Citei ontem aqui minha mãe, que me alfabetizou. Hoje
começarei mencionando meu pai. Seu Ronaldo é engenheiro civil e muito bom de
cálculo. Eu sempre adorei matemática e, ainda hoje, gosto muito de fazer
contas. Mas enveredei por outras áreas. Não entendo nada de engenharia. Por
isso não vou aqui dar uma de engenheiro, muito menos “engenheiro de obra pronta”.
Isso posto, acredito que caiba, no mínimo, uma pequena
ponderação sobre o possível grau de acerto da tese de Arnaldinho Borgo (PSDB),
lançada por ele em artigo publicado em A Gazeta em junho de 2025 – até para ser justo com o prefeito de Vila Velha, cujas incoerências posteriores já apontei aqui.
Jamais saberemos se Arnaldinho estava certo. Jamais
poderemos saber se ele teria maiores chances de derrotar Lorenzo Pazolini, se
tivesse sido ele o candidato do Palácio Anchieta, com o apoio de Renato
Casagrande, no lugar de Ricardo Ferraço. Mas, passado o processo eleitoral, com
o resultado final do 2º turno – e, sobretudo, a parcial do 1º turno –, o que
podemos dizer é: Arnaldinho certamente tinha um argumento forte.
O prefeito de Vila Velha esticou a corda até o limite para
convencer Casagrande a escolhê-lo como o representante do seu grupo político na
disputa pelo cargo de governador. Não conseguiu. O então governador manteve-se
firme no plano de passar o bastão para Ricardo e apostar em seu sucessor como
candidato do grupo, conforme anunciou em dezembro do ano passado.
Depois disso, Arnaldinho se perdeu um pouco em movimentos confusos,
mas este não é o ponto. O ponto é que, até ser oficialmente preterido, o
prefeito sustentou a tese de que os capixabas, neste pleito de 2026,
priorizariam a renovação política. Em grande parte, essa tese se provou
correta.
Como ele repetiu por meses a fio, em entrevistas e artigos
publicados aqui em A Gazeta, pesquisas qualitativas mostravam a busca do
eleitor capixaba por uma mudança de ciclo geracional e por um candidato que
combinasse três características pessoais:
. perfil de jovem conservador nos princípios;
. popular nas redes sociais;
. já testado e experiente como gestor público.
Alguém, enfim, como ele. E como Lorenzo Pazolini.
Ricardo obviamente é mais que testado e experiente como
gestor público. Mostrou-se conservador nos princípios. Mas é bem menos jovem e
não era popular nas redes sociais – numa eleição em que estas tiveram peso
especial. E, o que é mais importante, não representava renovação.
No dia 11 de junho, Arnaldinho publicou em A Gazeta o
primeiro de uma série de artigos sobre sua pré-candidatura, com o seguinte
título: “Renovação segura para enfrentar
os desafios dos novos tempos no ES”. Vale registrar que “um novo tempo” foi
precisamente um dos motes centrais da exitosa campanha de Pazolini.
Naquele primeiro texto, o prefeito de Vila Velha informou
que fizera uma pesquisa qualitativa, após ter sido citado pelo próprio
Casagrande, meses antes, como um dos aliados com potencial para se candidatar a
governador do Estado. De acordo com Arnaldinho,
“Os resultados da pesquisa confirmaram os diálogos que já havia
estabelecido: os capixabas desejam um governador que represente uma nova
geração de políticos comprometidos com a gestão pública, que possua capacidade
de diálogo, de liderar e de montar equipes, que seja transparente e que cultive
princípios conservadores. Com humildade, me vi representado por esses
sentimentos expressos no imaginário coletivo da população”.
Acrescentou o prefeito:
“Dessa forma, estamos trabalhando com humildade
e com determinação para oferecer ao eleitor capixaba uma opção segura de
mudança geracional que ele deseja para 2026. Um nome jovem, com experiência,
capaz de unir forças, enfrentar desafios e defender o legado do nosso
governador Casagrande”.
Em outro artigo, publicado em A Gazeta no dia 22 de
dezembro, quatro dias após Casagrande anunciar Ricardo como seu candidato, Arnaldinho
reiterou:
“Nos últimos 24 anos, o
Espírito Santo avançou com estabilidade, responsabilidade e planejamento, sob a
liderança de Paulo Hartung e de Renato Casagrande. Preservar esse legado, aprimorá-lo e projetá-lo para o
futuro é um compromisso com os capixabas – e não com projetos pessoais”.
Escreveu, ainda:
“O que emerge dessas
conversas – nas ruas, nas comunidades e nos diferentes espaços da sociedade – e
também das pesquisas, é um recado claro dos capixabas: há desejo de renovação,
mas sem abrir mão da experiência”.
O título desse artigo: “Renovação com experiência: o caminho que os capixabas apontam”.
“Transição geracional”
adiantada pelos eleitores
Na campanha, o discurso eleitoral de Pazolini pôde ser resumido em uma palavra: mudança.
Ele buscou incorporar a ideia de mudança de ciclo geracional
(tal como apregoava Arnaldinho), após 24 anos de alternância de Casagrande e
Paulo Hartung no poder.
Já o discurso eleitoral de Ricardo, reverberado por
Casagrande, era o de “continuidade com segurança”, sintetizado no bordão
repetido ad nauseam pelo atual
governador: manter o Estado “no mesmo rumo e no mesmo ritmo”.
De certa forma, Ricardo encarnou a promessa de sobrevida,
por mais quatro anos, desse ciclo de prosperidade, estabilidade e previsibilidade
efetivamente vivido pelo Espírito Santo desde 2003. Ele nunca disse isto, é
claro, mas seria um governo de transição, isto é, de “transição geracional”,
para só então, em 2030, completar-se a mudança de ciclo.
Faltou combinar com os eleitores.
O fator ideológico
Uma última ponderação. Não me filio à tese – sustentada, por
exemplo, por Casagrande – de que o impulso da “onda bolsonarista” baste para
explicar a vitória de Pazolini contra Ricardo e, por conseguinte, contra a
máquina pública estadual.
Por evidente, não nego o peso considerável desse fator
ideológico, pelo fato de Pazolini ter sido apoiado pelo PL e por Flávio
Bolsonaro. Sou, porém, da opinião de que isso, por si só, não explica a virada
de Pazolini no 1º turno, nem sua vitória apertada no 2º.
É claro que o “voto bolsonarista” ajudou a impulsionar Pazolini
na linha de chegada do primeiro turno, no qual ele, por muito pouco, não liquidou.
Mas vejam bem: não se pode ignorar o fato de que,
diferentemente de candidatos a governador “com o signo do bolsonarismo” em
outros estados e que dependeram integralmente desse fator (Douglas Ruas no Rio,
entre outros), Pazolini nem sequer fez campanha casada com Flávio no 1º turno.
O presidenciável não esteve no Espírito Santo. E nem sequer foi mostrado no
horário eleitoral do ex-prefeito.
Em entrevistas, Pazolini nem citava espontaneamente Flávio
ou pautas bolsonaristas. Mesmo assim, ele alcançou 49,65% dos votos válidos,
com mais de 1 milhão de votos nominais.
Já no 2º turno, a estratégia mudou radicalmente, e Pazolini
foi atrás dos votos ideológicos do bolsonarismo – por exemplo, em Cachoeiro de
Itapemirim e em outras cidades do interior.
Mas, a meu juízo, essa explicação ainda é insuficiente.
Basta citarmos, por exemplo, que Flávio, na eleição para presidente, teve mais
votos no Espírito Santo (1.294.504) do que teve Pazolini na disputa para
governador (1.151.818). Portanto, quase 150 mil eleitores de Flávio (pelo menos) não
votaram em Pazolini. Faltou convencer mais gente.
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