agenda identitária e de costumes do progressismo contemporâneo. O aborto é legalizado, com sua liberdade expressamente protegida pela Constituição. A diversidade sexual e de gênero ocupa lugar destacado nas políticas públicas, o combate à discriminação orienta a atuação do Estado e o reconhecimento das diferentes identidades tornou-se parte importante do discurso institucional.
A promoção da igualdade também se traduz em políticas de preferência no acesso ao ensino superior e ao serviço público. Nas universidades, existem percentuais mínimos de admissão de estudantes bolsistas e mecanismos de favorecimento de determinados perfis sociais e educacionais.
No serviço público, há exigências de representação de pessoas com deficiência e medidas de paridade entre homens e mulheres. A tradição republicana francesa ainda impõe limites às cotas raciais, mas não impediu a expansão de uma complexa arquitetura de ações afirmativas, metas de diversidade e políticas de representação.
O país também acolheu sucessivas ondas migratórias e procurou acomodar comunidades de diferentes origens, tradições e religiões. A tolerância e a diversidade cultural passaram a ocupar lugar de destaque no discurso público, embora a convivência entre diferentes valores tenha produzido dificuldades de integração e conflitos com movimentos religiosos radicais que rejeitam princípios fundamentais da República.
A própria administração francesa desenvolveu programas de prevenção da radicalização e mecanismos legais para enfrentar o separatismo religioso. O ideal de uma sociedade plural encontrou, assim, o desafio de preservar valores comuns entre grupos que nem sempre os compartilham.
No campo criminal, a França desenvolveu um sofisticado sistema de alternativas ao encarceramento, reduções e adaptações de penas, orientado pela reinserção social. Segundo o Ministério da Justiça, em 2025, 41% das penas de prisão efetiva foram adaptadas ou convertidas antes do encarceramento. Entre as saídas da prisão de condenados por delitos, 48% corresponderam a mecanismos de flexibilização da execução penal, como liberdade condicional, semiliberdade e monitoramento eletrônico.
Para os menores, prevalece uma orientação educativa, com redução das penas aplicáveis e restrições ao encarceramento, embora a prisão seja juridicamente possível a partir dos 13 anos, sob condições específicas. É uma concepção generosa da resposta penal, que aparentemente foi incapaz de trazer felicidade ao povo.
E, como se tudo isso fosse pouco, os franceses ainda recebem de brinde a própria França. Paris, Lyon, Bordeaux, seus museus, teatros, cinemas, bibliotecas, cafés, universidades, monumentos e uma produção cultural que há séculos influencia o mundo. A gastronomia, os vinhos, a arquitetura, a literatura e uma extraordinária herança artística compõem um patrimônio que nenhum programa governamental seria capaz de criar.
Para quem acredita que o aperfeiçoamento da sociedade depende da ampliação dos direitos sociais, da redução das jornadas de trabalho, da universalização dos serviços públicos, do pluralismo cultural e da progressiva intervenção do Estado na promoção do bem-estar, e da cultura, a França deveria representar a realização de um sonho. Deveria ser a perfeita representação do paraíso progressista.
Pois é justamente esse paraíso que está sendo incendiado.
Nos últimos dias, a França assistiu a manifestações e episódios de violência urbana, com saques, incêndios, depredações e confrontos. Em Paris, comerciantes tiveram suas lojas invadidas, vitrines destruídas e mercadorias roubadas. Automóveis foram incendiados e barricadas ocuparam ruas. A violência atingiu estabelecimentos comerciais, equipamentos públicos e o patrimônio de cidadãos que nada tinham a ver com as disputas políticas.
Em Limoges, no dia 17 de outubro, um incêndio criminoso devastou a histórica prefeitura, inaugurada no século XIX. O edifício que atravessou as grandes tragédias da história europeia tornou-se alvo da violência contemporânea. A própria administração municipal confirmou a natureza deliberada do incêndio e convocou uma manifestação pública de solidariedade à cidade e às instituições republicanas.
Uma sociedade que acumulou gerações de conquistas sociais, políticas e culturais vê parte de sua população dedicar uma energia extraordinária à destruição do patrimônio que recebeu.
Há, naturalmente, uma diferença entre a reivindicação pacífica de mudanças e a ação dos grupos que praticam a violência. Mas a imagem de um país tão protegido, tão desenvolvido e tão rico em direitos, convulsionado por manifestações de insatisfação, merece uma reflexão que ultrapassa a identificação dos responsáveis pelos incêndios.
Afinal, o que falta?
Depois das 35 horas de trabalho, das cinco semanas de férias, da saúde universal de verdade, da proteção habitacional, da estabilidade no emprego, do seguro-desemprego e de toda a extensa arquitetura de direitos construída ao longo de décadas, qual seria a próxima conquista capaz de produzir a tão prometida satisfação coletiva? Uma sexta ou sétima semana de férias? Uma jornada de 30 horas? Talvez 20 ou 15 horas? Mais um subsídio? Talvez seja necessário que o Estado também se encarregue de garantir a felicidade. Que não veio junto com todo esse progressismo.
A resposta pode estar justamente naquilo que esse admirável sistema de proteção social não conseguiu assegurar na mesma proporção: a capacidade de produzir riqueza, inovar e oferecer oportunidades de prosperidade.
Os franceses começam a descobrir que todas essas conquistas, pelas quais lutaram durante gerações, têm um custo. E que esse custo se tornou particularmente pesado em um mundo no qual a competição econômica e tecnológica avança a uma velocidade extraordinária.
Os números oficiais ajudam a compreender a dimensão do problema. Segundo o Instituto Nacional de Estatística francês, o INSEE, a economia cresceu apenas 0,8% em 2025. No mesmo ano, as despesas públicas alcançaram 57,2% do PIB, enquanto os tributos e contribuições obrigatórias representaram 43,6% de toda a riqueza produzida no país. Apesar dessa arrecadação extraordinária, o governo registrou um déficit de 5,1% do PIB, e a dívida pública chegou a 115,6% do produto nacional.
O Estado arrecada uma parcela imensa da riqueza produzida, gasta ainda mais e precisa continuar se endividando para financiar suas obrigações. Direitos e mais direitos, que começam a mostrar seus custos reais, especialmente sobre as pessoas que trabalham e tentam produzir riqueza, dos pequenos comerciantes, cujas lojas foram destruídas, às grandes corporações, que não conseguem inovar nem serem competitivas.
A França enfrenta dificuldades para acompanhar as grandes transformações tecnológicas. Sua indústria automobilística sofre com a competição chinesa na produção de veículos elétricos. O país dispõe de universidades, centros de pesquisa e profissionais altamente qualificados, mas não conseguiu desenvolver empresas digitais com a escala e a influência das gigantes americanas e chinesas.
Conserva setores de excelência, especialmente na indústria aeroespacial, na defesa, na energia e nos produtos de luxo, mas encontra dificuldades para reproduzir esse sucesso nas novas fronteiras da economia.
A elevada carga tributária, a complexidade regulatória, os custos de produção e a extensa participação estatal na economia impõem obstáculos à atividade empresarial e dificultam a adaptação a um mundo em rápida transformação.
O país que durante tanto tempo concentrou suas energias na preservação e ampliação de direitos precisa agora enfrentar o desafio de produzir a riqueza necessária para sustentá-los. E possivelmente é sobre essa desesperança que os protestos se sustentam.
Há, porém, um limite para o que a economia consegue suportar. Incapazes de reconhecer que o próprio modelo de proteção social pode estar comprometendo a prosperidade necessária para sustentá-lo, os manifestantes insistem em exigir mais Estado, mais benefícios, mais direitos e mais proteção.
É uma lógica curiosa, que também nos é familiar, na qual o fracasso de uma política justifica sempre sua intensificação. Talvez a tragédia francesa esteja precisamente aí: o paciente, convencido de que conhece a causa de sua enfermidade, exige doses cada vez maiores do remédio que, administrado em excesso, o está matando lentamente.