Quem a conhece sabe bem: ela tem aspirações políticas.
Especialista em cirurgia oncológica, a médica Lívia Vasconcelos, primeira-dama
de Colatina, é jovem (pouco mais de 30 anos), articulada, comunicativa e dona
de um carisma reconhecido por quem convive com ela. Para alguns, o maior
talento político da família Vasconcelos ainda está guardado do público.
Descrita também como alguém com perfil dominante, Lívia,
segundo relatos, exerce indisfarçável influência sobre a administração do
marido, Renzo Vasconcelos (PSD), em Colatina, assim como também já exercia
sobre o Hospital São José, pertencente à família de Renzo. Nos bastidores, é
mais que uma primeira-dama. É quase a “primeira-ministra” colatinense.
Lívia queria ser candidata a vice-governadora na chapa de
Lorenzo Pazolini (Republicanos), numa operação que esteve a um milímetro de ser
confirmada, mas que acabou implodida na hora H – pelo próprio Renzo, sob
pressão de Sérgio Meneguelli.
Entre o desejo de lançar a esposa, impulsionando sua
carreira política, e a necessidade imperiosa de atender a Meneguelli, Renzo fez
a segunda opção: como presidente estadual do PSD, bancou a candidatura do ex-prefeito ao Senado, em uma chapa isolada, sem candidato a governador (muito menos a vice).
Assim, Lívia teve de renunciar a seu projeto e ao desejo que
verdadeiramente nutria, como confirmou em entrevista logo após a convenção do
PSD, na noite de quarta-feira (5). Ela também confirmou o convite feito a ela,
pessoalmente, por Pazolini.
“Recebi de fato esse convite para ser candidata a vice-governadora
do Espírito Santo. Fiquei muito feliz, muito alegre, porque isso mostra que
estou no caminho certo, mesmo que eu não tenha disputado nada, ou seja, estou
sendo reconhecida pela população e também pela classe política. Isso me deixou
entusiasmada! Por isso, o Pazolini tem muito do meu carinho e da minha afeição
pelo projeto dele.”
Entretanto, mesmo sem ser vice de ninguém, Lívia ainda pode
participar da disputa eleitoral. Dentro do PSD, ela passou a ser
automaticamente tratada como favoritíssima para ocupar, se quiser, a 1ª
suplência da chapa de Meneguelli ao Senado.
“Seria um ótimo nome”, opina o deputado e ex-prefeito
colatinense. Logo após a convenção, ele disse ter preferência por um nome, mas
não quis revelá-lo antes da hora.
“Eu estou pensando sobre isso”, admite Lívia agora, à
coluna. “Preciso pensar antes de decidir.” Segundo a primeira-dama, Meneguelli
reforçou o convite a ela no dia da convenção, antes do início dos trabalhos.
A alternativa à suplência, para ela, é ser candidata a
deputada (federal ou estadual).
Deputada federal
Para federal, nas atuais circunstâncias, ficou muito difícil.
A própria Lívia conta ter sido convidada em dezembro passado
por Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, para ser candidata a federal,
convite renovado por ele, em conversa telefônica com ela, no dia da convenção.
Mas há duas dificuldades aí. A primeira é de ordem pessoal.
Lívia e Renzo têm dois filhos pequenos: um menino de três
anos e uma menina de um aninho. Isso também pesará na decisão da primeira-dama.
Como deputada federal, a rotina para ela, como mãe, seria bem mais “puxada”,
por precisar estar toda semana em Brasília. Como suplente, não.
Ela admite que seu “desejo maior” seria um mandato federal,
mas também reconhece os óbices: “Tenho um pouco de dificuldade para pensar em
deputada federal, devido a Brasília. Liguei para os meus pais, para meu sogro,
minha sogra... Agora é momento de a gente refletir, até porque preciso de toda
uma estrutura familiar para isso acontecer”, disse após a convenção, na
quarta-feira.
O segundo problema é de natureza política e pragmática.
Com a atual composição, registrada na ata da convenção, o PSD está com uma chapa federal muito fraca. Na ata, só constam seis candidatos – todos muito pouco conhecidos.
No Espírito Santo, uma chapa completa pode ter 11 candidatos
a federal. Outros nomes poderão ser incluídos até o dia 15, inclusive o de
Lívia. Mas, mesmo se ela entrar na chapa e receber um caminhão de votos, o PSD
provavelmente não chegará perto do quociente eleitoral (projetado em cerca de
200 mil votos). Ela fará campanha à toa.
O exemplo vem do próprio Renzo. Em 2022, pelo antigo Partido Social
Cristão (PSC) – incorporado pelo Podemos no ano seguinte –, ele recebeu 82.276 votos, uma excelente marca, que o deixou como o 3º mais votado nominalmente para o cargo no Estado.
Mas a chapa do PSC era débil e,
na votação total, ficou bem distante de atingir o mínimo necessário para fazer
um federal. Mesmo muito bem votado, Renzo ficou de fora.
Além disso, há outros políticos influentes em
Colatina disputando o mesmo reduto para federal neste pleito, como o
ex-prefeito Guerino Balestrassi (Podemos) e Josias da Vitória (PP), candidato à
reeleição, com quem Renzo tem proximidade.
Deputada estadual
A última opção é disputar um lugar na Assembleia. A chapa
provisória do PSD, registrada na ata, também está bem pouco competitiva: a
princípio, só há 8 candidatos. A maior aposta é o vice-prefeito de Colatina,
Pedro Paulo Pagotto (nome de urna: Dr. Pagotto).
O quociente estimado nesse caso é mais baixo: cerca de 65
mil votos. Se Lívia entrar na chapa e disputar, a vitória é bem mais factível.
Seu potencial nas urnas é uma incógnita, mas, com a Prefeitura de Colatina jogando
a seu favor, ela poderá ser bem votada e beliscar uma vaga.
Para Renzo, como prefeito, seria importante ter a esposa
como uma extensão de seu mandato no Legislativo Estadual.
Como deputada estadual, a rotina parlamentar seria mais
conciliável com a de mãe.
Conforme lavrado em ata, a convenção do PSD delegou à Comissão Provisória Estadual “o preenchimento das vagas não preenchidas e remanescentes das chapas, com recomposição da cota de gênero, e as eventuais substituições”. Até o dia 15, poderão fazer isso.
Hoje, portanto, a maior aposta é que Lívia se torne a 1º
suplente de Meneguelli. A ideia conta com o apoio de integrantes do partido. Em
segundo lugar, candidata a estadual. Com chances diminutas, federal.
Chapas do PSD
implodem
Com os rodopios do PSD nos últimos dias, as chapas
proporcionais do partido se desmantelaram.
Duas das maiores apostas para serem puxadores de voto na
estadual decidiram não se candidatar. O ex-prefeito de Guarapari Edson
Magalhães anunciou a decisão pelo Instagram, na quinta-feira (6):
“Diante de um cenário de
composição partidária ainda indefinido e de decisões que não dependem
exclusivamente da nossa vontade, entendi que este não é o momento de seguir com
esse projeto rumo à Assembleia Legislativa”.
Já o ex-prefeito de Linhares Bruno Marianelli confirmou à
coluna que não será candidato.
Marianelli é discípulo político de Guerino Zanon. Mas o também ex-prefeito de Linhares decidiu inclusive se desfiliar do PSD, por apoiar Pazolini e não concordar com a decisão final tomada por Renzo Vasconcelos.
Na chapa estadual do partido, um dos oito únicos registrados
na ata é Anselmo Tozi, ex-deputado estadual e secretário estadual de Saúde nos
dois primeiros governos de Paulo Hartung.
A chapa federal do PSD também desmoronou. Um dos filhos de
Guerino Zanon era cotado para se candidatar a deputado federal, mas agora isso
já era...
Em tempo: quem ajudou o PSD a montar suas chapas, agora esfaceladas,
foi Erick Musso, presidente estadual do Republicanos e articulador de Pazolini.
Foi ele, por exemplo, quem levou para o PSD Neuza Maria Oliveira (nome de Urna:
Neuzinha Filha).
A filha da ex-vereadora de Vitória Neuzinha Oliveira, aliada
de Pazolini, está entre os oito candidatos a estadual homologados em ata. Até
discursou na convenção, em seu début
político, diante da mãe (toda orgulhosa da filha, na plateia). Elas são bem
parecidas fisicamente.
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