O que Erick Musso fará com o pedido de impeachment de Casagrande?
Momento decisivo
O que Erick Musso fará com o pedido de impeachment de Casagrande?
Há muito mais em jogo do que pode aparentar. Mesmo com fundamentação precária, pedido é mais um espeto sobre o governador, nas mãos do presidente da Assembleia, em momento de definições eleitorais
Uma hipótese: Erick pode não ter interesse em levar a denúncia adiante, mas total interesse em manter essa adaga bem guardada na gaveta dele, ainda mais neste momento de definições eleitorais. Não é encostá-la no pescoço de Casagrande, mas a manter suspensa sobre a cabeça do governador. Assim ele aumenta o seu poder de barganha na mesa de negociação com o governo – de novo: em um momento decisivo.
Por outro lado, se Erick determinar logo o arquivamento do pedido de Assumção, fortalece sua imagem como ponto de equilíbrio e de moderação na arbitragem dos conflitos entre a oposição e o governo Casagrande... que fica lhe devendo uma. Ou seja, o presidente da Assembleia não tem como perder nesse episódio.
POR QUE O GOVERNADOR NÃO CUMPRIU O PRAZO INICIAL?
Questão de timing e de cálculo político. Inicialmente, Erick Musso havia informado ao governador que ele deveria comparecer à Assembleia para ser sabatinado até o dia 3 de março. Nessa data, porém, as entidades de representação de policiais e bombeiros ainda não haviam aceitado a proposta de reajuste salarial feita pelo governo, o que ocorreu dois dias depois. E o governo não havia, por exemplo, anunciado o reajuste do piso salarial do magistério, como fez nesta segunda (9).
O momento era de tensão ainda maior que a atual. A oposição vinha crescendo na Assembleia. Os ataques de bandidos em avenidas de Vitória, no dia 14 de fevereiro, ainda estava muito recente, e mais fresca ainda na mamória a greve da PM no Ceará.
O governador preferiu não enfrentar a oposição (especialmente Assumção, Pazolini e Vandinho) logo naquele momento crítico, para ter tempo de desarmar argumentos. Uma coisa é chegar diante de deputados e dizer “estamos negociando”. Outra é poder dizer “sim, já demos o aumento prometido”. Na manhã desta quarta-feira (11), os deputados aprovaram, em regime de urgência, os projetos de aumento salarial para os profissionais da segurança pública.
Mesmo que não deva dar em nada, esse movimento de Assumção prova algo: o deputado está mais que disposto a radicalizar na oposição a Casagrande. Se ele chega a protocolar pedido de impeachment por um motivo tão banal, imaginem o que não fará se o governador realmente der motivo!
Assumção cria esse barulho num momento ainda bem delicado para o governo, sobretudo na relação com as categorias do funcionalismdo estadual. Nesta segunda-feira (9) mesmo, houve assembleia da Pública-ES, entidade que reúne vários sindicatos, em frente à Assembleia.
O fato de os policiais – onde está sua base eleitoral – terem aceitado a proposta do governo Casagrande também o enfraquece um pouco nessa trincheira de combate ao Executivo. Se o governo for bem-sucedido na negociação com os policiais e se estes tiverem um reajuste com o qual eles mesmos concordaram, Assumção e os demais opositores na Assembleia não poderão seguir dizendo que o governo não dialoga com as associações e não atende à categoria.
Nesse cenário, o que resta ao deputado senão radicalizar na oposição? Para se manter relevante no debate político, ele parece decidido a se consolidar como a grande pedra no caminho do governo Casagrande na Assembleia, até o fim do mandato. E seguirá fustigando o Palácio Anchieta.
LEGALISMO DE OCASIÃO
Uma última observação sobre o episódio do pedido de impeachment protocolado por Assumção é que ele reforça algo que já sublinhamos aqui na atuação parlamentar do deputado: algo que se pode chamar de “legalismo de ocasião”. Ora o deputado se apresenta como o mais fervoroso defensor da lei, agarrando-se a cada linha da Constituição; ora demonstra se lixar para o que diz a lei, incluindo a Constituição.
Exemplo notório: a defesa regular que ele faz em plenário de execuções sumárias, sem processo legal. Obviamente, a prática não encontra abrigo na Constituição Federal (a não ser na situação extrema de o Brasil estar em guerra com outra nação). Execução sumária é assassinato: crime hediondo. Defender isso é defender crimes.
Dias antes, porém, o mesmo Assumção defendera desinibidamente, em suas redes sociais, um “novo AI-5”. Falando claramente, defender um “novo AI-5” é defender o fechamento do Congresso Nacional, ou seja, calar os parlamentares na esfera federal. E querer fechar o Parlamento em nível federal significa, por extensão, querer fechar o Parlamento nas outras esferas. Inclusive, a Assembleia Legislativa, onde ele hoje tem voz e mandato. É um paradoxo.
O SINDICATO DOS JORNALISTAS
Na sessão plenária da última segunda-feira (9), Assumção demonstrou surpresa em “descobrir” que existe o Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo. Qual a surpresa? A Constituição permite a sindicalização de jornalistas. O que ela não permite é sindicalização e greve de militares, como a de 2017, da qual participou o hoje deputado.
SEGUINDO O EXEMPLO DE CIMA
Na mesma sessão, Assumção atacou a jornalista Fernanda Coutinho, com impropérios como “aquela coisa inominável”. Como representante do Sindijornalistas, Fernanda discursou em plenário, na semana passada, durante a Tribuna Popular, e criticou alguns comportamentos do deputado. Deixamos aqui nossa solidariedade à jornalista e nossos votos de um convívio mais respeitoso com a crítica, no democrático exercício do contraditório que compete ao Parlamento.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.