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Antônio Carlos de Medeiros

Lula tem 100 dias para ancorar as expectativas e recuperar a confiança dos brasileiros

Os fatos já indicam que o mandato Lula 4 poderá ter como alicerce uma Frente Ampla para governar o Brasil

Publicado em 31 de Outubro de 2026 às 05:00

Públicado em 

31 out 2026 às 05:00
Antônio Carlos de Medeiros

Colunista

Antônio Carlos de Medeiros Antônio Carlos de Medeiros

Reeleito, o presidente Lula disse aos brasileiros em seu primeiro discurso de agradecimento pela eleição que vai fazer o melhor mandato de todos no Lula 4 e que vai promover a renovação do seu governo. Governo que foi mal avaliado durante o Lula 3.


Renovação do ministério e do núcleo duro do Palácio do Planalto, disse ele. Com essa fala, procurou ganhar confiança para desfrutar dos tradicionais 100 dias de “carência” dos governos que iniciam. Ele não inicia. Reinicia. Por isso, deixou dúvidas e ceticismo no ar: “Ele vai mesmo entregar?”.


Entretanto, ele fez um princípio de autocrítica e ganhou esperança pelo menos daquela parte do povo brasileiro que o reelegeu com maioria de 4,4 milhões de votos. Vem daí a carência de 100 dias.

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A questão central continua a mesma: é preciso ancorar as expectativas. As econômicas e fiscais e as institucionais. O mercado financeiro continua instável. É urgente estancar a instabilidade.


Por isso, reitero que ele precisa sinalizar outra vez esse caminho já no discurso de diplomação, dia 18 de dezembro. E depois no discurso de posse, dia 5 de janeiro. No meio do caminho, precisa anunciar o novo ministro da Fazenda e o novo ministro da Casa Civil. A economia e a política. 


O mercado político e econômico torce por Rafael Fonteles ou Geraldo Alckmin na Fazenda. Ainda especulando uma terceira opção com Luiz Carlos Trabuco Cappi, ex-presidente e atual presidente do Conselho do Bradesco. Na Casa Civil, o senador Camilo Santana é uma das opções ventiladas.


A renovação do núcleo duro deve incorporar André Janones em eventual Secretaria de Comunicação Digital. 


No segundo turno da campanha, Lula resolveu calçar a sandália da humildade e ouvir as sugestões e críticas da nova equipe do segundo turno. Foi um bom sinal. Faz lembrar de Chico Buarque em 2002\2003, aconselhando Lula a nomear o que ele chamou na época do “ministério do vai dar merda”...


A característica da (improvável) virada histórica de Lula, com o povo indo em massa e espontaneamente para as ruas em defesa do valor maior da democracia, fez ele entender que era/é preciso reconectar-se com a sociedade brasileira. E a opção pelo “Exército de Lula” do Janones também trouxe um ar de renovação e aceitação, por Lula, da importância do poder do mundo digital. Ajudou ele a se aproximar mais do povo. 


O resultado foram mais 10 milhões de votos em relação ao primeiro tudo. Uma virada que era considerada improvável, impulsionada pela sinergia entre o “Exército de Lula” & os jovens que foram para as ruas, com a diminuição de 2% das abstenções. O mundo digital em sinergia com o mundo real.


(Parênteses. Só o Instituto Futura, do Espírito Santo, acertou o resultado final, ou seja, a virada de Lula. Cravou 50,2% para Lula e 49,8% para Flavio na menção espontânea. Portanto, dada a margem de erro de 2%, acertou o resultado final – que foi de 51,79% para Lula e 48,21% para Flávio. Também acertou na menção estimulada, dentro da margem de erro de 2% - cravou 50,1% para Flávio e 49,9% para Lula).

Manifestação de apoio á campanha de Lula!
Manifestação de apoio à campanha de Lula em Vitória no dia 24 de outubro Ricardo Medeiros

Vale registrar que o agora Lula 4 já entendeu que precisa costurar um governo de coabitação com o Congresso Nacional. Começou a cuidar dessa questão institucional imprescindível para a evolução do seu quarto mandato. Começando pelo início antecipado do diálogo com os presidentes da Câmara Federal, Hugo Motta (Republicanos) e Davi Alcolumbre (União Brasil). Serão reeleitos em fevereiro? Não se sabe ainda. Mas as articulações já estão em curso.


Lula começou também a abrir diálogo com o centro do espectro político. Não apenas o núcleo do Centrão. Refiro-me ao centro ampliado: centro-direita, centro e centro-esquerda. Nesse contexto, oRepublicanos deverá conquistar mais protagonismo num governo de coabitação. 


Cresceu no Sudeste, elegendo os governadores de Minas Gerais, de São Paulo e do Espírito Santo, além de Mato Grosso. Fez também bancadas medianas na Câmara e no Senado. Com perfil conservador e equilíbrio político de moderação. 


No âmbito dessa costura política de busca da governabilidade, a coabitação também vai depender muito do protagonismo do novo Senado da República e dos governadores. Refiro-me à necessidade de fortalecer o papel do federalismo como pilar da governabilidade. O Senado é a casa dos estados. E os governadores evoluíram recentemente em processo de descentralização de poder no país.


Tudo somado, os fatos já indicam que o mandato Lula 4 poderá ter como alicerce uma Frente Ampla para governar o Brasil. Se não tiver esse alicerce, o Lula 4 poderá perder precocemente legitimidade e capacidade convocatória para liderar o pais em coabitação com o Congresso. Aí, pode ser o caos da ingovernabilidade.


Por isso, é uma premissa incontornável a busca pela ancoragem das expectativas dentro do horizonte dos 100 dias de carência.


Antônio Carlos de Medeiros

Antônio Carlos de Medeiros Antônio Carlos de Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços nessas áreas

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