Sou apaixonado por literatura. Sempre fui, desde que percorri
o bê-a-bá. Duas vezes por semana, leio para (e com) minha filhinha antes de
dormir. Minha mãe fazia o mesmo comigo. Meus irmãos e eu fomos alfabetizados
por ela, em um pequeno quadro-negro, na área de serviço de casa. Os livros que
minha mãe lia (ou inventava) para mim ficaram maiores. A leitura me acompanha
até hoje e faz parte da minha existência.
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Guimarães Rosa e Machado de Assis não contam. Estão em “ôto
patamá”, na prateleira dos gênios da literatura universal. Fora eles, tenho um
escritor preferido na literatura brasileira. Chama-se Graciliano Ramos (1892-1953),
o brilhante autor de Vidas Secas,
expoente da segunda geração do movimento modernista.
Li algumas vezes Vidas
Secas. Personagens como Fabiano, Sinhá Vitória e a cadela Baleia me
acompanharão por toda a vida. Li mais de uma vez São Bernardo. Em deleite, li o genial Angústia. Li quase tudo de Graciliano. Mas nunca, “nunca antes na
história da minha vida”, havia lido esta obra-prima intitulada Memórias do cárcere. E aqui cabe uma
breve explicação.
A seu tempo, esse filho da rural Alagoas foi um relutante “comunista”...
Isso no auge da revolução bolchevique na União Soviética (1917) – quando fazia
sentido ser, defender ou combater o comunismo real (sepultado na História com a
queda do Muro de Berlim, em 1989).
Mas, para dizer a verdade, até a implantação do Estado Novo,
Ramos era tão somente um simpatizante
da causa. Nunca se envolvera pessoalmente. Nunca realmente “militara”. Nem era
filiado ao PCB. Jamais cogitara tomar parte de qualquer “plano revolucionário”.
Em 1936, já tendo publicado seus dois primeiros romances (Caetés e S. Bernardo), nosso autor ocupava função destacada na burocracia da
província: era diretor de Instrução Pública de Alagoas, cargo equivalente ao de
secretário estadual de Educação. Mas, na provinciana Alagoas, sabia-se de sua simpatia pela “causa comunista”. That’s all.
Foi o bastante para que a nascente ditadura de Getúlio
Vargas (o Estado Novo), empurrada pelos ventos integralistas (e inspirada pelo
nazifascismo ascendente na Europa), concluísse que ele era um “perigo para a
sociedade brasileira” e decidisse retirá-lo do convívio social.
Por um ano, entre 1936 e 1937, o gênio Graciliano Ramos
passou de prisão em prisão, ao arbítrio do Estado, culminando com sua “estadia”
no presídio político da Ilha Grande, na Costa Verde do Rio de Janeiro – hoje,
um paraíso turístico. Para ele e os outros presos, 90 anos atrás, um inferno.
Não foi deliberado. Não foi intencional. Durante todo o período
eleitoral este ano, meu livro de cabeceira foi... Memórias do cárcere. Quase toda noite, um capítulo.
Ontem, leitores, por acaso, cheguei ao Capítulo XXVIII (28)
da primeira parte do testemunho de Graciliano. Foi pura coincidência, mas... Eureka!
Acredito de verdade que essas linhas de Graciliano Ramos explicam
(obviamente, sem querer) por que o povo brasileiro, em sua grande e
incontestável maioria, decidiu reeleger Luiz Inácio Lula da Silva
(“comunista”!!!) no último domingo (25).
Memórias do cárcere
é um livro de testemunho. Não é “baseado em fatos reais”. São os próprios
“fatos reais”, filtrados pela ótica do autor.
No capítulo em questão, Graciliano está sendo levado, no
porão de um navio, de Recife para o Rio de Janeiro, com outras centenas de presos políticos. Ele não sabe para onde
estão indo. Não há processo legal. Não há sequer acusação. Muito menos “culpa
formada”.
As condições a bordo são inóspitas.
No porão do navio, sobre rios pútridos de fezes e urina, os
“comunistas” se penduram e se amontoam em redes de dormir. No porão, dormir é
difícil.
Eis que, em plena madrugada, uma música começa a soar. No
começo com cautela e timidez, um dos presos começa a cantarolar e a tamborilar
um samba. Isso mesmo: um samba! Naquele cenário degradante,
aviltante, desmoralizante... simplesmente, arriscar um samba!
Aos poucos, perdendo o embaraço, apesar da humilhação e da
exaustão, outros presos começam a acompanhá-lo. E de repente, não mais que de
repente, a fagulha de vida se espalha. O “som queixoso”, de lamento, ganha
forma e volume!
Em um átimo, todos os presos, até o erudito Graciliano, se põem a acompanhar a cantoria, formando um coro improvisado de “trastes humanos”. E mais: até os “passageiros de primeira classe”, perfeitamente “respeitáveis”, com a dignidade preservada, acorrem lá do convés!
Atraídos pela força do canto-desabafo,
de indignação e resistência, aproximam-se do parapeito para ouvir, assistir e aplaudir
o espetáculo de rebeldia dos segregados.
Tentei resumir aqui. A ideia geral é essa. Espero que você,
meu leitor ou leitora, tenha compreendido.
Deixo-os(as) com o texto completo do gênio Graciliano Ramos,
em primeira pessoa: Memórias do Cárcere,
Capítulo XXVIII:
TINHA-ME recolhido ao
anoitecer. E olhava lá de cima o balanço vagaroso das redes, ouvia o burburinho
confuso da multidão vaga. Pensava em muitas coisas indefinidas ou não pensava.
Queria segurar-me a casos pessoais, remotos e inconsistentes: diandras, tolice
pensar neles. Partiam-se a cada instante, deixavam-me diante dos olhos a
realidade chinfrim: homens exaustos, uns tentando erguer-se, outros sonolentos
e febris.
Algumas dúzias de
criaturas vivas agitavam-se, falavam, davam-me a impressão de passear num
cemitério. Eram as que me interessavam. As trouxas humanas abatidas pelos
cantos, a arquejar, nada significavam. [...] O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam?
Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere
em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade
representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes,
inofensivos e desocupados, farrapos vivos, velhos prematuros; desejaríamos
enlouquecer, recolher-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao
pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas ideias, repetidas, vexavam-me; tanto
me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido. Afligia-me especialmente supor que não me seria possível nunca mais trabalhar; arrastando-me em
ociosidade obrigatória, dependeria dos outros, indigno e servil. Naquela noite
devo ter remoído essas coisas, a agitar-me levemente, as varandas servindo-me
de cobertas.
Do lugar em que me
achava distinguia-se metade do alojamento; o sorriso e a barriguinha de Macedo,
os óculos de Lauro Lago, as listas do pijama vistoso de Sebastião Hora e o
acaçapamento do negro Doutor, estavam invisíveis. Não me seria possível ouvir a
flauta de seu Lobato. De repente me feriu um som lento e queixoso, semelhante a
um longo gemido. Curvei-me, observei os arredores. Estaria alguém a morrer?
Ausência de anormalidade; figuras esquivas pelos cantos, bagagens, sombras,
vultos caídos, o ramerrão de todos os dias; apenas o lago do centro, esgotado e
varrido pela manhã, ainda não se refizera. O lamento chegou-me de novo, mais
próximo, arrastado e nasal. Que seria? A voz dorida saía da treva e
arrepiava-me a carne. Tentei discernir alguma palavra, inutilmente; só aquilo,
o extenso brado lastimoso a avizinhar-se. Esboçaram-se pouco a pouco as modulações
de um canto, na verdade bem estranho. Quem se abalançaria a executá-lo em
semelhante lugar? Apurei os olhos e os ouvidos, percebi lá embaixo Paulo Pinto
a iniciar um samba. Estava de pé e gesticulava, fingindo mover um ganzá
inexistente; aproximava-se devagar, curvava-se, passava sob os punhos das
redes. A princípio aquilo se engrolava num resmungo confuso; prudência e receio
com certeza: não fossem passageiros e soldados achar que o porão se
desarranjava e descomedia. As precauções desapareceram, as notas elevaram-se,
ainda vacilantes, ganharam nitidez, o queixume pareceu transformar-se em dura
exigência. Por mais que tentasse, não me era possível distinguir a letra da
composição, e isto a valorizava. Sem dúvida versos insignificantes e errados.
Não os discriminando, apenas me interessava pelo clamor que subia da escuridão.
Algumas vozes se uniam à do sambista, formava-se um áspero conjunto, e a
torrente sonora engrossava, transbordava, novos afluentes vinham juntar-se a
ela, mudar-lhe o curso. Nada se combinara. Um murmúrio plangente, em seguida o
rumor de cólera surda, e logo as adesões imprevistas, corpos a levantar-se nas
redes, figuras aniquiladas a surgir da noite, espectros ganhando carne e
sangue, pisando o solo com firmeza. Tinham estado em perfeita indiferença, numa
resignação covarde e apática; a disciplina dos encarcerados, implícita e fria,
ordenara as conversas zumbidas, o gesto vago, o passo discreto, respeito a
autoridades invisíveis, general atrabiliário ou soldado preto boçal. Em minutos
isso desaparecera. As espinhas curvas
aprumavam-se; as expectorações e a tosse haviam cessado: os pulmões opressos
lançavam gritos roucos, a animar a toada monótona do coro. Já não eram
contribuições esparsas: dezenas de trastes humanos se erguiam, marchavam, os
braços para cima, florestas de membros nus, magros e sujos, e o canto ressoava
como profunda ameaça.
Ergui-me, sentei-me na
rede. Um frêmito nos sacudia; agitavam-se todos em redor do grupo, cada vez
mais numeroso; curvando-me um pouco, via-o perto, a alguns passos, e ainda se
avizinhava, numa decisão imprevista. Perguntava a mim mesmo as consequências da
rebeldia. A polícia iria descer e restabelecer a ordem, sem dúvida; o preto
volumoso encostaria a pistola ao débil arcabouço de Paulo Pinto; algum indivíduo
resistente aguentaria safanões e logo se acomodaria. Dormiríamos em paz, como
bichos. Evidentemente aqueles homens não pensavam nisso: a música os enfurecia
e cegava; com certeza haviam esquecido o perigo e o lugar onde vivíamos.
Súbito percebi movimento
desusado no exterior. Desviei do bando ruidoso a atenção e fixei-a na coberta.
Várias pessoas ali se achavam, curvadas sobre o parapeito que limitava a
abertura; passageiros de primeira classe investigavam a nossa furna, curiosos;
provavelmente iam reclamar contra o barulho, que chegara ao salão e os
aborrecia. Agora Paulo Pinto e os companheiros estavam parados, exatamente por
baixo da escotilha. Assistíamos a uma singular representação, arranjada sem
ensaios, de improviso. A plateia comprimia-se num círculo, entusiasmava-se; lá
no alto um público superior afluía àquela espécie de camarote que semelhava a
boca de um poço. Aguardei os protestos algum tempo, em vão. Novas figuras
surgiam na tolda, vivo interesse nas fisionomias: começavam certamente a
contagiar-se. Os soldados da escolta vieram engrossar o número de espectadores
– e nenhum se lembrou de conter a manifestação prejudicial: o negro da pistola
não incomodaria Paulo Pinto. As vozes se espalhavam e cresciam, expunham raiva
e desespero, as mãos se levantavam, os dedos se moviam, tinham jeito de garras,
queriam despedaçar, rasgar, quebrar. Em resposta, difundiam-se lá em cima
sorrisos de aprovação. Aquilo era absurdo, incoerente. Como vinham pessoas
medianas, razoáveis, tranquilas, animar semelhante desconchavo? Tinham admitido
a segregação, ninguém a considerava injusta: havia qualquer motivo para
estarmos ali como bichos em toca. Pela manhã formáramos um rolo confuso, entre
caixas, malotes, engradados; não nos podíamos afastar; espreitavam-nos e não se
avizinhavam, temiam inficionar-se com a lepra moral que nos consumia.
De repente soaram palmas. Que se havia passado? Hesitava em persuadir-me, desconfiava dos ouvidos e dos olhos: os indivíduos suspeitosos e hostis vinham aplaudir a violência e o ódio que ferviam no porão. E o tumulto se desenrolava, sob uma chuva quente de louvores. Um sussurro a princípio, lamento quase inaudível, mudara-se em vociferação exaltada. No dia seguinte deslizaríamos, taciturnos e oblíquos, falaríamos baixo, alarmar-nos-íamos com o estouvamento infantil de Ramiro; naquela noite, porém, largávamos as cautelas, desabafávamos, livres de receios. A arte de Paulo Pinto nos dava força às almas tristes, aos corpos fatigados. E comovia espíritos indiferentes, arrancava deles a aclamação que estrugia por cima das nossas cabeças.
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