A quatro meses do 1º turno da eleição municipal, em 15 de novembro, a disputa pela Prefeitura de Cariacica ainda está envolta em indefinições, que podem ser condensadas em três grandes interrogações:
As respostas para tais perguntas, que hoje pairam no mercado político da cidade, poderão definir os rumos da sucessão de Juninho. Na coluna deste sábado (18), tentaremos responder à primeira delas, ou pelo menos oferecer alguns indicativos para a solução do “enigma Marcelo Santos”, até porque, da solução desse primeiro mistério, dependem as respostas para os outros dois.
A esta altura do processo, há mais de dez pré-candidatos a prefeito de Cariacica, mas nenhum que sobressaia em relação aos demais. Não há nome algum que, já no grid de largada, você possa apontar e dizer: esse larga com favoritismo. Esse lugar do favorito (o pole position no grid) poderia ser ocupado por Helder Salomão (PT), mas em janeiro ele anunciou que não será candidato, e a legenda do PT já foi dada para a professora Célia Tavares, afilhada política do deputado federal e ex-prefeito.
Agora, na ausência de Helder, esse posto de favorito (na largada, é bom que se frise) poderia ser preenchido por Marcelo. Decano da Assembleia Legislativa, onde exerce o 5º mandato consecutivo, o filho de Aloízio Santos é um dos mais enigmáticos políticos em atividade no Espírito Santo nos últimos anos. O cenário pode mudar num estalar de dedos, mas, lendo os sinais postos hoje, digo haver uma tendência maior de que Marcelo não seja candidato.
Alguns desses sinais foram oferecidos pelo próprio deputado em entrevista à coluna publicada na última quinta-feira (16). Enfatizando sua estreita proximidade com Renato Casagrande (PSB), ele diz e repete que a decisão sobre candidatura está sendo tomada em diálogo com o governador e que, devido à pandemia, a Assembleia enfrentará desafios muito grandes e terá que votar projetos importantíssimos nos próximos meses, inclusive de ajuste fiscal.
Dá a entender que pode ser mais útil para o próprio Palácio Anchieta se continuar guardando posição estratégica na Assembleia, onde, como grande aliado dos dois lados, costuma fazer o meio de campo entre o governador e o presidente da Casa, Erick Musso (Republicanos), e por vezes opera como um “líder informal” do governo.
Em segundo lugar, falei com vários líderes políticos de Cariacica. Nenhum deles acredita que Marcelo seja mesmo candidato, por um motivo muito simples: ele não está fazendo movimento algum nesse sentido, nem mesmo o mais elementar de todos, que seria conversar com dirigentes partidários para construir uma coligação majoritária. A quatro meses do 1º turno, seria de esperar que ele estivesse se mexendo, se quisesse mesmo ir à luta.
Há um terceiro fator, que é o retrospecto ruim de Marcelo: figurando nas três últimas corridas a prefeito de Cariacica, o deputado já acumula três reveses seguidos, sendo os dois últimos, para Juninho, muito marcantes, por causa do padrão: começa bem, termina mal. Tem boa largada, mas não boa chegada. É como aquele carro de corrida que parte voando baixo, mas perde potência ao longo da prova ou fica sem combustível na última volta. Marcelo na certa está ponderando se vale a pena queimar seu capital político, sujeitando-se ao risco do constrangimento de amargar uma quarta derrota.
Quarto e mais importante: muita gente acredita que a real aspiração de Marcelo ainda é ser nomeado para a próxima vaga a ser aberta de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCES). A priori, só em janeiro de 2024, com a aposentadoria compulsória de Sérgio Borges. Mas há quem aposte que ele se aposente antes, voluntariamente, seguindo o exemplo de Enivaldo dos Anjos (PSD), para disputar as eleições a deputado estadual em 2022. Para chegar ao TCES, Marcelo não pode ser prefeito.
E mais: também já há quem aposte que Marcelo pode ser uma boa solução para o Palácio Anchieta como presidente da Assembleia, na eleição interna marcada para fevereiro de 2021 (o que poderia até servir-lhe como escala rumo ao TCES). Ele nega peremptoriamente ter interesse na presidência.
CABO ELEITORAL COBIÇADO
Se de fato não for candidato a prefeito, Marcelo passa automaticamente à condição de cabo eleitoral mais cobiçado pelos demais postulantes à prefeitura (e o rol é vasto). À espreita, vários outros pré-candidatos aguardam ansiosamente a decisão do deputado, enquanto torcem para que ele não venha, sobretudo os que também fazem parte da base de Casagrande: Euclério Sampaio (DEM) e Saulo Andreon (PSB).
Sabendo disso, Marcelo deve deixar sua decisão para o último momento, a fim de valorizar ainda mais o seu passe eleitoral. O próprio deputado disse à coluna que, em não sendo candidato, não ficará omisso e com certeza apoiará alguém que também faça parte do bloco palaciano.
E aí passamos para a influência da decisão de Marcelo na resposta à segunda pergunta: o que fará o governo estadual em Cariacica? Se ele for candidato, quer ser o representante do Palácio Anchieta nesse pleito; se não for, facilita a posição do governo estadual, que passará a contar com apenas dois pré-candidatos muito fortemente identificados com o Palácio.
Finalmente, a decisão de Marcelo sobre “ser ou não ser” candidato influi diretamente na postura a ser adotada pelo prefeito Juninho, notório adversário do deputado, e na definição do momento em que o prefeito “entrará” nessa eleição. A princípio, ele indica tendência forte se se manter neutro no processo, ou de não se envolver ostensivamente, pelo menos até o 2º turno.
Mas essa tendência pode ser revista na mesma hora caso Marcelo seja candidato. Nesse caso, para derrotar o adversário histórico, Juninho pode ungir alguém e lançar já no 1º turno um candidato para chamar de seu, com o signo da sua gestão e o seu apoio declarado. Não foi por outro motivo que o prefeito, em entrevista à coluna também publicada na quinta-feira, declarou que poderá se posicionar já no início da campanha se perceber que existe uma “ameaça desastrosa” à cidade.
Mais que uma indireta, a fala do prefeito pode ser lida como um grande “chega pra lá” em Marcelo, derrotado por ele nas últimas duas disputas locais. Juninho parece de prontidão: limpando as armas para, se preciso for, ajudar a lhe impor mais uma derrota.
SINAIS CONTRÁRIOS
Eleito deputado em 2018 pelo PDT, Marcelo estava sem legenda para concorrer à prefeitura pelo partido de Sérgio Vidigal. Em abril, num movimento político e jurídico arriscado, assinou ficha e filiou-se ao Podemos, antes de o TRE julgar a ação em que ele pediu o reconhecimento de justa causa para trocar de partido sem perder o mandato de deputado.
Por maioria de votos, o tribunal lhe deu ganho de causa na ação, que terminou de ser julgada em 11 de maio. Assim, Marcelo não só preservou o mandato parlamentar como se manteve apto a disputar a eleição municipal. Se fez esse movimento, correndo todo esse risco, é porque a princípio queria ser candidato, ou pelo menos manter-se vivo no páreo.
SINAIS CONTRÁRIOS 2
Em paralelo, com a ida do deputado Eustáquio de Freitas (PSB) para o governo em abril, Marcelo chegou a ser cotado para assumir a liderança do governo Casagrande na Assembleia. Se assumisse o posto, dificilmente seria candidato. Mas isso não ocorreu.
Após praticamente 100 dias como líder interino, Dary Pagung (PSB) foi confirmado oficialmente no posto nesta semana. Mais um sinal de que Marcelo poderia caminhar para mais uma disputa municipal.
Mas aí vêm os sinais contrários, listados e explicados acima, os quais são muito mais fortes e se impõem.