“Minha mãe me ensinou que palavra de homem não precisa ser
assinada. É no fio do bigode”, disse Renzo Vasconcelos, na noite de
quarta-feira (5), ao anunciar que o PSD ficaria neutro na eleição para
governador e bancaria a candidatura de Sérgio Meneguelli a senador. Ao optar
por esse caminho, Renzo de fato cumpriu sua palavra com Meneguelli. Mas isso
não muda dois fatos.
Fato 1
Até a manhã de quarta-feira, sob a condução de Renzo, o PSD
caminhava firmemente para outra solução: entrar na coligação do Republicanos, apoiar
Lorenzo Pazolini para governador e emplacar Lívia Vasconcelos (esposa de Renzo)
como candidata a vice de Pazolini; neste caso, Meneguelli não teria sido
candidato a senador, por falta de espaço para ele nessa coligação. A
candidatura dele esteve, verdadeiramente, por um fio.
Sob condição de anonimato, fontes dos dois partidos vão além,
incluindo articuladores políticos do PSD e do Republicanos diretamente
envolvidos nas tratativas. Segundo tais fontes, o acordo nesse sentido chegou a
ser fechado na véspera, em reunião
do casal Vasconcelos com Pazolini e Erick Musso (sem a presença de Meneguelli).
Fato 2
Na tarde de quarta-feira, houve uma grande reviravolta nos
bastidores, daquelas que só a política é capaz de produzir. O fio do novelo se
desenrolou. Nas derradeiras horas antes da convenção do PSD, o acordo de boca
feito na véspera foi desfeito.
Desfeito em favor de Meneguelli, cuja candidatura
prevaleceu, e em desfavor de Lívia Vasconcelos, que queria ser candidata a
vice, mas, no fim das contas, não será.
O protagonista do “desfazimento” foi Renzo.
E por que, então, desfez-se o acordo com o Republicanos?
Em uma palavra, Colatina.
É por isso que, no título deste artigo, dissemos que foi
Colatina quem salvou a candidatura de Meneguelli. Não nos referimos literalmente
ao município, tampouco ao povo colatinense.
O que salvou Meneguelli, na verdade, foi a conjuntura
política muito específica de Colatina, cidade governada por ele por um mandato,
de 2017 a 2020, e por Renzo desde 2025.
Para ser ainda mais específico, o que o salvou foi o
tabuleiro eleitoral do próximo pleito municipal, em 2028, quando Renzo buscará
a reeleição.
“Sim, o acordo estava fechado. O que houve foi uma reviravolta
de última hora promovida pelas circunstâncias locais bairristas de Colatina”, atesta
um operador de bastidores do PSD que esteve em Vitória nos últimos dias especialmente para participar das
tratativas finais.
A mesma fonte se permite fazer uma piada: “Eu não fazia
ideia, mas aparentemente é Colatina que é a verdadeira ‘capital secreta do
mundo’, não Cachoeiro de Itapemirim!”
Isso devido à importância que o cenário paroquial colatinense
desempenhou no episódio em questão, a ponto de influenciar decisivamente a
eleição para o Senado e até, indiretamente, a eleição para o Palácio Anchieta.
Renzo estava no fio
da navalha
Em Colatina, hoje, Meneguelli é o mais importante aliado do
prefeito Renzo Vasconcelos. Se o amor é proporcional ao ódio, uma aliança pode
ser proporcional a um desejo de vingança.
Dependendo do desfecho da convenção do PSD, o hoje maior
aliado de Renzo poderia se voltar contra ele e se converter em seu maior
pesadelo...
Se tivesse sido rifado pelo PSD (como foi pelo Republicanos em 2022), Meneguelli poderia vir candidato a prefeito de Colatina, contra Renzo, daqui a dois anos. E viria espumando de raiva para o derrotar nas urnas.
Não sabemos se Meneguelli chegou, naquelas horas
derradeiras, a fazer algum tipo de ameaça a Renzo, explícita ou velada, nessa
direção. Na verdade, talvez ninguém jamais saberá o que exatamente se passou entre
eles naquelas horas decisivas da tarde de quarta-feira.
Mas a mera hipótese de Meneguelli se candidatar contra ele
em 2028 foi sempre uma espada pairando sobre a cabeça de Renzo, desde o início
deste processo. Todos sabiam disso.
No último pleito municipal, em 2024, Meneguelli foi mais que
decisivo para o triunfo eleitoral de Renzo sobre o então prefeito de Colatina, Guerino
Balestrassi. Com sua entrada em carne e osso na campanha de Renzo na última
semana, Meneguelli ajudou a constituir a vitória apertadíssima, numa das
chegadas mais acirradas entre todos os municípios capixabas. E Guerino tinha o
apoio de Casagrande!
Agora, se ferido e traído por Renzo, Meneguelli poderia ser
igualmente determinante para ele em 2028, mas dessa vez para seu revés, do mesmo modo que o foi para
seu triunfo em 2024. Renzo sempre teve plena consciência disso. E não quis
pagar para ver.
Aliás, não só tirou essa espada da cabeça como tratou de amarrar bem com Meneguelli as condições mais favoráveis possíveis para ele mesmo em 2028. Ao garantir
a Meneguelli a legenda para disputar o Senado, Renzo garantiu de antemão,
para si mesmo, a reedição do apoio do seu maior cabo eleitoral.
Ninguém verbalizou, nesses termos, essa combinação entre os
dois... Mas, durante a convenção, o trato ficou explícito.
A tinta da ata ainda nem tinha secado que lá mesmo, no local
da convenção, Renzo gravou com Meneguelli um vídeo e postou em suas redes
sociais. Nele, após o prefeito anunciar a candidatura de Meneguelli ao Senado,
este declara:
“Foi a primeira vez que o presidente do partido que eu
participei agiu com honradez, com dignidade, mostrando que tem coragem e que não
é moleque! Então, Renzo já é inclusive o meu candidato à reeleição a prefeito
de Colatina.”
Ao que Renzo responde: “Amém!”
Além disso, na entrevista coletiva, respondendo a uma pergunta da colega Letícia Gonçalves, Meneguelli descartou concorrer de novo a prefeito em 2028:
"Descarto. Não é meu projeto de vida. Eu não curto reeleição, já tive duas oportunidades de voltar à prefeitura e não fui. Se eu voltasse, seria uma reeleição disfarçada. Quem tem que disputar a reeleição é Renzo Vasconcelos. Eu não quis governar por oito anos por uma questão pessoal, mas Renzo Vasconcelos tem meu apoio desde agora. Não vou ser candidato em 2028.”
PSD: Partido do Sol
Descendente
O PSD, como se nota, virou no Espírito Santo o Partido do
Sol Descendente. Refiro-me ao famoso pôr do sol, cartão postal da Princesinha
do Norte.
Neste estado, o partido, tão grande nacionalmente, hoje está
atrelado e subordinado às circunstâncias muito particulares da política
colatinense.
Segundo nossa fonte de alta patente do PSD, o próprio
Gilberto Kassab, presidente nacional da sigla (para quem, convenhamos, o ES não
tem lá tanta importância), meio que lavou as mãos na quarta-feira, antes da convenção.
“O Kassab considerou que não haveria razão para promover uma
Terceira Guerra Mundial para prejudicar quem quer que seja. E, infelizmente,
foi esse o desfecho. Mas não era o que estava construído até terça à noite.”
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