“A quem, é o que
pergunto, quem se interessaria hoje por tão mesquinhos meandros de um tempo
distante, e a resposta que meu pai repete é uma absurda mescla de devaneio e
lucidez: as ditaduras podem voltar, você deveria saber”.
> Clique aqui e receba em primeira mão a Coluna Vitor Vogas pelo Whatsapp
Tal é o
ensinamento do pai para o filho, Sebastián, narrador do romance A
resistência, de Julián Fuks, vencedor do prêmio Jabuti em 2016 [1].
E então esse filho que se narra compartilha suas reflexões conosco: “As
ditaduras podem voltar, eu sei, e sei que seus arbítrios, suas opressões, seus
sofrimentos, existem das mais diversas maneiras, nos mais diversos regimes,
mesmo quando uma horda de cidadãos marcha às urnas bienalmente”.
Há muito mais
“lucidez” que “devaneio” na lição desse sábio pai, psiquiatra exilado da
ditadura civil-militar argentina (1976-1983) no romance de Fuks, e também nas
reflexões do filho. Provam-no os últimos 11 anos, passados desde 2015, ano da
publicação da obra e do princípio da queda da então presidente Dilma Rousseff.
Emblemático
título da narrativa de autoficção de Fuks, resistência é justamente um dos
papéis cumpridos, de maneira inigualável, pela arte – a literatura, o cinema e
suas mais diversas formas. Resistência, por exemplo, à violência em suas
múltiplas dimensões: física, sexual, psicológica, política, econômica,
simbólica. A pior de todas é aquela praticada pelo próprio Estado contra seus
cidadãos, uma das principais características de regimes totalitários, em
qualquer época e em qualquer lugar. Isso inclui a nossa própria ditadura
civil-militar (1964-1985).
No dia 10 de novembro de 2024, declarou o escritor Marcelo Rubens Paiva, em entrevista ao site Metrópoles, sobre seu livro de testemunho Ainda estou aqui, também lançado em 2015 [2]: “A literatura é o testemunho dos vencidos, e nós somos os vencidos de 1970”.
O autor dessa narrativa testemunhal, que originou o
filme homônimo de Walter Salles Jr., dialoga, intencionalmente ou não, com o
pensamento de Walter Benjamin (1892-1940), crítico literário e filósofo da
Escola de Frankfurt.
Em suas teses Sobre o conceito de história [3], um dos documentos filosóficos mais importantes do século XX, Benjamin argumenta que o passado só pode ser compreendido em momentos de perigo (e quem duvida de que estejamos diante de um momento assim, no mundo inteiro, anda meio distraído, vide a Ucrânia, vide a guerra no Irã, vive o que foi feito de Gaza, vide o new big stick de Trump sobre a América Latina, querendo voltar a fazê-la backyard dos Estados Unidos – o Brasil incluído).
Benjamin defende
que os historiadores devem se identificar com os vencidos e não com os
vencedores. Advoga que a história deve ser reinterpretada e recontada sob o
ponto de vista não dos opressores, mas dos oprimidos – donde sua revolucionária
concepção de História.
Vale a pena citar aqui, muito sinteticamente, excertos de algumas teses capitais desse pensador radicalmente antifascista a seu tempo.
As teses de Benjamin, notem bem, foram
escritas na “meia-noite do século XX” (como diria Victor Serge), no início de
1940, pouco antes de o autor, alemão e judeu, cometer suicídio em sua malsinada
fuga da França ocupada por tropas nazistas [4] (ao ser interceptado
pela polícia franquista na fronteira com a Espanha) e meses antes de o Terceiro
Reich pôr em marcha a Solução Final: o genocídio de judeus e ciganos nos campos
de concentração e extermínio, verdadeiras “fábricas da morte”, como escreveu
Primo Levi (1919-1987).
Para Benjamin,
como lemos na oitava tese, “a tradição dos oprimidos nos ensina que a regra é o
‘estado de exceção’, no qual estamos vivendo” (isto é, no qual se vivia na
Alemanha nazista e na Europa nos anos 1930, em plena expansão do Terceiro
Reich). A regra, acrescento, segue valendo.
Já na sexta tese,
Benjamin nos adverte que “nem os mortos estarão em segurança se o inimigo
vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. Por isso, alerta-nos o
pensador alemão, a luta deve ser incessante; a resistência deve ser tão perene
quanto o é a ameaça de incêndio.
Para além da
marcha triunfante dos dominadores na História, impossível não relacionarmos o
fragmento com a história dos desaparecidos políticos nas ditaduras
civil-militares da América do Sul entre os anos 1960 e os 1980; ditaduras que
matavam suas vítimas e matavam a morte de suas vítimas, vitimando duplamente
tanto os homens e mulheres assassinados como os entes queridos que ficavam, por
privá-los do direito ao luto e por falsear ou simplesmente apagar a história
desses mortos.
Em Walter
Benjamin: aviso de incêndio [5], o professor Michael Löwy, um dos
mais lúcidos leitores de Benjamin, interpreta assim o excerto: “O historiador
revolucionário sabe que a vitória do inimigo atual ameaça até os mortos […]
pela falsificação ou pelo esquecimento dos seus combates. […] Do ponto de vista
dos oprimidos, o passado não é uma acumulação gradual de conquistas, como na
historiografia ‘progressista’, mas sobretudo uma série interminável de derrotas
catastróficas”.
Por fim, quero citar a incontornável alegoria da nona tese, na qual Benjamin descreve o seu Anjo da História:
Sua face se volta para o passado. Lá onde nós vemos surgir uma sequência de eventos, ele vê uma catástrofe única, que incessantemente empilha escombros sobre escombros e os lança a seus pés”.
Walter Benjamin, em "Teses sobre o conceito da história" (1940)
O anjo benjaminiano é impelido para o futuro pela “tempestade do
progresso”, por mais que quisesse “se demorar, despertar os mortos e reunir de
novo o que foi esmagado”. A história da humanidade, em síntese, é a história da
barbárie humana.
Para
Löwy, “[…] em um certo sentido, toda a obra de Benjamin pode ser considerada
como uma espécie de ‘aviso de incêndio’ dirigido a seus contemporâneos, um sino
que repica e busca chamar a atenção sobre os perigos iminentes que os ameaçam,
sobre as novas catástrofes que se perfilam no horizonte”. Esse aviso, vale
dizer, foi dado pouco antes de Auschwitz e de Hiroshima, como a dizer a seus
contemporâneos: “Atenção, isso pode acontecer”.
O
alerta de Benjamin se confirmou imediatamente, em proporções catastróficas até
então inimagináveis, nos meses seguintes à sua morte.
Na
literatura, uma das primeiras “confirmações” do estado de barbárie a que a
humanidade conseguiu chegar veio da obra seminal de Primo Levi, É isto um homem? (Se questo è un uomo) [6], narrativa
testemunhal desse “sobrevivente fortuito” do Holocausto, iniciada – ao menos na
concepção – em 1944, quando ele ainda estava em Auschwitz, escrita em 1946 e
lançada em 1947, pouco tempo após ele ser libertado e repatriado a Turim, sua
cidade natal, no noroeste da Itália, tamanha era a urgência que tinha em levar
ao mundo o relato (la mala novella) do que o homem fora capaz de fazer contra o homem.
Nas
décadas seguintes, É isto um homem? converteu-se em um clássico da
literatura de testemunho em geral e, em particular, do extermínio dos judeus
pelos nazistas, em escala e com rigor industrial – tanto pela pungência do
relato, ao mesmo tempo belamente escrito, como pela profundidade das reflexões
lançadas pelo autor. Levi foi outro “profeta”. Eis as palavras premonitórias
desse grande escritor piemontês, gravadas já no prefácio/presságio da edição alemã de É isto um homem?:
“Muitos, pessoas ou povos, podem chegar a pensar, conscientemente ou não, que ‘cada estrangeiro é um inimigo’.
Em geral, essa convicção jaz no fundo das almas como uma infecção latente;
manifesta-se apenas em ações esporádicas e não coordenadas; não fica na origem
de um sistema de pensamento. Quando isso acontece, porém,
quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então,
como último elo da corrente, está o Campo de Extermínio. Este é o produto de
uma concepção de mundo levada às suas últimas consequências com uma lógica
rigorosa.”
E conclui:
Enquanto a concepção subsistir, suas consequências nos ameaçam. A
história dos campos de extermínio deveria ser compreendida por todos como
sinistro sinal de perigo.
Primo Levi, em "É isto um homem?" (1947)
Os grifos são meus. Levi alerta para a premissa de que “cada
estrangeiro é um inimigo”. Poderíamos trocar “estrangeiro” por “cada adversário
político”; por “cada divergente”; por “cada minoria”.
Em
seu “aviso de incêndio” (Löwy), às vésperas de Auschwitz e sem poder saber de
sua iminência, Benjamin estava como a advertir: “Atenção, isso pode acontecer”.
Levi, em 1947, tendo passado por Auschwitz e sobrevivido ao campo de
extermínio, estava como a alertar: “Atenção, isso pôde acontecer. E,
ora, se pôde acontecer nessa Europa tão civilizada, pode perfeitamente se
repetir a qualquer tempo e em qualquer parte do mundo”.
Levi
sofreu e levou Auschwitz na pele (a tatuagem no antebraço com seu número de
entrada no Lager) até ele mesmo cometer suicídio, 47 anos depois
de Benjamin. Os respectivos textos se separam pelos sete anos que compreendem,
justamente, Auschwitz, o auge da Segunda Grande Guerra, o ápice da barbárie.
Mas
a “catástrofe única” segue empilhando escombros sobre escombros e lançando-os
aos pés do Anjo da História. Tivemos aqui o AI-5. Tivemos centenas de mortos e
desaparecidos; milhares de torturados, todos pelo Estado brasileiro.
A
regra é o estado de exceção. Auschwitz e Hiroshima são os maiores símbolos da
barbárie no século das catástrofes, mas poderíamos perguntar: o que foi, senão
nova expressão da barbárie, a gestão da pandemia do novo coronavírus no Brasil
e nossos mais de 700 mil mortos, a partir da criminosa combinação de
indolência, irresponsabilidade e negacionismo por parte do governo central? O
aviso segue atual. O incêndio segue queimando.
É
preciso colocar em tela – literalmente – o recrudescimento do autoritarismo de
extrema-direita no Brasil atual (o que se convencionou denominar
“bolsonarismo”, por encontrar no ex-presidente sua mais bem-acabada expressão).
Impera
refletir sobre a revitalização de um “sistema de pensamento” fundado na
barbárie, que ganhou eco nas ditaduras do Cone Sul nos anos 1970 e que, em
algumas de suas facetas, filia-se àquela concepção de mundo à qual Benjamin se
opôs intelectualmente e de cuja mais perversa expressão prática o filósofo em
vão tentou escapar. É preciso dar o devido realce à revitalização do culto à morte
pelo Estado, sintetizada pela ode ao torturador Carlos Brilhante Ustra.
Estão
aí, para quem quiser ver, as conexões ideológicas entre regimes ou movimentos
políticos de extrema-direita em diferentes momentos da História, cujo sistema
de pensamento parte de uma mesma matriz: o autoproclamado e autolegitimado
direito de aniquilar o outro, alicerçado no que Levi definiu como a “doutrina
do desprezo”, bem como uma manifesta ojeriza à democracia.
Impõe-se
examinar a renovação da extrema-direita em nosso país e os efeitos desse
fenômeno político, pois tal mentalidade, ou “sistema de pensamento”, ainda está
aqui… e não pretende ir embora.
O deputado cassado Rubens Paiva, cujo corpo jamais foi encontrado, ainda está aqui e se faz presente, contra toda a política de desmemória praticada com afinco até hoje pelos que se empenham em matar duas vezes as vítimas da ditadura. Resistem ao que o jornalista e escritor Bernardo Kucinski, em K: relato de uma busca [7], definiu como o “mal de Alzheimer nacional” e aos que cultivam tal “enfermidade” no imaginário coletivo brasileiro.
Mas
assim também estão os que mataram Rubens Paiva. Vivem e se fazem presentes por
intermédio dos que os glorificam, dos que aplaudem os seus crimes ou, pior,
juntam suas palmas à guisa de limpá-las após terem terminado o serviço, em
gesto de “missão cumprida”.
Essa concepção de mundo perpetua-se no transcurso da História e, nos solavancos dados por ela, está sempre ali, à espreita, de prontidão para atacar de novo. Como escreveu o poeta e pesquisador Alberto Pucheu em sua coletânea de poemas de presos políticos brasileiros, escritos nos anos 1970 [8], “um espectro ronda o Brasil”.
Sempre pronto a pregar novos sustos, esse fantasma é o do
autoritarismo, escondido nas esquinas da História. Sim, tal “sistema de
pensamento” ainda está aqui… no Brasil e no mundo inteiro, a nos assombrar. É
preciso estar atento e vigilante.
Ainda estão
aqui
No dia 7 de
novembro de 2024, entrou em cartaz comercialmente no Brasil o filme “Ainda
estou aqui”, contando a história de Maria Lucrécia Eunice Facciola Paiva. Desde
então, plateias do país e do mundo choraram não com Eunice, mas por
Eunice, no lugar da personagem, marcada pela intransigente resistência à
própria dor, por uma autocontenção imperiosa ditada pela necessidade de se
fazer forte.
Em boa hora,
enfatizando o papel da arte como forma de resistência, a adaptação do
testemunho de Marcelo Rubens Paiva nos lembra (ou ensina aos incautos):
“Atenção: isso pôde acontecer”.
Em catarse
coletiva nacional, salas lotadas prantearam por aquela mulher que virou ícone
da luta pela verdade, com férrea obstinação e inabalável dignidade. Uma mulher
que, em poético paradoxo, termina seus dias com Alzheimer e a memória pessoal
comprometida, logo ela cuja vida se confunde com o inarredável compromisso na
luta contra o “mal de Alzheimer nacional”, pela preservação de uma memória
coletiva tão vilipendiada [9].
Uma Lucrécia que,
ante a dupla morte do marido, não se matou como a da Roma Antiga; optou, antes,
por lutar pela vida e celebrá-la. Uma Maria e uma Clarice Eunice que
prefere não chorar no solo de um Brasil no qual não pôde enterrar o marido. Uma
vítima cuja dor, tão contida, jamais explode na tela.
Seis dias depois,
vejam só, movido por incontido fanatismo, um homem-bomba achou que seria uma
boa ideia explodir o Supremo Tribunal Federal (STF). E literalmente explodiu a
si mesmo, em nossas telas de TV e celular. Era seguidor do ex-presidente que
exalta a tortura e homenageia torturadores.
Poucos dias
depois, vieram a conhecimento público os planos de golpe de Estado concebidos
entre a vitória eleitoral de Lula em 2022 e sua posse, incluindo o projeto de assassinato
do presidente eleito por agentes militares intitulados “Kids Pretos” – trama
que envolveu até o candidato a vice-presidente de Bolsonaro, o terceiro Walter
desta história e aquele do outro lado da História: general Walter Braga Netto.
A minuta do plano de assassinato foi impressa no Palácio do Planalto. Também se concebeu a morte do então vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, e a do então presidente do TSE, Alexandre de Moraes. E essa foi só uma partícula da trama.
No dia 21 de novembro de 2024, Bolsonaro, Braga Netto
e mais 35 pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal pelos crimes de golpe
de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização
criminosa. Condenado no STF por esses crimes, o ex-presidente está preso desde
novembro de 2025.
A criminosa
articulação decorre da obstinação de Bolsonaro em subverter o sistema eleitoral
e não acatar os resultados das urnas, princípio basilar de toda democracia, a
exemplo do que fizera Donald Trump quando incitou seus adeptos mais fanatizados
a invadir o Capitólio, em janeiro de 2021.
Aliás, parece-me ainda mais emblemático que Trump tenha sido eleito para voltar à Casa Branca dois dias antes de “Ainda estou aqui” entrar em circuito comercial no Brasil. Eis a maior personificação dessa concepção de mundo em nossos tempos, com sua xenofobia visceral e seu ódio escancarado ao “estrangeiro” (lembremos Levi), ao outro, ao adversário político, ao que difere de sua própria visão de mundo.
Qualquer
semelhança com Bolsonaro não é coincidência: “Vamos fuzilar a petralhada do
Acre!”; “Ou as minorias se adéquam ou desaparecem!”
Idolatrado pelos
Bolsonaro – agora “asilados” por ele –, Trump simboliza, ainda, a corrosão da
democracia, tanto lá como cá e no mundo ocidental em geral. Independentemente
de cor ideológica, ditaduras têm balizas em comum: a cassação de direitos
humanos e a paulatina privação de liberdades fundamentais do indivíduo, o
arbítrio e a violência de Estado contra os próprios cidadãos: “Eles podem
acabar com uma cidade. Deixe-os acabar com Los Angeles. Deixe-os acabar com San
Diego”, disse Trump num comício, no último dia 6, dois dias após a vitória
parcial de Flávio Bolsonaro no primeiro turno no Brasil.
Contemporaneamente, um fenômeno global está em curso, ameaçando a democracia aqui e alhures: líderes populistas, sobretudo de extrema-direita, chegando ao poder por meio do regime democrático para, uma vez ali instalados, destruírem por dentro os mesmos mecanismos democráticos que lhes permitiram ali chegar.
Em grande medida, Bolsonaro o ensaiou aqui. Trump o
tem praticado em larga escala. Tem testado e esgarçado ao limite o tecido
institucional de seu país. Ninguém pôs tão em xeque a democracia numa nação que
tanto se orgulha dela. E, a despeito disso (ou talvez justamente por isso), conseguiu
voltar à Casa Branca após ter sido rejeitado pelo povo estadunidense. Voltou mais
forte e mais “onipotente” que nunca, graças a esse sistema democrático que ele
mesmo tanto achincalhou.
Emblemática,
ainda, a reação de alguns partidários da extrema-direita brasileira com a “volta
por cima” de Trump, antevendo possíveis reflexos do fato no quintal político
nacional. Infelizmente, não estavam errados: a partir da aliança da família
Bolsonaro com o neofascista reinstalado no Salão Oval, passamos a amargar
tarifaço atrás de tarifaço e contínuas tentativas de ingerência nos assuntos
políticos e jurídicos domésticos. Agora, na contramão do mundo, Trump, Rubio e
seu governo se negam a reconhecer a vitória democrática de Lula e a vontade
expressada pelo povo brasileiro no último domingo (25).
Entreguistas e
subservientes, esses aduladores de Trump são os mesmos que, sob uma pretensa
“defesa da liberdade” e da “verdadeira democracia”, clamam pela volta de um
regime cuja primeira vítima é sempre ela, Sua Excelência, a liberdade.
Bolsonaro sempre o defendeu de maneira desbragada, sem o mínimo pudor, com o
máximo ardor. Escancarou, assim, o paradoxo. É a face, em nosso país, desse
sistema de pensamento que, de novo, sempre esteve aí, subjacente em nossa
sociedade, esperando mais uma curva da História para dar um novo bote.
Sobre o AI-5, diz
Marcelo Rubens Paiva em Ainda estou aqui: “É uma obra-prima da
contradição. Usa a ameaça à democracia como argumento para endurecer o regime,
uma aberração jurídica, incongruência em que todo regime autoritário se baseia
(para defender a liberdade, precisamos acabar com ela)”. Poderíamos
acrescentar: “a pretexto de ‘defender a democracia’, precisamos destruí-la por
dentro”. Lembremos o que disse Flávio, em plena campanha, sobre “resgatar a
democracia”, “redemocratizar o Brasil” e “mudar a Constituição”.
Esse paradoxo sempre me perturbou, como cidadão e jornalista. Diversas vezes,
em meu exercício profissional, dentro das minhas limitadas possibilidades,
tratei de expor a falácia, ao observar o recrudescimento desse populismo de
extrema-direita no país e a ascensão de movimentos a reivindicar, por exemplo,
uma “intervenção militar” pretensamente “constitucional”, eufemismo para um golpe
de Estado que, nessa mistura de cinismo, delírio e engodo, encontraria guarida
na própria Constituição Cidadã de 1988, como se a lei maior em que se funda
nosso regime democrático abrigasse em seu texto dispositivo gerador de sua
autodestruição.
O fenômeno, é
óbvio, desaguou no 8 de janeiro de 2023, resultado de A + B: ideólogos e
líderes políticos insuflando seguidores nesse sentido, e muita gente
predisposta a, literalmente, atentar contra a democracia e suas instituições,
crendo sinceramente estarem a “lutar por uma liberdade” que a democracia,
sublinhe-se o paradoxo, ter-lhes-ia sequestrado.
Agora, na segunda
parte da Era Trump (crendo-se mais poderoso que nunca e, mais do que nunca,
aqui), essas mesmas pessoas se sentem ainda mais empoderadas e desembaraçadas
para defender o que defendem. É a legitimação, pela via democrática, do
autoritarismo que mina as bases dessa mesma democracia e que pode, no limite,
causar a morte do regime legado a nós pelos gregos. Corrijo-me: seu suicídio.
Circularmente,
concluo, parafraseando o personagem de Fuks em A resistência, o pai
argentino fugido da barbárie em seu país: as ditaduras podem voltar… nós
deveríamos saber.
Podem voltar sob
várias formas, inclusive, eventualmente, por vontade de “uma horda de cidadãos
[que] marcha às urnas bienalmente”. Exatamente como marcharam os cidadãos
brasileiros, no último domingo (25) de eleições.
O histórico 25 de outubro
Impulsionado pelo susto tomado no dia 4 e pelo medo de regresso a um recente passado que ainda ecoa doloroso na memória coletiva nacional, o povo brasileiro compreendeu que o Anjo da História o colocara diante de uma encruzilhada; um teste existencial; “prova de vida” para toda a nação.
Não era uma disputa somente de projetos de partido,
de poder ou de país. Era, antes de tudo, uma escolha civilizatória. Uma decisão
a tomar entre projetos de civilização. Poucas vezes tanto esteve em jogo em uma mesma eleição.
O povo brasileiro
entendeu que de repente lhe cabia cumprir uma tarefa cívica, com profundas
repercussões históricas, para o futuro do Brasil e, sem exagero, do mundo contemporâneo:
erguer um muro de contenção contra o avanço do fantasma da extrema-direita no
país e no planeta; dizer um grande “não, não mais, não a queremos aqui nunca
mais”.
Renovando a esperança
da (e na) humanidade, o povo brasileiro assumiu o cumprimento da missão. E o
fez de maneira grandiosa. Sem fugir à luta, deu a resposta, num grito altivo e
altissonante, primeiro nas redes, depois nas ruas e, finalmente, nas urnas.
People have spoken. So have Brazilian
streets.
E a mensagem é
uma só, iniludível: o povo brasileiro não admite ceder um palmo em conquistas
políticas, sociais e civilizatórias. Nem um centímetro a menos.
O Brasil já não
aceita voltar a ser governado por falsos messias com DNA político autoritário.
Aliás, bastou a casa cair e o resultado não vir como o esperado no QG da
extrema-direita para a máscara também cair e a verdadeira índole golpista
tornar a se explicitar, emergindo das camadas de marketing que tão bem a
camuflaram por dois meses, na primeira coletiva de imprensa do candidato derrotado
– o mesmo que, dias antes, em rede nacional, jurara respeitar o resultado das
urnas e a soberana vontade popular, qualquer que fosse ela. Se é que alguém
acreditou...
Sim, a vitória no
domingo foi, do ponto de vista pessoal, um monumental triunfo para o atual
presidente da República. Após ter protagonizado, epicamente, a inédita virada
eleitoral, Luiz Inácio Lula da Silva entra em definitivo para a galeria dos
grandes líderes políticos da história deste país. Cristaliza-se como o maior
líder popular desde a redemocratização e como a maior referência política da
América Latina – o único brasileiro eleito quatro vezes diretamente pelas
urnas, por soberana vontade do seu povo.
Quis o Anjo da
História que sua última dança nas urnas com o eleitorado brasileiro fosse
justamente a mais difícil e também a mais decisiva. Vital também tende a ser o
papel global a ser desempenhado por ele em seu quarto e último mandato antes de
pendurar o chapéu que virou uma de suas marcas visuais – como a barba e o dedo
a menos que, por seu turno, virou símbolo da incivilidade, do desprezo e do
desrespeito atávicos àquele “sistema de pensamento” que tão perto esteve de
voltar a dar as cartas no país. O povo não o permitiu.
Sim, é uma grande
vitória política para Lula da Silva, bem como para o Partido dos Trabalhadores (PT) e para o campo
progressista.
Mas é, acima
tudo, uma vitória do respeito, dos direitos, da dignidade humana, da soberania
nacional e da democracia brasileira. É, acima de tudo, uma vitória do povo deste
país.
No dia 25 de outubro de 2026, o povo brasileiro fez História. E, em algum lugar, talvez, em meio aos escombros empilhados, o Anjo benjaminiano esteja tentando conter um indisfarçável sorriso que teima em despontar nos cantos da boca: sim, os vencidos às vezes também vencem, quando se unem e se organizam em torno de uma causa maior, mudando com a força de sua tinta o final de uma história que parecia com um desfecho já escrito.
O recado que o PT precisa ouvir; os riscos
da alternativa
O Anjo (quiçá um anjo torto) não caiu rumo ao Inferno, qual Lúcifer... Mas está longe (bem longe) de estar a habitar um Paraíso.
O governo do PT tem, e seguirá
enfrentando, gravíssimos problemas em diversas áreas cruciais para o mesmo povo
brasileiro que lhe deu uma sobrevida no poder – muito mais por rejeição e asco
ao modelo acima dissecado do que propriamente por real adesão ao partido no
poder e a seu governo. Por meio dessa caixa de ressonância chamada urna, o povo
também deu um sonoro recado endereçado ao presidente e ao PT: é preciso mudar.
É preciso
urgentemente mudar os rumos da economia, levar a sério a necessidade de um
rigoroso ajuste fiscal, comprometer-se com a redução de gastos e da dívida
pública, destravar a bomba-relógio do endividamento das famílias brasileiras.
Urge, igualmente,
assumir para si de uma vez por todas a pauta da segurança pública, endurecer a
legislação penal e aumentar o rigor no tratamento dispensado pelo Estado a quem
pratica crimes – do adolescente que comete um hediondo ao sonegador de
colarinho branco especialista em evasão de divisas.
É necessário e
urgente que o governo efetue essa autocrítica – à qual o PT e o presidente,
historicamente, são muito refratários. Irritantemente refratários.
Cumprindo nosso
dever profissional e cidadão, estaremos atentos, vigilantes e críticos.
Isso é uma coisa.
Outra coisa era a alternativa.
Por quatro anos, entre 2019 e 2022, o país foi governado por alguém cuja mentalidade é um teratológico combo de...
. preconceito em múltiplas vertentes (“O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro que ele muda o comportamento dele”);
. racismo (“O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. [...] Eu acho que nem pra procriador ele serve mais!”);
. homofobia (“Eu seria incapaz de amar um filho homossexual.. [...] Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Pra mim ele vai ter morrido mesmo”);
. sexismo (“Eu falei que não ia estuprar você porque você não merece”; “A quinta eu dei uma fraquejada, veio uma mulher”; “Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”);
. orgulhoso culto à ignorância e anti-intelectualismo (“Entrar com um lança-chamas lá no MEC para expulsar o Paulo Freire lá de dentro”);
. apologia da violência política (“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre!”);
. exaltação de outras formas de violência (“Sou capitão do Exército, minha especialidade é matar”);
. incapacidade de empatia com o próximo (“Não sou coveiro, tá?”);
. insensibilidade e deboche à dor alheia (“gripezinha”; “país de maricas”; imitação de pacientes Covid agonizando, por asfixia);
. desrespeito e incentivo ao desrespeito a quem pensa, vive, ama e se relaciona de maneira diferente (“O Brasil não pode ser o país do turismo gay. [...] Se alguém quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”);
. perseguição declarada a minorias (“As minorias se adéquam ou desaparecem!”);
. ódio patológico a adversários, tomando-os por inimigos e pregando sua aniquilação (“O erro da ditadura foi torturar e não matar!”);
. glorificação de ditaduras e ditadores (“Pinochet deveria ter matado mais gente”; “Deviam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo Fernando Henrique”);
. minimização do terrorismo de Estado (“Morreu [na ditadura] menos gente que durante o último carnaval de São Paulo”);
. defesa aberta de práticas golpistas (“Daria golpe no mesmo dia e fecharia o Congresso. Não funciona!”);
. negacionismo desastroso em áreas como meio ambiente, criminoso e catastrófico na saúde pública;
. combate aberto e declarado à ciência, à academia, à educação, aos professores e intelectuais, à cultura, aos artistas e às artes.
Tudo isso perfeitamente condensado pela emblemática cena em que o então secretário de Cultura, Roberto Alvim, emulou discurso de Goebbels, ministro da propaganda nazista. Nenhuma coincidência. Tampouco foram fortuitos os muitos gestos e símbolos vinculados à “supremacia branca” expostos por colaboradores do governo no período.
De igual modo, não é coincidência que um apoiador dessa corrente tenha levado, literalmente pela corrente, um homem negro com camisa do PT em passeata no Rio de Janeiro, no último sábado (24). Segundo ele, nada além de uma “sátira política”.
E não é coincidência que alguns bolsonaristas, país afora, estejam agora a pregar o boicote a estabelecimentos comerciais mantidos por eleitores do PT, enquanto outros, ao contrário, pertencentes a bolsonaristas, estejam anunciando que eleitores de Lula não são bem-vindos.
O Globo noticiou um advogado que propôs que se marquem com uma estrela vermelha lojas cujos proprietários tenham votado em Lula. Há alguns anos, uma famosa rede de supermercados do Espírito Santo se recusa a identificar o caixa nº 13.
Começamos estas reflexões com uma obra-de-arte. Encerremos com outra: “A vida é bela”, obra-prima de Roberto Benigni (a qual aliás custou o primeiro Oscar, por “Central do Brasil”, ao Walter Salles Jr., também diretor de “Ainda estou aqui”).
Em plena Segunda Grande Guerra, no auge do fascismo de Mussolini, Guido é um homem judeu – logo, também o seu filhinho de cinco anos, Giosuè. Marcando indelevelmente sua origem, a livraria da família foi pichada na entrada: Negozio Ebreo. Era uma “Loja de Judeus”.
Certo dia, o menino Giosuè lê o cartaz na vidraça de outra loja: Vietato l’ingresso agli ebrei e ai cani: “Proibida a entrada de judeus e cães”. Esperto, o menino recém-alfabetizado pergunta ao pai: “Por que não podemos entrar ali?”. Guido lhe inventa uma desculpa criativa, para resguardar a inocência do menino em meio ao terror, como faz ao longo de toda a trama – mesmo no campo de extermínio, ao qual os dois são mandados no mesmo dia.
O mesmo campo de extermínio, “último elo da corrente”, ao qual Primo Levi sobreviveu. No filme, o menino Giosuè também escapa, graças ao pai.
Guido consegue salvar seu filho, bem como a pureza da criança. Mas, no final, não consegue se salvar. Longe dos olhos de Giosuè, o pai herói é fuzilado pelos SS.
(“Vamoss fuzilar a petralhada...”)
1. FUKS, Julián. A resistência. São Paulo: Companhia
das Letras, 2015. A resistência ganhou o Prêmio Jabuti 2016 em
duas categorias: Romance e Livro do Ano Ficção.
2. PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de
Janeiro: Alfaguara, 2015. Em 2016, Ainda estou aqui foi homenageado no
Prêmio Jabuti na categoria Escolha do Leitor: Romance.
3. BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história
(excerto). Organização e Tradução: Adalberto Müller e Márcio
Seligmann-Silva. Notas de Márcio Seligmann-Silva. São Paulo: Editora Alameda,
2000.
4. Instituída em
1940 com a rendição dos franceses, a França de Vichy duraria até 1944. Pelos
termos do armistício firmado com a Alemanha de Hitler, o norte e o oeste da
França foram ocupados por tropas nazistas, enquanto no sul se estabeleceu uma
zona neutra. O regime de Vichy foi marcado por colaboracionismo com a Alemanha;
deportação e perseguição a judeus; exaltação (quelle surprise!) à pátria
e à família.
5. LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio.
Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo,
2005.
6. LEVI, Primo. É isto um homem?. Rio de
Janeiro: Rocco, 1988.
7. KUCINSKI, Bernardo. K.: relato de uma busca. São Paulo:
Cosac Naify, 2014. Publicado em 2012, K é um romance
autoficcional de Bernardo Kucinski, baseado na história real de Ana Rosa
Kucinski, irmã do escritor. Química (como Primo Levi) e professora da USP, Ana
Rosa militava, com seu marido, na Aliança Libertadora Nacional
(ALN), organização clandestina fundada anos antes por Carlos Marighella, após
sua expulsão do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a qual pregava a revolução
por meio da luta armada. Em 1974, Ana Rosa foi sequestrada e presa por agentes
da repressão. Teria sido levada para a Casa da Morte, centro clandestino de
tortura na cidade de Petrópolis (RJ). Para evitar a tortura, ela teria se
matado mediante a ingestão de veneno (assim como Benjamin), em sua cela. Seu
corpo jamais foi localizado.
8. PUCHEU, Alberto (Org.). Poemas para exumar a história viva:
um espectro ronda o Brasil. São Paulo: Cult Editora, 2021.
9. Marcelo Rubens Paiva relata que Jair Bolsonaro, como deputado
federal, literalmente cuspiu no busto erguido em homenagem à memória de Rubens
Paiva na Câmara dos Deputados, em Brasília (https://www.youtube.com/watch?v=1Wt70WiUJRQ), e que o então deputado do baixo clero tinha “uma fixação” pelo
pai dele.
Leia mais colunas de Vitor Vogas