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Vitor Vogas

Os pontos altos do debate A Gazeta/CBN Vitória e as estratégias de Helder, Ricardo e Pazolini

Precisando crescer, Helder foi quem botou mais pimenta, mas Pazolini e Ricardo também esquentaram o caldo em embates diretos. Confira aqui os melhores momentos de confronto entre eles

Publicado em 22 de Setembro de 2026 às 19:16

Públicado em 

22 set 2026 às 19:16
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Debate CBN e A Gazeta com os candidatos ao governo do ES, Lorenzo Pazolini, Helder Salomão e Ricardo Ferraço
Debate CBN e A Gazeta com os candidatos ao governo do ES, Lorenzo Pazolini, Helder Salomão e Ricardo Ferraço Fernando Madeira

No debate A Gazeta/CBN Vitória, realizado na manhã desta terça-feira (22), os três candidatos mantiveram excelente grau de civilidade. Como tem prevalecido até aqui nesta campanha estadual, o debate transcorreu em alto nível... o que não quer dizer que não tenham sobrado algumas caneladas entre eles.


Na condição de quem largou atrás e precisa subir nas pesquisas, Helder Salomão (PT) fez o que se esperava dele: foi o candidato mais “quente” e quem mais botou fogo no debate. Posicionado no palco do auditório exatamente entre Ricardo Ferraço (MDB) e Lorenzo Pazolini (Rep), distribuiu por igual suas alfinetadas nos dois adversários.


Com relação a Ricardo, a estratégia do petista foi apresentar o atual governador como inimigo dos trabalhadores. Já com relação a Pazolini, a tática foi a de trazer à baila (em confrontos com Ricardo) episódios delicados de sua história como prefeito, como a reforma previdenciária dos servidores de Vitória e a relação política dele com sua primeira vice-prefeita.


“Eu sei conversar com as pessoas, diferente dos meus adversários, que se escondem atrás das suas posições políticas”, disse Helder, em resposta à pergunta de um colega jornalista que não tratava de nenhum dos dois, para citarmos um exemplo de “canelada dupla”. “Saio daqui estarrecido em ver como meus adversários não responderam a uma pergunta”, afirmou, já nas considerações finais.


O petista também aproveitou cada ocasião que teve para mencionar o presidente Lula e suas contribuições para o Espírito Santo.


Ricardo e Pazolini, que lideram a corrida eleitoral (nessa ordem, segundo a última Quaest), também tiveram bons embates com Helder, mas não fugiram do confronto direto entre eles.


Nesse caso, a tática do governador foi a de rotular o ex-prefeito de Vitória como “inexperiente”, “destemperado” e “com baixo conhecimento” para governar o Espírito Santo. Aliás, Ricardo buscou descontruir a base da plataforma de campanha de Pazolini, que é a promessa de expandir para todo o Estado suas realizações em quase cinco anos e meio à frente da Prefeitura de Vitória.


“A pouca experiência e o baixo conhecimento te fazem acreditar em uma realidade que não dialoga com a vida real do Espírito Santo”, disse o governador – para exemplificarmos.


Por sua vez, Pazolini pôs em prática a estratégia de tratar Ricardo como um representante da “velha política” e da “política tradicional”. Sempre que pôde, expôs vulnerabilidades do atual governo, aportando dados que revelam resultados insuficientes e articulando-os com a ideia de que, “se não fizeram em 12 anos”, não farão agora.


Doze anos é a soma dos três mandatos de Casagrande com o atual mandato de Ricardo (com nove meses de duração). Nesses embates, Pazolini usou bastante a palavra “vergonha”. Ao falar de si mesmo, repetiu a palavra “paz” uma dezena de vezes ao longo da contenda.


“Eles ficaram de interesses paroquiais, tratando de cargos comissionados, tratando daquilo que não é republicano. [...] É a dicotomia entre a nova política e a velha política”, carimbou o ex-prefeito (a título de exemplo).

OS EMBATES

Debate CBN e A Gazeta com os candidatos ao governo do ES, Lorenzo Pazolini, Helder Salomão e Ricardo Ferraço
Debate CBN e A Gazeta com os candidatos ao governo do ES, Lorenzo Pazolini, Helder Salomão e Ricardo Ferraço Fernando Madeira

Pazolini versus Ricardo

As regras do debate previam quatro rodadas de perguntas diretas entre eles, com cada candidato respondendo à pergunta de um adversário e perguntando para o outro oponente em cada bloco. Assim, no decorrer do debate, cada candidato teve quatro embates com cada um dos dois adversários.  


Ricardo perguntou a Pazolini sobre os efeitos da reforma tributária: “Como manter o Espírito Santo crescendo?”


Defendendo a descentralização de investimentos e a priorização da atividade turística, Pazolini deixou a primeira farpa: “Esse debate deveria ter sido iniciado muito tempo atrás”. Também começou a usar Vitória como modelo a ser seguido: “Vitória fez o maior investimento em turismo da história do Estado, com o projeto Vitória de frente pro Mar”.


No bloco de perguntas sobre temas sorteados na hora, Pazolini questionou Ricardo sobre mortes no trânsito. Falou em “omissão” e “irresponsabilidade”, combinada com “falta de investimento”. E foi implacável: “Por que, durante a sua gestão, o Espírito Santo se tornou um dos campeões das mortes no trânsito? Onde vocês erraram?”


Ricardo acusou o adversário de “falta de experiência e de conhecimento”. “Parece que vive num mundo imaginário!”, ironizou. “Trata o Espírito Santo como se fosse a nossa querida capital”, criticou o governador, completando que a realidade de Vitória é bem mais simples.

“Capixabas, desconfiem muito de todos aqueles que propõem soluções simples para questões complexas. [...] Em época de eleição, é muito fácil fazer promessa eleitoral, prometer terreno na Lua, mas, quando teve oportunidade de fazer, não fez!”, afirmou Ricardo.


Na rodada seguinte, foi a vez de Pazolini perguntar a Ricardo sobre a reforma tributária. “Por que vocês foram omissos e irresponsáveis com o futuro do Espírito Santo?”, questionou o ex-prefeito, embutindo uma crítica na pergunta.


“Não sei a razão dessa agressividade, desse destempero”, revidou o emedebista. “Talvez seja a falta de experiência, porque você olha a realidade de Vitória como se fosse a realidade do Espírito Santo. Mas não é. A do Estado é muito mais desafiadora.”


Então, na réplica, Pazolini subiu alguns degraus, associando Ricardo a corrupção e “escândalo”: “A experiência de ter o nome em lista de propina, de ter o nome em escândalo financeiro, essa experiência eu não quero. O capixaba também não quer”.


As referências indiretas foram ao fato de Ricardo ter tido o nome incluído em uma planilha da empreiteira Odebrecht para suposto pagamento de caixa dois em sua campanha a senador, em 2010 – acusação sempre negada por Ricardo –, bem como à presente crise financeira da Apex Partners, empresa que tem o filho mais velho do governador, Pedro Chieppe, como um dos sócios e acionistas. 


Na tréplica, Ricardo revidou com uma revelação: pela primeira vez, trouxe a lume o fato de que Pazolini foi indiciado pela Polícia Federal (PF).

Datado de 10 de agosto deste ano, o indiciamento é consequência do episódio em que o então prefeito acusou, implicitamente, o então governador Renato Casagrande de lhe ter feito, dentro do Palácio Anchieta, uma proposta de licitação fraudulenta para o Estado poder efetuar determinado investimento em Vitória. 


A afirmação foi feita de público por Pazolini no dia 14 de maio de 2022, em discurso realizado por ele durante a inauguração de uma escola municipal no bairro Jardim Camburi. De fato, nunca foi comprovada por ele. No que diz respeito a Casagrande, o caso foi arquivado pela Procuradoria-Geral da República. Em maio de 2022, o então governador era pré-candidato à reeleição.


A coluna teve acesso ao mandado de intimação de Pazolini. Ele foi indiciado pelos crimes de calúnia eleitoral e de denunciação caluniosa eleitoral (previstos, respectivamente, nos artigos 324 e 326-A do Código Eleitoral brasileiro).

O documento 
informa que o ex-prefeito de Vitória foi ouvido no último dia 23 de julho pela Delegacia de Direitos Humanos e Defesa Institucional da Superintendência Regional da PF no Espírito Santo, para que pudesse apresentar as provas das suas alegações. Mas, segundo o documento, o ex-prefeito não levou novos elementos ao inquérito. 


Procurada pela reportagem de A Gazeta, a assessoria de Pazolini declarou que não se manifestará sobre o tema, porque o processo corre em segredo de Justiça.  


“É lamentável!”, disse Ricardo, no debate. “A população capixaba está vendo o destempero, o desequilíbrio e a falta de compromisso com a verdade. O candidato foi indiciado recentemente pela Polícia Federal porque fez denúncia e não teve a capacidade de provar.”


Por fim, Pazolini endereçou a Ricardo uma pergunta sobre educação, agenciando dados negativos e, de novo, usando o adjetivo “vergonhoso”: “Só 10% dos alunos do Espírito Santo no ensino médio têm desempenho adequado em Português e Matemática”.


Os dois intercalaram o adjetivo “lamentável” com o advérbio “lamentavelmente”. 

Helder versus Ricardo

Debate CBN e A Gazeta com os candidatos ao governo do ES, Lorenzo Pazolini, Helder Salomão e Ricardo Ferraço
Debate CBN e A Gazeta com os candidatos ao governo do ES, Lorenzo Pazolini, Helder Salomão e Ricardo Ferraço Fernando Madeira

Primeiro a perguntar no debate, Helder escolheu Ricardo e lhe dirigiu uma pergunta sobre a reforma trabalhista, lembrando que ele foi o relator do projeto do governo Temer no Senado em 2017 e afirmando que ele permitiu que trabalhadoras com filhos recém-nascidos amamentem em ambientes insalubres.


Sem entrar nos meandros da reforma, Ricardo classificou a fala como “fake news”. E preferiu falar em crescimento, atração de empresas, geração de empregos e estabilidade do ambiente de negócios. “Os capixabas não terão o Espírito Santo submetido a ideologia”, esquivou-se.


No bloco de perguntas temáticas, Ricardo questionou Helder sobre “obras prioritárias”. Preferiu enfocar Cariacica (cidade governada pelo petista por dois mandatos, de 2005 a 2012). De passagem, enalteceu um de seus principais aliados eleitorais e adversário de Helder: “Cariacica tem vivido um crescimento vertiginoso, liderada por Euclério Sampaio, um prefeito competente”.


“As pessoas me dizem: ‘Cariacica é uma antes e outra depois de sua gestão’”, respondeu o deputado do PT, prometendo que será “o governador mais municipalista da história do Espírito Santo”.


Helder também respondeu com um dado duvidoso: disse que o PIB de Cariacica superou o de Vitória. Aproveitou a própria deixa para criticar Pazolini e Ricardo na mesma sentença:


“O prefeito de Vitória tem que explicar por que Vitória perdeu tração, porque isolou a capital, e o senhor, se reeleito, vai isolar o Espírito Santo, com a reeleição do presidente Lula”.


Na primeira oportunidade, Pazolini corrigiu Helder, dizendo que o petista confunde o PIB de Cariacica com a cota-parte do município no rateio do ICMS. “Se não entende a diferença, não deveria nem ser candidato a governador.”


Na sequência, em outro embate entre Ricardo e Helder (sobre educação), o candidato do PT também usou a pergunta para criticar Pazolini sobre questões diversas. Acusou o ex-prefeito de ter feito, como primeiro ato de sua gestão (em janeiro de 2021), “a pior reforma da Previdência da história do país e de uma capital”, penalizando servidores municipais de Vitória com uma alíquota de 14%. “E ainda deu um calote nos servidores!”


Na tréplica, mais uma vez, Helder mirou Pazolini, invertendo uma acusação que o ex-prefeito fizera a Ricardo. Neste momento, o deputado do PT e o governador pareceram até fazer uma “dobradinha”:


“Se aliou com o que há de pior na política nacional e na política estadual. ‘Velha política’, candidato? O senhor não pode falar de velha política!”


Foi uma alusão à aliança de Pazolini com o PL do senador Magno Malta e da família Bolsonaro.

No bloco de perguntas de jornalistas, Helder ainda desferiu uma alfinetada em Ricardo: “Eu não me encontraria escondido com o presidente no aeroporto”.

Helder versus Pazolini

Debate CBN e A Gazeta com os candidatos ao governo do ES, Lorenzo Pazolini, Helder Salomão e Ricardo Ferraço
Debate CBN e A Gazeta com os candidatos ao governo do ES, Lorenzo Pazolini, Helder Salomão e Ricardo Ferraço Fernando Madeira

Pazolini perguntou a Helder sobre a preocupante taxa de feminicídios praticados no Espírito Santo (a maior, proporcionalmente, entre os quatro estados do Sudeste).


Esse confronto foi uma boa síntese do debate, pela sequência de digressões:


Helder aproveitou para criticar Pazolini por um assunto diverso da pergunta: a decisão do candidato do Republicanos de não assinar o compromisso proposto pelo Sindibancários para que o Banestes não seja privatizado pelo próximo governador.


Pazolini, na réplica, aproveitou para criticar Ricardo, que estava alheio à pergunta: “O Espírito Santo é o estado do Sudeste mais violento para mulheres porque eles não se preocuparam com a vida das mulheres”.


Na tréplica, em nova derivação, Helder elogiou o atual presidente da República: “Quem entende mesmo de gerar emprego neste país é o presidente Lula”.


Mais perto do fim do debate, Helder perguntou a Pazolini sobre o mesmo tema: violência contra a mulher.


O candidato do PT trouxe à tona o episódio, ocorrido logo após a eleição municipal de 2022, no qual o então prefeito e sua então vice-prefeita, Capitã Estéfane, “disputaram”, por assim dizer, a posse de um microfone durante evento da Prefeitura de Vitória no mesmo fatídico cenário: o Centro de Convivência da Terceira Idade em Jardim Camburi.  


“O exemplo tem que vir de cima. Quem não se lembra o que o senhor fez com sua vice?”


Dizendo-se “estarrecido”, Pazolini respondeu que “não houve delito” e que sua equipe postaria naquele momento, em suas redes sociais, relatório de perícia do Ministério Público Eleitoral, comprovando que na verdade ele já estava em posse do microfone em questão. “É preciso desmascarar alguém que falta com a verdade!” A postagem realmente foi feita.


No post, Pazolini escreveu: A Polícia Federal investigou o caso, as imagens foram analisadas e a Procuradoria Regional Eleitoral concluiu que não foram reunidos elementos de autoria e materialidade do delito, promovendo o arquivamento da investigação”.

O documento publicado é a conclusão do Ministério Público Eleitoral, promovendo o arquivamento do inquérito policial: 
“A rigor, a vice-prefeita tentou segurar o equipamento após o prefeito. Portanto, não se pode depreender do vídeo, que é o fato objeto desta investigação, nenhuma ação de assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar, ou ação com a finalidade de impedir ou de dificultar o desempenho do mandato eletivo da vice-prefeita”.


Finalmente, em pergunta de Helder para Pazolini sobre mudanças climáticas, o candidato do PT cobrou o do Republicanos pela ausência de um plano municipal de prevenção em Vitória até hoje.


O ex-prefeito pegou a deixa para apresentar o discurso de “candidato humano”, que se preocupa com as pessoas, evocando o episódio das chuvas que inundaram e destruíram em grande parte o município de Mimoso do Sul, em março de 2024.


“Temos números. Temos vidas. Em cinco anos, não tivemos perda de vida em Vitória por desastres naturais. Fui a Mimoso do Sul oferecer a nossa ajuda. O senhor esteve lá? Precisamos de um gestor que seja humano, que entenda a dor da população. [...] O candidato fala de um assunto que ele não conhece. Não teve a coragem e a dignidade de ir a Mimoso estender a mão. [...] Precisamos de uma gestão humana e de alguém que ame cuidar do povo.”


Aí foi a vez de Helder corrigir Pazolini: “Mentiu! Está deslocado. Estive em Mimoso na Quinta-Feira Santa”.

Documento da PF

Indiciamento

De acordo com o documento da Polícia Federal citado por Ricardo, Pazolini foi indiciado em dois artigos do Código Eleitoral:

 

Art. 324. Caluniar alguém, na propaganda eleitoral, ou visando fins de propaganda, imputando-lhe falsamente fato definido como crime:

Pena – detenção de seis meses a dois anos e pagamento de 10 a 40 dias-multa.

Art. 326-A. Dar causa à instauração de investigação policial, de processo judicial, de investigação administrativa, de inquérito civil ou ação de improbidade administrativa, atribuindo a alguém a prática de crime ou ato infracional de que o sabe inocente, com finalidade eleitoral:

Pena - reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.

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Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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