“Não tenho nenhuma vontade de sair daqui. E, se alguém me pedir, eu falo: não vou entregar não (risos).”
“Tirando Renato…”, emendamos.
“Claro, claro... (risos)”, concordou Foletto.
Esse diálogo é um bom resumo da situação atual do secretário estadual de Agricultura, Paulo Foletto (PSB). No que depender dele, não há a menor intenção de sair do comando da secretaria, na minirreforma do secretariado que o governador Renato Casagrande (PSB) pretende realizar em fevereiro, logo depois da eleição da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa. Mas Foletto sabe que isso não depende do desejo pessoal dele e sim da vontade de Casagrande, que tem a palavra final.
A reforma do secretariado de Casagrande está intimamente relacionada às negociações envolvendo a eleição, no dia 1º de fevereiro, da Mesa Diretora que comandará a Assembleia pelo próximo biênio, incluindo a presidência da Casa. A princípio, o Palácio Anchieta prefere emplacar um deputado da base – Dary Pagung (PSB) ou Marcelo Santos (Podemos) – a endossar novamente a eleição do atual presidente, Erick Musso (Republicanos). Hoje, Erick está irredutível.
Mas, em tese, segundo participantes dessa negociação, Erick pode até abrir mão de buscar a reeleição, desde que Casagrande lhe garanta a ocupação de uma secretaria destacada no governo, o que, além de abrir o caminho para o Palácio Anchieta na eleição da Assembleia, marcaria o ingresso definitivo (e em grande estilo) do Republicanos, partido de Erick, no governo Casagrande.
Na mesa de negociação com o governador e emissários dele, a Secretaria Estadual de Agricultura (Seag) é objeto da cobiça do grupo de Erick Musso. Mas Foletto é enfático em dizer que prefere ficar onde está, embora ressalve que está à disposição do chefe:
“O governador já declarou que fará modificações pontuais. Eu não sei se ele vai mexer aqui na Agricultura. O governador é ele. Se ele tiver necessidade… Mas não é, pelo menos, o que a gente acha que vai acontecer. Se depender de mim, vou ficar aqui. Mesmo com as dificuldades causadas pela pandemia, não está no meu projeto. Mas a gente tem que respeitar o governador.”
O “problema” para Foletto é o seguinte: a decisão sobre a Seag deve levar em conta os planos e aspirações eleitorais do seu atual ocupante e dos aspirantes ao cargo na eleição estadual do ano que vem. Dentro do próprio governo, há quem opine que a Seag – por seu orçamento, volume de entregas e visibilidade que confere ao titular – é “areia demais” para quem não tenha pretensões de concorrer a deputado federal em 2022. Foletto não tem. Erick, sim.
E, na mesma conversa com a coluna, o próprio Foletto admite “cansaço” com Brasília, após ter cumprido oito anos de mandato lá, de 2011 a 2018.
Em 2018, ele reelegeu-se para um 3º mandato na Câmara Federal, mas assumiu a Seag e “passou o bastão” para o suplente, Ted Conti (PSB). Por isso e por motivos pessoais (a família e as duas cirurgias por que passou nos últimos anos), o atual secretário afirma que, em 2022, prefere concorrer a um mandato que lhe dê maior tranquilidade e maior proximidade dos seus filhos e do Espírito Santo. Ele especifica: quer voltar a ser deputado estadual. Está à disposição do PSB e de Casagrande, mas esse é seu desejo pessoal, até por uma questão de qualidade de vida:
“Estou com uma certa idade e ainda com filhos para educar. Tive filho muito velho e preciso trabalhar ainda. Tive um tumor e realizei duas cirurgias: uma em 2016 e outra em 2018. Um mandato mais próximo da família, a esta altura da minha vida, me trará maior tranquilidade.”
Por esse raciocínio, se a Seag entrar mesmo num acordo de Casagrande com Erick Musso e se o governador precisar lançar essa carta para atrair e persuadir o atual presidente da Assembleia, Foletto pode não ter escolha e acabar passando para outra função no governo – por exemplo, uma pasta de menor orçamento e menos entregas. E, político experiente que é, ele mesmo tem consciência disso:
“Eu realmente, depois dessa segunda cirurgia em 2018, gostei de ter ficado aqui no Estado. O Renato me ofereceu o espaço. Fico muito grato a ele por ter me oferecido este espaço aqui. Outro dia o governador me perguntou o que penso fazer em 2022 e eu respondi a ele: ‘Governador, eu só não sou candidato a governador, porque o senhor é candidato. Posso fazer qualquer coisa aí, vamos conversando para eu contribuir com o partido. E posso até não ser candidato. Posso ser candidato de vice-governador a nada (risos)’”, relata o secretário, com desprendimento.
EXPERIÊNCIA NA "SIBÉRIA"
Mostrando ainda maior desprendimento, Foletto relembra uma experiência pessoal que, segundo ele, prova que é possível fazer um bom trabalho e ganhar projeção política mesmo em um espaço de menor visibilidade: sua passagem pela Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), no fim do segundo governo de Paulo Hartung, do início de 2009 a abril de 2010. Embora curta, essa passagem praticamente resgatou a carreira política dele, num momento em que até chegou a pensar em desistir da política.
Foletto havia acabado de perder a eleição a prefeito de Colatina, em 2008. Hartung o chamou para a Secti. Ele topou na hora, em sua primeira experiência no Executivo estadual. Tocou projetos como o Nossa Bolsa e cuidou da interrelação do governo com o setor produtivo (Findes, Sesi etc.). “Até do ponto de vista político, consegui uma projeção que não esperava e uma votação surpreendente para deputado federal em 2010. Tive quase 100 mil votos e cheguei na frente até de uma campeã, que é Rose de Freitas.”
Foletto chegou atrás somente de Audifax Barcelos (então também no PSB), Sueli Vidigal (PDT) e Lelo Coimbra (MDB). É claro que a ótima votação não se deveu apenas ao curto trabalho na Secti. Ele vinha de mandatos como deputado estadual, o PSB investiu fortemente nele e a campanha de Casagrande, então candidato do partido ao governo, também ajudou a empurrar a sua. Em todo caso, ele conta a “moral da história”:
“Já fui secretário de uma pasta que, quando fui mandado para lá, me disseram que eu tinha ido para a Sibéria. E a gente fez um trabalho tão bom lá na Secretaria de Ciência e Tecnologia que eu fui para a eleição a deputado federal em 2010 até achando que ia voltar para a casa e tive quase 100 mil votos. Eu já descobri, quando estava na Assembleia: às vezes você está numa comissão aparentemente sem grande importância, e fazer as coisas direito, fazer as provocações políticas das discussões, você pode fazer onde estiver.”
Assim, voltando para a Seag no presente, se eventual mudança for da vontade de Casagrande (ainda que não da sua), Foletto mostra resignação: “Eu não gostaria de sair. Não estava previsto nada. Mas, se o governador precisar da minha disponibilidade e da minha dedicação, eu vou trabalhar em uma outra pasta e vou trabalhar com a mesma dedicação de quando fui para a de Ciência e Tecnologia, que era para ser uma geladeira e não foi. E, do mesmo modo como estou aqui: fazendo as coisas com seriedade”.