Por que Bolsonaro vai tão mal, hoje, especificamente em Vitória?
“Desbolsonarização”
Por que Bolsonaro vai tão mal, hoje, especificamente em Vitória?
Por sua composição demográfica, bem diferente das cidades vizinhas, capital capixaba tem menos gente com perfil típico de quem avalia bem o presidente. E mais gente com perfil típico de quem o avalia mal
É incontestável, portanto, que Vitória é um ponto fora da curva e, hoje, dois anos após ter consagrado Bolsonaro nas urnas, a população da Capital é muito mais refratária ao presidente que a de qualquer outra cidade capixaba. A pergunta que lançamos nesta terça (10) e que buscamos responder é: por quê? O que o eleitorado de Vitória tem que os demais não têm? Quais são as características que só existem na Capital?
O PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO
Uma primeira possível resposta reside na composição sociodemográfica de Vitória, bastante diferente do resto da população capixaba. O perfil médio dos habitantes da Capital não se repete em nenhuma outra cidade, nem mesmo na Grande Vitória. Grosso modo, estamos falando de uma população, em média, muito mais escolarizada, com renda mais elevada e menos evangélica do que a de qualquer outra cidade espírito-santense.
Levantamentos de institutos de pesquisa em geral indicam um padrão quando se trata de aferir como as pessoas avaliam seus governantes: quanto maior a renda familiar e o grau de instrução de um grupo de entrevistados, mais crítico tende a ser esse grupo. Consequentemente, pior tende a ser a avaliação desses entrevistados acerca de seus governantes.
A série Ibope/Rede Gazeta mostra isso de maneira cristalina em todas as cidades, não só a respeito de Bolsonaro, mas inclusive na avaliação dos respectivos prefeitos: Luciano Rezende em Vitória, Max Filho em Vila Velha, Audifax Barcelos na Serra… Enfim, todos enfrentam seus piores índices de avaliação entre os eleitores das classes A e B (de maior renda) e com ensino superior. Isso é um padrão.
Ocorre que, em Vitória, o peso proporcional desses segmentos “mais instruídos” e “mais endinheirados” (entre os quais Bolsonaro se sai pior) é muito maior que o de qualquer cidade vizinha ou cidade-polo do interior. Em contrapartida, a fatia de moradores evangélicos (entre os quais Bolsonaro se sai melhor) é significativamente menor na Capital que em outras cidades da Grande Vitória.
Em outras palavras, Vitória tem menos gente com o perfil típico de quem avalia bem Bolsonaro. E mais gente com o perfil típico de quem o avalia mal.
NÚMEROS DA CAPITAL
Em Vitória, 47% dos entrevistados têm ensino superior.
Os que têm renda familiar de até um salário mínimo são apenas 17%. Já 62% têm renda familiar acima de dois salários mínimos (sendo 39% acima de 5 salários mínimos).
Evangélicos são só 24%. Católicos correspondem a 46%. “Outros” totalizam 30% (e aí entram ateus, espíritas, seguidores de religiões de matriz africana etc.)
Confirmando a nossa hipótese, os piores indicadores (ruim + péssimo) de Bolsonaro em Vitória estão nos eleitores com ensino superior (55%), eleitores nem católicos nem evangélicos (62%) e eleitores com renda familiar acima de 5 salários mínimos (53%). Curiosamente, 57% dos eleitores com renda familiar de até um salário mínimo também o avaliam assim, mas esse segmento é muito pequeno na Capital, como vimos.
O ABISMO ENTRE AS CIDADES
Para que o(a) leitor(a) tenha uma ideia clara da diferença de perfil demográfico de que estamos tratando aqui, trazemos abaixo o peso das mesmas categorias em dois municípios vizinhos que concentram o maior contingente da população pobre urbana capixaba (mais dependente do auxílio-emergencial do governo federal durante os meses de pandemia): Cariacica e Serra.
Nos dois municípios, ao contrário do que se verifica em Vitória, Bolsonaro tem predomínio de avaliações positivas. Sua soma de ruim e péssimo não passa de 28% em Cariacica e de 33% na Serra. Mas notem as profundas diferenças socioeconômicas em relação a Vitória:
NÚMEROS DE CARIACICA
Em Cariacica, só 14% dos entrevistados têm ensino superior (menos de um terço do percentual registrado em Vitória).
Os que têm renda familiar de até um salário mínimo são 25%. Só 33% ultrapassam dois salários mínimos (quase metade do percentual de Vitória).
Os evangélicos são 43% (quase o dobro do percentual de Vitória).
NÚMEROS DA SERRA
Na Serra, os números são semelhantes aos de Cariacica. Só 17% têm ensino superior (lembrando: em Vitória, são 47%).
Os que têm renda familiar de até um salário mínimo perfazem 23% (em Vitória, 17%). Só 39% superam dois salários mínimos (em Vitória, 62%).
Evangélicos são 41% (em Vitória, 24%).
Sim, senhoras e senhores: mais pobres, menos escolarizados e evangélicos tendem a avaliar melhor o presidente Bolsonaro. Em Cariacica, Serra e outras cidades, você encontra muita gente assim. Em Vitória, não.
Descaso com a pandemia, afastamento de promessas e enfraquecimento da onda conservadora
O cientista político Fernando Pignaton acrescenta outros fatores à nossa análise. Segundo ele, o enfraquecimento político de Bolsonaro em Vitória está ligado a um processo mais amplo de enfraquecimento da onda conservadora e da extrema-direita populista em termos globais, o que acabamos de testemunhar na eleição à Presidência dos Estados Unidos, com a rejeição ao trumpismo sobretudo nos centros urbanos espalhados por todo o país.
Ele também destaca o reflexo disso nas grandes cidades brasileiras. “Os sintomas mais fortes se dão nas áreas mais modernas do país. Veja o resultado do apoio de Bolsonaro no Rio e em São Paulo, onde prevalece um perfil de centro e centro-esquerda, diferentemente do Nordeste e dos impactos do auxílio-emergencial. O Espírito Santo tem um perfil semelhante à parte moderna do país, isto é, o Sudeste, e Vitória mais ainda. A população da capital capixaba é mais sensível a essas oscilações de opinião nacional e global de enfraquecimento da extrema-direita”.
Ainda segundo Pignaton, a população de Vitória, mais crítica que a de outras partes do Estado, também é mais sensível a alguns fatores de ordem doméstica, entre os quais ele cita: o distanciamento de Bolsonaro das pautas de combate à corrupção, fundamentais para a sua eleição em 2018 (com ataques à Lava Jato e até a Sergio Moro); a aproximação com o Centrão no Congresso e com o “toma lá, dá cá”; o aumento da preocupação com a pandemia por parte das pessoas e da percepção da negligência e da desorganização do presidente em relação à crise sanitária.
“Há o comportamento pessoal inadequado do presidente. Houve o caso do seu bate-cabeça com o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, sobre vacinas. Candidatos displicentes com a Covid-19 estão sendo muito criticados pelo eleitor, enquanto a preocupação com a pandemia aumenta, aguçada pelas informações da mídia sobre a segunda onda na Europa e o agravamento nos Estados Unidos”, conclui o cientista.
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo