O que pode levar Casagrande a decretar o lockdown na Grande Vitória?
Coronavírus
O que pode levar Casagrande a decretar o lockdown na Grande Vitória?
Pergunta dois: o que pode evitar que o governo chegue a tomar essa medida extrema no mês de junho? Veja, na coluna, as respostas para tais questionamentos
Governo Casagrande avalia decretação de lockdown na Grande Vitória em função da disponibilidade de leitos de UTI para tratamento de pacientes com Covid-19Crédito: Amarildo
O governo Casagrande já trata um lockdown na Grande Vitória como cenário plausível e pode decretar a medida extrema no mês de junho. Tanto é que o governo pretende se reunir, até a próxima sexta-feira (29), com os porta-vozes das federações que representam indústria, comércio, transportes, agricultura e outros setores econômicos no Espírito Santo – como mostramos aqui nesta terça-feira (26).
O que faz com que a hipótese do lockdown se mostre mais plausível a cada dia é um conjunto de evidências que indicam um crescimento muito preocupante do ritmo de contágio pelo novo coronavírus no Espírito Santo, sobretudo na Grande Vitória. É uma reação em cadeia: o crescimento da curva de contágio leva a um aumento proporcional do número de pacientes em estado grave e que demandam internação, o que, por sua vez, provoca um crescimento gradual da demanda por leitos de UTI para tratamento da Covid-19.
Conforme mostrou reportagem de A Gazeta publicada no último domingo (24), com base em dados oficiais da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), a ocupação de leitos de UTI destinados a pacientes com a doença, na Grande Vitória, atingiu 88,58% no final da tarde daquele dia (60 horas antes da publicação desta coluna).
O governo estadual estima que já estamos vivendo o início do pico da primeira onda de contágio no Espírito Santo, compreendido entre as duas últimas semanas de maio e as duas primeiras semanas de junho. Isso significa que, pelo ritmo atual, a demanda de pacientes com Covid-19 por leitos de UTI, que já é grande, será ainda maior em meados de junho, gerando uma pressão muito forte sobre a rede hospitalar em duas ou três semanas.
Se nada mais for feito na outra ponta – isto é, se nos próximos 15 dias a oferta de leitos não for ampliada no mesmo ritmo –, podem anotar: é certo que, em junho, a taxa de ocupação superará a marca crítica de 90% na Grande Vitória.
A partir do momento em que isso ocorrer, o governo terá de 48 a 72 horas para tomar e anunciar as novas medidas de endurecimento do isolamento social, que podem corresponder, repita-se, a um lockdown. Nesse caso, uma indústria, por exemplo, não pode ser avisada de supetão que, em 72 horas, terá que interromper sua produção. Por isso o governo já inicia nesta semana o diálogo com o setor produtivo.
O QUE PODE EVITAR UM LOCKDOWN?
Por outro lado, apesar dos indicadores fortes de crescimento do contágio e da demanda por leitos no Estado, por que a decretação de lockdown ainda não é considerada uma medida certa e inevitável (ainda que seja uma possibilidade crescente)? Por causa do outro termo dessa equação.
Noventa por cento (90%) é uma fração. Significa 9/10, ou 0,9. A conta aqui é uma divisão simples que, como toda operação do tipo, possui três termos: o dividendo (algo...), o divisor (...dividido por algo) e o quociente (resultado da divisão)*.
No caso concreto, temos o número de leitos ocupados por pacientes de Covid-19 no Espírito Santo dividido pelo número de leitos de UTI disponíveis para os pacientes com a doença.
Se eu tenho nove pacientes para cada dez leitos, a conta é 9 dividido por 10, isto é, 9/10, que equivale a 90/100, portanto 90% de ocupação dos leitos.
Mas, se eu aumento o divisor, no caso a disponibilidade de leitos, esse percentual de ocupação diminui; por exemplo, se em vez de 9 pacientes para cada 10 leitos disponíveis (9/10), tenho 9 pacientes para cada 12 leitos (9/12), o resultado (ou quociente) passa a ser 0,75, ou seja, 75% dos leitos ocupados: uma folga no sistema.
Na prática, isso significa que o governo do Estado, hoje, está numa corrida (ou luta) contra o tempo, pois precisa aumentar urgentemente o divisor, no mesmo ritmo em que cresce o dividendo dessa conta; em outras palavras, o governo luta, no momento, por uma ampliação do número de leitos que se dê, no mínimo, na mesma proporção do crescimento do número de pacientes necessitados de internação: a oferta precisa cobrir a demanda.
Assim, enquanto a curva de contágio e de pacientes continuar subindo, o governo precisa expandir o número de leitos na mesma velocidade, para evitar o colapso do sistema e a necessidade de uma medida extrema como o lockdown. É como se houvesse duas linhas concorrentes num gráfico, apostando uma corrida entre si: a linha da demanda por leitos contra a linha da oferta de leitos.
Razoável, portanto, concluir que, se não houver uma elevação substancial da oferta de leitos até o início de junho, é provável, praticamente inevitável, que o governo adote o caminho da decretação do lockdown a fim de refrear o ritmo do contágio e, assim, proporcionar algum alívio ao nosso sistema de saúde.
Tudo depende, essencialmente, do aumento na oferta de leitos nos próximos 15 dias. E é nisso que o governo estadual tem centrado esforços neste momento.
A disponibilização de mais leitos de UTI está condicionada a fatores como espaço, infraestrutura de modo geral, mas, fundamentalmente, a um item bem específico: respiradores. Hoje, o Espírito Santo tem um total de 490 leitos disponíveis exclusivamente para pacientes com Covid-19. É suficiente hoje, 27 de maio, mas pouco para suprir o crescimento esperado da demanda já nas próximas semanas. Até o fim de junho, o governo espera gerar de 200 a 250 novos leitos, o que elevará o total para até 740.
Já no curtíssimo prazo, que é o que mais importa no momento, já chegaram e estão sendo calibrados, no hospital Dr. Jayme dos Santos Neves, 60 novos respiradores – primeira leva de um total de 160 adquiridos pelo governo do Estado de uma empresa italiana. Em média, o governo está mantendo 7 respiradores para cada 10 pacientes nas UTIs (nas alas dos pacientes em estado mais grave, é um respirador por pessoa).
Isso significa que esses 60 respiradores recém-chegados poderão acrescentar, aproximadamente, 85 leitos àqueles 490 já existentes, totalizando 575 leitos para pacientes de Covid-19 no Espírito Santo até o fim deste mês.
* Há, em alguns casos, um quarto termo da divisão: o resto. Mas, no conta em questão, não se trabalha com resto, até porque se trata de frações.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.