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Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica aqui, diariamente, informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

Coser declara apoio a Jackeline para dirigir PT no ES

Na disputa interna de 2017, ex-prefeito de Vitória fez acordo com grupo de Jackeline para derrotar Givaldo Vieira. Em troca, retribui o apoio agora. Próximo presidente estadual será escolhido em outubro

Publicado em 07/08/2019 às 21h58

O PT se prepara para renovar a direção estadual, no congresso marcado para outubro. Com as chapas já inscritas, a eleição interna será polarizada pelos dois únicos candidatos à presidência estadual: o deputado federal Helder Salomão e Jackeline Rocha. Em conversa com a coluna, o atual presidente, João Coser, declara abertamente apoio a Jackeline e explica o principal motivo da sua resolução: cumprimento de acordo.

O acordo em questão, revela agora Coser, já estava costurado desde a eleição interna passada, realizada em 2017: uma disputa acirradíssima entre ele mesmo e Givaldo Vieira (hoje no PCdoB), marcada por troca de ataques públicos e vencida por Coser em uma virada surpreendente de última hora.

O PT é dividido em várias correntes, ou tendências. Jackeline faz parte da Construindo um Novo Brasil (CNB): a mesma do ex-deputado estadual José Carlos Nunes e a que tem mais fortes laços com sindicatos. Na eleição de 2017, o apoio da CNB a Coser foi fundamental para ele virar o jogo e derrotar Givaldo. Em contrapartida, Coser apalavrou apoio a Jackeline (ou quem quer que fosse o candidato indicado pela CNB) na eleição interna seguinte (a de agora).

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“Temos uma gratidão, porque na eleição passada eles me apoiaram. E temos isso apalavrado também, desde a eleição passada”, explica o ex-prefeito de Vitória.

Para se compreender todo o contexto que cerca a nova disputa, é preciso entender quem é quem e como funciona o processo eleitoral no PT.

AS CHAPAS

No atual processo, há quatro chapas inscritas:

1. A da CNB, que indicou Jackeline à presidência estadual;

2. A da corrente de Coser, Alternativa Socialista, que não lançará nome à presidência, pois fechou apoio a Jackeline;

3. A que tem Helder como candidato à presidência, um agrupamento de várias correntes que não apoiam Coser internamente: a de Helder (Resistência Socialista), a da deputada estadual Iriny Lopes (Articulação de Esquerda), a Democracia Socialista e a CNB-Depar.

4. A que tem o vereador de Cariacica André Lopes (da CNB, mas avulso) e uma pequena tendência chamada O Trabalho. Não tem candidato próprio à presidência, nem apoio fechado a ninguém.

AS REGRAS

A primeira etapa da escolha da próxima direção estadual é o Processo de Eleições Diretas (PED), marcado para 8 de setembro. Nesse dia, em todas as cidades do Espírito Santo, os filiados aptos a votar irão às urnas para escolher os próximos dirigentes municipais do partido. Além disso, poderão votar em uma das quatro chapas inscritas na disputa para a formação do próximo diretório estadual.

O próximo presidente não é definido ali, mas essa primeira votação é determinante para a segunda etapa do processo: o congresso estadual, marcado para 19 e 20 de outubro e composto por 250 delegados com direito a voto.

A votação total obtida por uma chapa no PED determina o número de delegados que a mesma chapa mandará para o congresso estadual. Ou seja, a representatividade da cada chapa no congresso é definida, proporcionalmente, de acordo com os respectivos desempenhos no dia 8 de setembro.

Quanto maior a votação, maior a delegação. Por exemplo, se a chapa A faz 10% dos votos no PED, terá direito a 25 delegados (10% de 250). Se a B alcança metade dos votos, enviará 125 delegados.

Naturalmente, quanto maior a representatividade da chapa no congresso, mais chances ela tem de emplacar o próprio candidato a presidente. Mas não necessariamente, pois há duas últimas regras capitais: no congresso, o voto é secreto, e um delegado não é obrigado a votar no candidato a presidente indicado por sua chapa. Na hora H, ele pode mudar de lado, a partir de convencimento e/ou acordos e negociações.

Foi o que se deu com Givaldo Vieira em 2017. No PED, a chapa dele fez 48% dos votos (123 delegados). Ele chegou ao congresso, portanto, como favorito. Mas houve defecções e, numa reviravolta, o então deputado federal perdeu para Coser no voto dos delegados, por placar apertadíssimo: 128 a 122.

O ACORDO

Aliás, no PED de 2017, a chapa de Coser teve votação tímida: fez 20% dos delegados. Para chegar competitivo ao congresso e desbancar Givaldo, ele contou com o apoio decisivo da terceira chapa naquela disputa: justamente a da CNB, que incluía Jackeline e que tinha 30% dos delegados no congresso.

“Mesmo com mais delegados, eles me apoiaram. Foi um gesto muito importante. Só eu conseguia enfrentar naquele momento o Givaldo”, conta Coser.

Entre o PED e o congresso, Coser firmou com a CNB o acordo que passou pela eleição de agora: em troca do apoio do grupo de Nunes e Jackeline naquela ocasião, assumiu o compromisso de apoiar o candidato da CNB à presidência estadual na sua própria sucessão, em 2019. Questão de reciprocidade.

Nos bastidores políticos, Coser é reconhecido como cumpridor de acordo. Agora, está cumprindo a palavra empenhada. E pagando a dívida contraída dois anos atrás.

O FIEL DA BALANÇA

A chapa de André Lopes conversa com a de Jackeline e a de Helder ao mesmo tempo. Mesmo que faça poucos delegados, seus votos, em uma eleição disputada, podem ser tão decisivos quanto cobiçados, o que aumenta o seu valor em uma negociação.

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