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Marcelo Pacheco Machado

Queimando o paraíso na França

Qual seria a próxima conquista capaz de produzir a tão prometida satisfação coletiva? Uma sexta ou sétima semana de férias? Uma jornada de 30 horas? Talvez 20 ou 15 horas?

Publicado em 22 de Outubro de 2026 às 04:30

Públicado em 

22 out 2026 às 04:30
Marcelo Pacheco Machado

Colunista

Marcelo Pacheco Machado Marcelo Pacheco Machado

Na França, a jornada legal de trabalho é de 35 horas semanais. As férias são de cinco semanas por ano. O sistema de saúde oferece cobertura universal e serviços de reconhecida qualidade, utilizados amplamente pela classe média. A proteção é tão abrangente que, em determinadas circunstâncias, até as despesas com táxi para consultas e tratamentos médicos são reembolsadas.


A generosidade francesa vai muito além. Existem programas de habitação social, aluguéis subsidiados, auxílios para moradia e uma extensa rede de proteção às famílias de baixa renda. Quem perde o emprego encontra um seguro-desemprego que substitui uma parcela considerável da remuneração anterior, por períodos que podem ultrapassar um ano. Há benefícios familiares, creches subsidiadas, educação pública, aposentadorias e incontáveis mecanismos de assistência social.


A França também incorporou praticamente toda a agenda identitária e de costumes do progressismo contemporâneo. O aborto é legalizado, com sua liberdade expressamente protegida pela Constituição. A diversidade sexual e de gênero ocupa lugar destacado nas políticas públicas, o combate à discriminação orienta a atuação do Estado e o reconhecimento das diferentes identidades tornou-se parte importante do discurso institucional. 

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A promoção da igualdade também se traduz em políticas de preferência no acesso ao ensino superior e ao serviço público. Nas universidades, existem percentuais mínimos de admissão de estudantes bolsistas e mecanismos de favorecimento de determinados perfis sociais e educacionais. 


No serviço público, há exigências de representação de pessoas com deficiência e medidas de paridade entre homens e mulheres. A tradição republicana francesa ainda impõe limites às cotas raciais, mas não impediu a expansão de uma complexa arquitetura de ações afirmativas, metas de diversidade e políticas de representação.


O país também acolheu sucessivas ondas migratórias e procurou acomodar comunidades de diferentes origens, tradições e religiões. A tolerância e a diversidade cultural passaram a ocupar lugar de destaque no discurso público, embora a convivência entre diferentes valores tenha produzido dificuldades de integração e conflitos com movimentos religiosos radicais que rejeitam princípios fundamentais da República. 


A própria administração francesa desenvolveu programas de prevenção da radicalização e mecanismos legais para enfrentar o separatismo religioso. O ideal de uma sociedade plural encontrou, assim, o desafio de preservar valores comuns entre grupos que nem sempre os compartilham.


No campo criminal, a França desenvolveu um sofisticado sistema de alternativas ao encarceramento, reduções e adaptações de penas, orientado pela reinserção social. Segundo o Ministério da Justiça, em 2025, 41% das penas de prisão efetiva foram adaptadas ou convertidas antes do encarceramento. Entre as saídas da prisão de condenados por delitos, 48% corresponderam a mecanismos de flexibilização da execução penal, como liberdade condicional, semiliberdade e monitoramento eletrônico.

 

Para os menores, prevalece uma orientação educativa, com redução das penas aplicáveis e restrições ao encarceramento, embora a prisão seja juridicamente possível a partir dos 13 anos, sob condições específicas. É uma concepção generosa da resposta penal, que aparentemente foi incapaz de trazer felicidade ao povo.


E, como se tudo isso fosse pouco, os franceses ainda recebem de brinde a própria França. Paris, Lyon, Bordeaux, seus museus, teatros, cinemas, bibliotecas, cafés, universidades, monumentos e uma produção cultural que há séculos influencia o mundo. A gastronomia, os vinhos, a arquitetura, a literatura e uma extraordinária herança artística compõem um patrimônio que nenhum programa governamental seria capaz de criar.


Para quem acredita que o aperfeiçoamento da sociedade depende da ampliação dos direitos sociais, da redução das jornadas de trabalho, da universalização dos serviços públicos, do pluralismo cultural e da progressiva intervenção do Estado na promoção do bem-estar, e da cultura, a França deveria representar a realização de um sonho. Deveria ser a perfeita representação do paraíso progressista.


Pois é justamente esse paraíso que está sendo incendiado. 


Nos últimos dias, a França assistiu a manifestações e episódios de violência urbana, com saques, incêndios, depredações e confrontos. Em Paris, comerciantes tiveram suas lojas invadidas, vitrines destruídas e mercadorias roubadas. Automóveis foram incendiados e barricadas ocuparam ruas. A violência atingiu estabelecimentos comerciais, equipamentos públicos e o patrimônio de cidadãos que nada tinham a ver com as disputas políticas.


Em Limoges, no dia 17 de outubro, um incêndio criminoso devastou a histórica prefeitura, inaugurada no século XIX. O edifício que atravessou as grandes tragédias da história europeia tornou-se alvo da violência contemporânea. A própria administração municipal confirmou a natureza deliberada do incêndio e convocou uma manifestação pública de solidariedade à cidade e às instituições republicanas.

Policial apaga fogo em bicicletas em rua de Paris durante protestos ocorridos no dia 17 de outubro na França
Policial apaga fogo em bicicletas em rua de Paris durante protestos ocorridos no dia 17 de outubro na França Reuters/Jack Taylor

Uma sociedade que acumulou gerações de conquistas sociais, políticas e culturais vê parte de sua população dedicar uma energia extraordinária à destruição do patrimônio que recebeu.


Há, naturalmente, uma diferença entre a reivindicação pacífica de mudanças e a ação dos grupos que praticam a violência. Mas a imagem de um país tão protegido, tão desenvolvido e tão rico em direitos, convulsionado por manifestações de insatisfação, merece uma reflexão que ultrapassa a identificação dos responsáveis pelos incêndios.

Afinal, o que falta?


Depois das 35 horas de trabalho, das cinco semanas de férias, da saúde universal de verdade, da proteção habitacional, da estabilidade no emprego, do seguro-desemprego e de toda a extensa arquitetura de direitos construída ao longo de décadas, qual seria a próxima conquista capaz de produzir a tão prometida satisfação coletiva? Uma sexta ou sétima semana de férias? Uma jornada de 30 horas? Talvez 20 ou 15 horas? Mais um subsídio? Talvez seja necessário que o Estado também se encarregue de garantir a felicidade. Que não veio junto com todo esse progressismo.


A resposta pode estar justamente naquilo que esse admirável sistema de proteção social não conseguiu assegurar na mesma proporção: a capacidade de produzir riqueza, inovar e oferecer oportunidades de prosperidade.


Os franceses começam a descobrir que todas essas conquistas, pelas quais lutaram durante gerações, têm um custo. E que esse custo se tornou particularmente pesado em um mundo no qual a competição econômica e tecnológica avança a uma velocidade extraordinária.


Os números oficiais ajudam a compreender a dimensão do problema. Segundo o Instituto Nacional de Estatística francês, o INSEE, a economia cresceu apenas 0,8% em 2025. No mesmo ano, as despesas públicas alcançaram 57,2% do PIB, enquanto os tributos e contribuições obrigatórias representaram 43,6% de toda a riqueza produzida no país. Apesar dessa arrecadação extraordinária, o governo registrou um déficit de 5,1% do PIB, e a dívida pública chegou a 115,6% do produto nacional.


O Estado arrecada uma parcela imensa da riqueza produzida, gasta ainda mais e precisa continuar se endividando para financiar suas obrigações. Direitos e mais direitos, que começam a mostrar seus custos reais, especialmente sobre as pessoas que trabalham e tentam produzir riqueza, dos pequenos comerciantes, cujas lojas foram destruídas, às grandes corporações, que não conseguem inovar nem serem competitivas.

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A França enfrenta dificuldades para acompanhar as grandes transformações tecnológicas. Sua indústria automobilística sofre com a competição chinesa na produção de veículos elétricos. O país dispõe de universidades, centros de pesquisa e profissionais altamente qualificados, mas não conseguiu desenvolver empresas digitais com a escala e a influência das gigantes americanas e chinesas. 


Conserva setores de excelência, especialmente na indústria aeroespacial, na defesa, na energia e nos produtos de luxo, mas encontra dificuldades para reproduzir esse sucesso nas novas fronteiras da economia.


A elevada carga tributária, a complexidade regulatória, os custos de produção e a extensa participação estatal na economia impõem obstáculos à atividade empresarial e dificultam a adaptação a um mundo em rápida transformação.


O país que durante tanto tempo concentrou suas energias na preservação e ampliação de direitos precisa agora enfrentar o desafio de produzir a riqueza necessária para sustentá-los. E possivelmente é sobre essa desesperança que os protestos se sustentam.


Há, porém, um limite para o que a economia consegue suportar. Incapazes de reconhecer que o próprio modelo de proteção social pode estar comprometendo a prosperidade necessária para sustentá-lo, os manifestantes insistem em exigir mais Estado, mais benefícios, mais direitos e mais proteção. 


É uma lógica curiosa, que também nos é familiar, na qual o fracasso de uma política justifica sempre sua intensificação. Talvez a tragédia francesa esteja precisamente aí: o paciente, convencido de que conhece a causa de sua enfermidade, exige doses cada vez maiores do remédio que, administrado em excesso, o está matando lentamente. 


Marcelo Pacheco Machado

Marcelo Pacheco Machado Marcelo Pacheco Machado

É advogado, doutor e mestre em Direito pela USP. Autor de livros e artigos na área do Direito Processual. Professor em cursos de pós-graduação em todo o país. Diretor da Escola Superior da Advocacia da OAB.ES. Sócio do BKM Advogados

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