“Protagonista improvável pode decidir quem comandará o PT no ES”. Esse foi o título da coluna no dia 11 de setembro. Nessa data, fizemos uma previsão que se confirmou no último sábado (19): “Vereador de Cariacica, André Lopes e seu pequeno grupo têm o poder de decidir a próxima eleição interna do partido, para o lado de Helder Salomão ou para o de Jackeline Rocha”.
Na mesma coluna, o vereador afirmou com todas as letras, sobre o processo de eleição do próximo presidente estadual do PT: “Nós somos o fiel da balança”. No congresso estadual do partido, realizado no último fim de semana, Lopes de fato decidiu a eleição, determinando a vitória da chapa liderada por Jackeline contra a de Helder.
“O nosso apoio a Jackeline teve peso, sim, é claro. No fim das contas, o que a gente falou lá atrás se concretizou: ganhamos o PT de Cariacica e fomos decisivos na eleição estadual. Então, pessoalmente, saio muito feliz nesse processo”, ratifica o jovem vereador de Cariacica, que realmente sai dessa disputa interna como um dos maiores vencedores, se não o maior.
Ele mesmo reconhece isso:
"O PT saiu vitorioso, porque movimentou a mídia, movimentou o mercado político. Personificando o debate, nem sou muito fã disso, mas tenho que reconhecer que eu fui o grande vitorioso do processo, porque tivemos uma sacada de que o PT, de uma forma ou de outra, precisava de uma terceira via"
Mas o fato é que essa “terceira via” acabou não só pendendo para um dos polos como estabelecendo a vitória deste.
A GRANDE VIRADA
A explicação para a importância de André Lopes na vitória de Jackeline é política e matemática. No congresso estadual, saindo de uma situação de inferioridade numérica, Jackelie derrotou o deputado federal Helder Salomão por margem mínima: 126 votos a 123. Os votos decisivos para a virada de Jackeline vieram precisamente do grupo encabeçado pelo vereador de Cariacica.
Aos 32 anos, Lopes lançou, em agosto, uma pequena chapa para participar da eleição estadual do PT, formada por uma tendência chamada O Trabalho e alguns jovens militantes do partido em cidades como Cariacica e Vila Velha. A chapa foi lançada sem candidato à presidência estadual.
As outras três chapas no processo eram a do grupo de João Coser (também sem candidato à presidência), a liderada por Jackeline e aquela encabeçada por Helder. Desde o início, as de Coser e Jackeline uniram forças contra a de Helder. Já a de André Lopes se manteve dialogando com os dois lados e negociando o próprio apoio, ciente de que poderia representar, precisamente, o fiel da balança, para um lado ou para o outro, em uma disputa acirrada como foi.
O peso matemático da chapa de Lopes cresceu depois que petistas do Estado inteiro foram às urnas no início de setembro, na primeira etapa do processo eleitoral, para votar em uma das quatro chapas. O número de representantes de cada uma delas no congresso estadual, realizado no último sábado, foi definido conforme a proporção de votos obtidos por cada uma em setembro.
O congresso teve a participação de 250 delegados com direito a voto. Pela votação de setembro, a chapa de Helder levou 124 delegados, ficando a dois de atingir a maioria (metade mais um). Com o apoio da chapa de Coser, a chapa de Jackeline totalizou 112 delegados. Já a de André Lopes reuniu 14 delegados. Se os 14 votassem em Jackeline, ela faria 126 votos, contra os 124 de Helder.
No dia 26 de setembro, Lopes anunciou apoio formal a Jackeline e, efetivamente, levou para ela os votos dos seus 14 delegados. O anúncio foi uma contrapartida pelo apoio recebido por Lopes, de Jackeline e de Coser, para vencer uma disputa mais local e prioritária para o vereador: pela presidência do PT em Cariacica. A matemática confirmou-se no congresso do último sábado. Jackeline derrotou Helder, rigorosamente, com os votos de 126 delegados.
JACKELINE: “FOI DECISIVO”
Sem negar o óbvio, Jackeline admite que os votos da chapa de André Lopes foram “decisivos para a eleição”.
“O agrupamento que o André construiu na campanha foi uma estratégia muito importante por parte dele, do ponto de vista de pautar algumas discussões no PT. E conseguiu um percentual de votos que foi decisivo para a eleição. Ele e eu sempre caminhamos juntos dentro da CNB [Construindo um Novo Brasil, corrente interna do PT à qual ambos pertencem]. Até pela proximidade que já tínhamos, o apoio foi construído com muito diálogo.”
Agora, todo esse “poder de decisão” de André Lopes deve se traduzir em um espaço privilegiado na composição da nova Executiva, órgão máximo de decisão do PT no Espírito Santo, formado por 22 integrantes. O grupo do vereador deve ocupar duas vagas. Pelas negociações que culminaram com a declaração de apoio a Jackeline, André Lopes (ou algum parceiro dele) deve ficar ou com a Tesouraria ou com a Secretaria de Organização do PT-ES.
COSER: RESILIÊNCIA E INFLUÊNCIA
Mesmo perdendo protagonismo, o ex-prefeito de Vitória João Coser, presidente do PT-ES de 2017 a 2019, prova a sua capacidade de sobrevivência e a sua resiliência política. Decidindo sair dos holofotes para apoiar a eleição de Jackeline, Coser também sai desse processo como um dos grandes vencedores, até porque ele e sua corrente continuarão tendo grande influência sobre os rumos do PT no Estado.
HELDER: PERDEU, MAS GANHOU
O caso de Helder Salomão é o mais ambíguo. Por um lado, ele perdeu uma eleição em que era considerado o favorito – até por Coser – na largada. E, mais uma vez, o grupo de oposição interna a Coser bate na trave, como em 2017, na tentativa de o desbancar.
Por outro lado, o resultado de Helder no processo – praticamente um “empate técnico” com Jackeline, o que lhe dá metade dos assentos na Executiva – mostra sua força pessoal e a do seu grupo, hoje, no PT-ES.
Além disso, como principal petista capixaba com mandato eletivo hoje (sendo o único deputado federal pelo PT-ES), Helder é apontado por todos os adversários internos, incluindo Jackeline e Coser, como principal aposta do partido na eleição majoritária de 2022, como possível candidato a senador ou até a governador do Estado.
“Helder é um excelente quadro e é uma grande aposta para a eleição majoritária de 2022”, confirma Jackeline, indo além: “Inclusive, eu o considero a maior liderança do PT, quando assume esse protagonismo na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Ele está desempenhando um papel fundamental em nível nacional, e isso é algo que vai nos ajudar muito.”
Antes disso, para André Lopes, conterrâneo de Helder, o ex-prefeito de Cariacica deve voltar a disputar a prefeitura do município em 2020: “Helder é meu candidato a prefeito em Cariacica”.
Em tempo: se Helder se elege prefeito, quem assume o seu mandato na Câmara é o primeiro suplente do PT, João Coser.