Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Vitor Vogas

“Ainda estou aqui”: Benjamin, Trump, os Bolsonaro, o Anjo, a História e ecos do nazismo

E mais: Eunice, Levi e Guido. O que tais elementos têm a ver entre si? Tudo! É o que tratamos de expor neste artigo, com pitadas literárias, historiográficas, filosóficas e de reflexões sobre a literatura (e arte em geral) como forma de resistência

Publicado em 28 de Outubro de 2026 às 05:00

Públicado em 

28 out 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas

“A quem, é o que pergunto, quem se interessaria hoje por tão mesquinhos meandros de um tempo distante, e a resposta que meu pai repete é uma absurda mescla de devaneio e lucidez: as ditaduras podem voltar, você deveria saber”.


> Clique aqui e receba em primeira mão a Coluna Vitor Vogas pelo Whatsapp

 

Tal é o ensinamento do pai para o filho, Sebastián, narrador do romance A resistência, de Julián Fuks, vencedor do prêmio Jabuti em 2016 [1]. E então esse filho que se narra compartilha suas reflexões conosco: “As ditaduras podem voltar, eu sei, e sei que seus arbítrios, suas opressões, seus sofrimentos, existem das mais diversas maneiras, nos mais diversos regimes, mesmo quando uma horda de cidadãos marcha às urnas bienalmente”.

 

Há muito mais “lucidez” que “devaneio” na lição desse sábio pai, psiquiatra exilado da ditadura civil-militar argentina (1976-1983) no romance de Fuks, e também nas reflexões do filho. Provam-no os últimos 11 anos, passados desde 2015, ano da publicação da obra e do princípio da queda da então presidente Dilma Rousseff.

 

Emblemático título da narrativa de autoficção de Fuks, resistência é justamente um dos papéis cumpridos, de maneira inigualável, pela arte – a literatura, o cinema e suas mais diversas formas. Resistência, por exemplo, à violência em suas múltiplas dimensões: física, sexual, psicológica, política, econômica, simbólica. A pior de todas é aquela praticada pelo próprio Estado contra seus cidadãos, uma das principais características de regimes totalitários, em qualquer época e em qualquer lugar. Isso inclui a nossa própria ditadura civil-militar (1964-1985).

 

No dia 10 de novembro de 2024, declarou o escritor Marcelo Rubens Paiva, em entrevista ao site Metrópoles, sobre seu livro de testemunho Ainda estou aqui, também lançado em 2015 [2]: “A literatura é o testemunho dos vencidos, e nós somos os vencidos de 1970”. 


O autor dessa narrativa testemunhal, que originou o filme homônimo de Walter Salles Jr., dialoga, intencionalmente ou não, com o pensamento de Walter Benjamin (1892-1940), crítico literário e filósofo da Escola de Frankfurt.

 

Em suas teses Sobre o conceito de história [3], um dos documentos filosóficos mais importantes do século XX, Benjamin argumenta que o passado só pode ser compreendido em momentos de perigo (e quem duvida de que estejamos diante de um momento assim, no mundo inteiro, anda meio distraído, vide a Ucrânia, vide a guerra no Irã, vive o que foi feito de Gaza, vide o new big stick de Trump sobre a América Latina, querendo voltar a fazê-la backyard dos Estados Unidos – o Brasil incluído).


Benjamin defende que os historiadores devem se identificar com os vencidos e não com os vencedores. Advoga que a história deve ser reinterpretada e recontada sob o ponto de vista não dos opressores, mas dos oprimidos – donde sua revolucionária concepção de História.

 

Vale a pena citar aqui, muito sinteticamente, excertos de algumas teses capitais desse pensador radicalmente antifascista a seu tempo. 


As teses de Benjamin, notem bem, foram escritas na “meia-noite do século XX” (como diria Victor Serge), no início de 1940, pouco antes de o autor, alemão e judeu, cometer suicídio em sua malsinada fuga da França ocupada por tropas nazistas [4] (ao ser interceptado pela polícia franquista na fronteira com a Espanha) e meses antes de o Terceiro Reich pôr em marcha a Solução Final: o genocídio de judeus e ciganos nos campos de concentração e extermínio, verdadeiras “fábricas da morte”, como escreveu Primo Levi (1919-1987).

 

Para Benjamin, como lemos na oitava tese, “a tradição dos oprimidos nos ensina que a regra é o ‘estado de exceção’, no qual estamos vivendo” (isto é, no qual se vivia na Alemanha nazista e na Europa nos anos 1930, em plena expansão do Terceiro Reich). A regra, acrescento, segue valendo.

 

Já na sexta tese, Benjamin nos adverte que “nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. Por isso, alerta-nos o pensador alemão, a luta deve ser incessante; a resistência deve ser tão perene quanto o é a ameaça de incêndio.

 

Para além da marcha triunfante dos dominadores na História, impossível não relacionarmos o fragmento com a história dos desaparecidos políticos nas ditaduras civil-militares da América do Sul entre os anos 1960 e os 1980; ditaduras que matavam suas vítimas e matavam a morte de suas vítimas, vitimando duplamente tanto os homens e mulheres assassinados como os entes queridos que ficavam, por privá-los do direito ao luto e por falsear ou simplesmente apagar a história desses mortos.

 

Em Walter Benjamin: aviso de incêndio [5], o professor Michael Löwy, um dos mais lúcidos leitores de Benjamin, interpreta assim o excerto: “O historiador revolucionário sabe que a vitória do inimigo atual ameaça até os mortos […] pela falsificação ou pelo esquecimento dos seus combates. […] Do ponto de vista dos oprimidos, o passado não é uma acumulação gradual de conquistas, como na historiografia ‘progressista’, mas sobretudo uma série interminável de derrotas catastróficas”.

 

Por fim, quero citar a incontornável alegoria da nona tese, na qual Benjamin descreve o seu Anjo da História:

Sua face se volta para o passado. Lá onde nós vemos surgir uma sequência de eventos, ele vê uma catástrofe única, que incessantemente empilha escombros sobre escombros e os lança a seus pés”.

Walter Benjamin, em "Teses sobre o conceito da história" (1940)

O anjo benjaminiano é impelido para o futuro pela “tempestade do progresso”, por mais que quisesse “se demorar, despertar os mortos e reunir de novo o que foi esmagado”. A história da humanidade, em síntese, é a história da barbárie humana.

 

Para Löwy, “[…] em um certo sentido, toda a obra de Benjamin pode ser considerada como uma espécie de ‘aviso de incêndio’ dirigido a seus contemporâneos, um sino que repica e busca chamar a atenção sobre os perigos iminentes que os ameaçam, sobre as novas catástrofes que se perfilam no horizonte”. Esse aviso, vale dizer, foi dado pouco antes de Auschwitz e de Hiroshima, como a dizer a seus contemporâneos: “Atenção, isso pode acontecer”.

 

O alerta de Benjamin se confirmou imediatamente, em proporções catastróficas até então inimagináveis, nos meses seguintes à sua morte.

 

Na literatura, uma das primeiras “confirmações” do estado de barbárie a que a humanidade conseguiu chegar veio da obra seminal de Primo Levi, É isto um homem? (Se questo è un uomo) [6], narrativa testemunhal desse “sobrevivente fortuito” do Holocausto, iniciada – ao menos na concepção – em 1944, quando ele ainda estava em Auschwitz, escrita em 1946 e lançada em 1947, pouco tempo após ele ser libertado e repatriado a Turim, sua cidade natal, no noroeste da Itália, tamanha era a urgência que tinha em levar ao mundo o relato (la mala novella) do que o homem fora capaz de fazer contra o homem.

 

Nas décadas seguintes, É isto um homem? converteu-se em um clássico da literatura de testemunho em geral e, em particular, do extermínio dos judeus pelos nazistas, em escala e com rigor industrial – tanto pela pungência do relato, ao mesmo tempo belamente escrito, como pela profundidade das reflexões lançadas pelo autor. Levi foi outro “profeta”. Eis as palavras premonitórias desse grande escritor piemontês, gravadas já no prefácio/presságio da edição alemã de É isto um homem?:


“Muitos, pessoas ou povos, podem chegar a pensar, conscientemente ou não, que ‘cada estrangeiro é um inimigo’. Em geral, essa convicção jaz no fundo das almas como uma infecção latente; manifesta-se apenas em ações esporádicas e não coordenadas; não fica na origem de um sistema de pensamento. Quando isso acontece, porém, quando o dogma não enunciado se torna premissa maior de um silogismo, então, como último elo da corrente, está o Campo de Extermínio. Este é o produto de uma concepção de mundo levada às suas últimas consequências com uma lógica rigorosa.
” 


E conclui: 

Enquanto a concepção subsistir, suas consequências nos ameaçam. A história dos campos de extermínio deveria ser compreendida por todos como sinistro sinal de perigo.

Primo Levi, em "É isto um homem?" (1947)

Os grifos são meus. Levi alerta para a premissa de que “cada estrangeiro é um inimigo”. Poderíamos trocar “estrangeiro” por “cada adversário político”; por “cada divergente”; por “cada minoria”.

 

Em seu “aviso de incêndio” (Löwy), às vésperas de Auschwitz e sem poder saber de sua iminência, Benjamin estava como a advertir: “Atenção, isso pode acontecer”. Levi, em 1947, tendo passado por Auschwitz e sobrevivido ao campo de extermínio, estava como a alertar: “Atenção, isso pôde acontecer. E, ora, se pôde acontecer nessa Europa tão civilizada, pode perfeitamente se repetir a qualquer tempo e em qualquer parte do mundo”.

 

Levi sofreu e levou Auschwitz na pele (a tatuagem no antebraço com seu número de entrada no Lager) até ele mesmo cometer suicídio, 47 anos depois de Benjamin. Os respectivos textos se separam pelos sete anos que compreendem, justamente, Auschwitz, o auge da Segunda Grande Guerra, o ápice da barbárie.

 

Mas a “catástrofe única” segue empilhando escombros sobre escombros e lançando-os aos pés do Anjo da História. Tivemos aqui o AI-5. Tivemos centenas de mortos e desaparecidos; milhares de torturados, todos pelo Estado brasileiro.

 

A regra é o estado de exceção. Auschwitz e Hiroshima são os maiores símbolos da barbárie no século das catástrofes, mas poderíamos perguntar: o que foi, senão nova expressão da barbárie, a gestão da pandemia do novo coronavírus no Brasil e nossos mais de 700 mil mortos, a partir da criminosa combinação de indolência, irresponsabilidade e negacionismo por parte do governo central? O aviso segue atual. O incêndio segue queimando.

 

É preciso colocar em tela – literalmente – o recrudescimento do autoritarismo de extrema-direita no Brasil atual (o que se convencionou denominar “bolsonarismo”, por encontrar no ex-presidente sua mais bem-acabada expressão).

 

Impera refletir sobre a revitalização de um “sistema de pensamento” fundado na barbárie, que ganhou eco nas ditaduras do Cone Sul nos anos 1970 e que, em algumas de suas facetas, filia-se àquela concepção de mundo à qual Benjamin se opôs intelectualmente e de cuja mais perversa expressão prática o filósofo em vão tentou escapar. É preciso dar o devido realce à revitalização do culto à morte pelo Estado, sintetizada pela ode ao torturador Carlos Brilhante Ustra.

 

Estão aí, para quem quiser ver, as conexões ideológicas entre regimes ou movimentos políticos de extrema-direita em diferentes momentos da História, cujo sistema de pensamento parte de uma mesma matriz: o autoproclamado e autolegitimado direito de aniquilar o outro, alicerçado no que Levi definiu como a “doutrina do desprezo”, bem como uma manifesta ojeriza à democracia.

 

Impõe-se examinar a renovação da extrema-direita em nosso país e os efeitos desse fenômeno político, pois tal mentalidade, ou “sistema de pensamento”, ainda está aqui… e não pretende ir embora.

 

O deputado cassado Rubens Paiva, cujo corpo jamais foi encontrado, ainda está aqui e se faz presente, contra toda a política de desmemória praticada com afinco até hoje pelos que se empenham em matar duas vezes as vítimas da ditadura. Resistem ao que o jornalista e escritor Bernardo Kucinski, em K: relato de uma busca [7], definiu como o “mal de Alzheimer nacional” e aos que cultivam tal “enfermidade” no imaginário coletivo brasileiro.

 

Mas assim também estão os que mataram Rubens Paiva. Vivem e se fazem presentes por intermédio dos que os glorificam, dos que aplaudem os seus crimes ou, pior, juntam suas palmas à guisa de limpá-las após terem terminado o serviço, em gesto de “missão cumprida”. 

 

Essa concepção de mundo perpetua-se no transcurso da História e, nos solavancos dados por ela, está sempre ali, à espreita, de prontidão para atacar de novo. Como escreveu o poeta e pesquisador Alberto Pucheu em sua coletânea de poemas de presos políticos brasileiros, escritos nos anos 1970 [8], “um espectro ronda o Brasil”. 


Sempre pronto a pregar novos sustos, esse fantasma é o do autoritarismo, escondido nas esquinas da História. Sim, tal “sistema de pensamento” ainda está aqui… no Brasil e no mundo inteiro, a nos assombrar. É preciso estar atento e vigilante.

Ainda estão aqui

No dia 7 de novembro de 2024, entrou em cartaz comercialmente no Brasil o filme “Ainda estou aqui”, contando a história de Maria Lucrécia Eunice Facciola Paiva. Desde então, plateias do país e do mundo choraram não com Eunice, mas por Eunice, no lugar da personagem, marcada pela intransigente resistência à própria dor, por uma autocontenção imperiosa ditada pela necessidade de se fazer forte.

 

Em boa hora, enfatizando o papel da arte como forma de resistência, a adaptação do testemunho de Marcelo Rubens Paiva nos lembra (ou ensina aos incautos): “Atenção: isso pôde acontecer”.

 

Em catarse coletiva nacional, salas lotadas prantearam por aquela mulher que virou ícone da luta pela verdade, com férrea obstinação e inabalável dignidade. Uma mulher que, em poético paradoxo, termina seus dias com Alzheimer e a memória pessoal comprometida, logo ela cuja vida se confunde com o inarredável compromisso na luta contra o “mal de Alzheimer nacional”, pela preservação de uma memória coletiva tão vilipendiada [9].

 

Uma Lucrécia que, ante a dupla morte do marido, não se matou como a da Roma Antiga; optou, antes, por lutar pela vida e celebrá-la. Uma Maria e uma Clarice Eunice que prefere não chorar no solo de um Brasil no qual não pôde enterrar o marido. Uma vítima cuja dor, tão contida, jamais explode na tela.

 

Seis dias depois, vejam só, movido por incontido fanatismo, um homem-bomba achou que seria uma boa ideia explodir o Supremo Tribunal Federal (STF). E literalmente explodiu a si mesmo, em nossas telas de TV e celular. Era seguidor do ex-presidente que exalta a tortura e homenageia torturadores.

 

Poucos dias depois, vieram a conhecimento público os planos de golpe de Estado concebidos entre a vitória eleitoral de Lula em 2022 e sua posse, incluindo o projeto de assassinato do presidente eleito por agentes militares intitulados “Kids Pretos” – trama que envolveu até o candidato a vice-presidente de Bolsonaro, o terceiro Walter desta história e aquele do outro lado da História: general Walter Braga Netto.

 

A minuta do plano de assassinato foi impressa no Palácio do Planalto. Também se concebeu a morte do então vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, e a do então presidente do TSE, Alexandre de Moraes. E essa foi só uma partícula da trama. 


No dia 21 de novembro de 2024, Bolsonaro, Braga Netto e mais 35 pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal pelos crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa. Condenado no STF por esses crimes, o ex-presidente está preso desde novembro de 2025.

 

A criminosa articulação decorre da obstinação de Bolsonaro em subverter o sistema eleitoral e não acatar os resultados das urnas, princípio basilar de toda democracia, a exemplo do que fizera Donald Trump quando incitou seus adeptos mais fanatizados a invadir o Capitólio, em janeiro de 2021.

 

Aliás, parece-me ainda mais emblemático que Trump tenha sido eleito para voltar à Casa Branca dois dias antes de “Ainda estou aqui” entrar em circuito comercial no Brasil. Eis a maior personificação dessa concepção de mundo em nossos tempos, com sua xenofobia visceral e seu ódio escancarado ao “estrangeiro” (lembremos Levi), ao outro, ao adversário político, ao que difere de sua própria visão de mundo. 


Qualquer semelhança com Bolsonaro não é coincidência: “Vamos fuzilar a petralhada do Acre!”; “Ou as minorias se adéquam ou desaparecem!”

 

Idolatrado pelos Bolsonaro – agora “asilados” por ele –, Trump simboliza, ainda, a corrosão da democracia, tanto lá como cá e no mundo ocidental em geral. Independentemente de cor ideológica, ditaduras têm balizas em comum: a cassação de direitos humanos e a paulatina privação de liberdades fundamentais do indivíduo, o arbítrio e a violência de Estado contra os próprios cidadãos: “Eles podem acabar com uma cidade. Deixe-os acabar com Los Angeles. Deixe-os acabar com San Diego”, disse Trump num comício, no último dia 6, dois dias após a vitória parcial de Flávio Bolsonaro no primeiro turno no Brasil.

 

Contemporaneamente, um fenômeno global está em curso, ameaçando a democracia aqui e alhures: líderes populistas, sobretudo de extrema-direita, chegando ao poder por meio do regime democrático para, uma vez ali instalados, destruírem por dentro os mesmos mecanismos democráticos que lhes permitiram ali chegar. 


Em grande medida, Bolsonaro o ensaiou aqui. Trump o tem praticado em larga escala. Tem testado e esgarçado ao limite o tecido institucional de seu país. Ninguém pôs tão em xeque a democracia numa nação que tanto se orgulha dela. E, a despeito disso (ou talvez justamente por isso), conseguiu voltar à Casa Branca após ter sido rejeitado pelo povo estadunidense. Voltou mais forte e mais “onipotente” que nunca, graças a esse sistema democrático que ele mesmo tanto achincalhou.

 

Emblemática, ainda, a reação de alguns partidários da extrema-direita brasileira com a “volta por cima” de Trump, antevendo possíveis reflexos do fato no quintal político nacional. Infelizmente, não estavam errados: a partir da aliança da família Bolsonaro com o neofascista reinstalado no Salão Oval, passamos a amargar tarifaço atrás de tarifaço e contínuas tentativas de ingerência nos assuntos políticos e jurídicos domésticos. Agora, na contramão do mundo, Trump, Rubio e seu governo se negam a reconhecer a vitória democrática de Lula e a vontade expressada pelo povo brasileiro no último domingo (25).

 

Entreguistas e subservientes, esses aduladores de Trump são os mesmos que, sob uma pretensa “defesa da liberdade” e da “verdadeira democracia”, clamam pela volta de um regime cuja primeira vítima é sempre ela, Sua Excelência, a liberdade. Bolsonaro sempre o defendeu de maneira desbragada, sem o mínimo pudor, com o máximo ardor. Escancarou, assim, o paradoxo. É a face, em nosso país, desse sistema de pensamento que, de novo, sempre esteve aí, subjacente em nossa sociedade, esperando mais uma curva da História para dar um novo bote.

 

Sobre o AI-5, diz Marcelo Rubens Paiva em Ainda estou aqui: “É uma obra-prima da contradição. Usa a ameaça à democracia como argumento para endurecer o regime, uma aberração jurídica, incongruência em que todo regime autoritário se baseia (para defender a liberdade, precisamos acabar com ela)”. Poderíamos acrescentar: “a pretexto de ‘defender a democracia’, precisamos destruí-la por dentro”. Lembremos o que disse Flávio, em plena campanha, sobre “resgatar a democracia”, “redemocratizar o Brasil” e “mudar a Constituição”.


Esse paradoxo sempre me perturbou, como cidadão e jornalista. Diversas vezes, em meu exercício profissional, dentro das minhas limitadas possibilidades, tratei de expor a falácia, ao observar o recrudescimento desse populismo de extrema-direita no país e a ascensão de movimentos a reivindicar, por exemplo, uma “intervenção militar” pretensamente “constitucional”, eufemismo para um golpe de Estado que, nessa mistura de cinismo, delírio e engodo, encontraria guarida na própria Constituição Cidadã de 1988, como se a lei maior em que se funda nosso regime democrático abrigasse em seu texto dispositivo gerador de sua autodestruição.

 

O fenômeno, é óbvio, desaguou no 8 de janeiro de 2023, resultado de A + B: ideólogos e líderes políticos insuflando seguidores nesse sentido, e muita gente predisposta a, literalmente, atentar contra a democracia e suas instituições, crendo sinceramente estarem a “lutar por uma liberdade” que a democracia, sublinhe-se o paradoxo, ter-lhes-ia sequestrado.

 

Agora, na segunda parte da Era Trump (crendo-se mais poderoso que nunca e, mais do que nunca, aqui), essas mesmas pessoas se sentem ainda mais empoderadas e desembaraçadas para defender o que defendem. É a legitimação, pela via democrática, do autoritarismo que mina as bases dessa mesma democracia e que pode, no limite, causar a morte do regime legado a nós pelos gregos. Corrijo-me: seu suicídio.

 

Circularmente, concluo, parafraseando o personagem de Fuks em A resistência, o pai argentino fugido da barbárie em seu país: as ditaduras podem voltar… nós deveríamos saber.

 

Podem voltar sob várias formas, inclusive, eventualmente, por vontade de “uma horda de cidadãos [que] marcha às urnas bienalmente”. Exatamente como marcharam os cidadãos brasileiros, no último domingo (25) de eleições.

O histórico 25 de outubro

Impulsionado pelo susto tomado no dia 4 e pelo medo de regresso a um recente passado que ainda ecoa doloroso na memória coletiva nacional, o povo brasileiro compreendeu que o Anjo da História o colocara diante de uma encruzilhada; um teste existencial; “prova de vida” para toda a nação. 


Não era uma disputa somente de projetos de partido, de poder ou de país. Era, antes de tudo, uma escolha civilizatória. Uma decisão a tomar entre projetos de civilização. Poucas vezes tanto esteve em jogo em uma mesma eleição.

 

O povo brasileiro entendeu que de repente lhe cabia cumprir uma tarefa cívica, com profundas repercussões históricas, para o futuro do Brasil e, sem exagero, do mundo contemporâneo: erguer um muro de contenção contra o avanço do fantasma da extrema-direita no país e no planeta; dizer um grande “não, não mais, não a queremos aqui nunca mais”.

 

Renovando a esperança da (e na) humanidade, o povo brasileiro assumiu o cumprimento da missão. E o fez de maneira grandiosa. Sem fugir à luta, deu a resposta, num grito altivo e altissonante, primeiro nas redes, depois nas ruas e, finalmente, nas urnas.

 

People have spoken. So have Brazilian streets.

 

E a mensagem é uma só, iniludível: o povo brasileiro não admite ceder um palmo em conquistas políticas, sociais e civilizatórias. Nem um centímetro a menos.

 

O Brasil já não aceita voltar a ser governado por falsos messias com DNA político autoritário. Aliás, bastou a casa cair e o resultado não vir como o esperado no QG da extrema-direita para a máscara também cair e a verdadeira índole golpista tornar a se explicitar, emergindo das camadas de marketing que tão bem a camuflaram por dois meses, na primeira coletiva de imprensa do candidato derrotado – o mesmo que, dias antes, em rede nacional, jurara respeitar o resultado das urnas e a soberana vontade popular, qualquer que fosse ela. Se é que alguém acreditou...

 

Sim, a vitória no domingo foi, do ponto de vista pessoal, um monumental triunfo para o atual presidente da República. Após ter protagonizado, epicamente, a inédita virada eleitoral, Luiz Inácio Lula da Silva entra em definitivo para a galeria dos grandes líderes políticos da história deste país. Cristaliza-se como o maior líder popular desde a redemocratização e como a maior referência política da América Latina – o único brasileiro eleito quatro vezes diretamente pelas urnas, por soberana vontade do seu povo.

 

Quis o Anjo da História que sua última dança nas urnas com o eleitorado brasileiro fosse justamente a mais difícil e também a mais decisiva. Vital também tende a ser o papel global a ser desempenhado por ele em seu quarto e último mandato antes de pendurar o chapéu que virou uma de suas marcas visuais – como a barba e o dedo a menos que, por seu turno, virou símbolo da incivilidade, do desprezo e do desrespeito atávicos àquele “sistema de pensamento” que tão perto esteve de voltar a dar as cartas no país. O povo não o permitiu.

 

Sim, é uma grande vitória política para Lula da Silva, bem como para o Partido dos Trabalhadores (PT) e para o campo progressista. 

 

Mas é, acima tudo, uma vitória do respeito, dos direitos, da dignidade humana, da soberania nacional e da democracia brasileira. É, acima de tudo, uma vitória do povo deste país.

 

No dia 25 de outubro de 2026, o povo brasileiro fez História. E, em algum lugar, talvez, em meio aos escombros empilhados, o Anjo benjaminiano esteja tentando conter um indisfarçável sorriso que teima em despontar nos cantos da boca: sim, os vencidos às vezes também vencem, quando se unem e se organizam em torno de uma causa maior, mudando com a força de sua tinta o final de uma história que parecia com um desfecho já escrito. 

O recado que o PT precisa ouvir; os riscos da alternativa

O Anjo (quiçá um anjo torto) não caiu rumo ao Inferno, qual Lúcifer... Mas está longe (bem longe) de estar a habitar um Paraíso. 


O governo do PT tem, e seguirá enfrentando, gravíssimos problemas em diversas áreas cruciais para o mesmo povo brasileiro que lhe deu uma sobrevida no poder – muito mais por rejeição e asco ao modelo acima dissecado do que propriamente por real adesão ao partido no poder e a seu governo. Por meio dessa caixa de ressonância chamada urna, o povo também deu um sonoro recado endereçado ao presidente e ao PT: é preciso mudar.

 

É preciso urgentemente mudar os rumos da economia, levar a sério a necessidade de um rigoroso ajuste fiscal, comprometer-se com a redução de gastos e da dívida pública, destravar a bomba-relógio do endividamento das famílias brasileiras.

 

Urge, igualmente, assumir para si de uma vez por todas a pauta da segurança pública, endurecer a legislação penal e aumentar o rigor no tratamento dispensado pelo Estado a quem pratica crimes – do adolescente que comete um hediondo ao sonegador de colarinho branco especialista em evasão de divisas.

 

É necessário e urgente que o governo efetue essa autocrítica – à qual o PT e o presidente, historicamente, são muito refratários. Irritantemente refratários.

 

Cumprindo nosso dever profissional e cidadão, estaremos atentos, vigilantes e críticos.

 

Isso é uma coisa.

 

Outra coisa era a alternativa.

Jair, Guido e Giosuè

Por quatro anos, entre 2019 e 2022, o país foi governado por alguém cuja mentalidade é um teratológico combo de...


. preconceito em múltiplas vertentes (“O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro que ele muda o comportamento dele”);


. racismo (“O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. [...] Eu acho que nem pra procriador ele serve mais!”); 


. homofobia (“Eu seria incapaz de amar um filho homossexual.. [...] Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Pra mim ele vai ter morrido mesmo”); 


. sexismo (“Eu falei que não ia estuprar você porque você não merece”; “A quinta eu dei uma fraquejada, veio uma mulher”; “Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”); 


. orgulhoso culto à ignorância e anti-intelectualismo (“Entrar com um lança-chamas lá no MEC para expulsar o Paulo Freire lá de dentro”); 


. apologia da violência política (“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre!”); 


. exaltação de outras formas de violência (“Sou capitão do Exército, minha especialidade é matar”);


. incapacidade de empatia com o próximo (“Não sou coveiro, tá?”);


. insensibilidade e deboche à dor alheia (“gripezinha”; “país de maricas”; imitação de pacientes Covid agonizando, por asfixia);


. desrespeito e incentivo ao desrespeito a quem pensa, vive, ama e se relaciona de maneira diferente (“O Brasil não pode ser o país do turismo gay. [...] Se alguém quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”); 


. perseguição declarada a minorias (“As minorias se adéquam ou desaparecem!”); 


. ódio patológico a adversários, tomando-os por inimigos e pregando sua aniquilação (“O erro da ditadura foi torturar e não matar!”); 


. glorificação de ditaduras e ditadores (“Pinochet deveria ter matado mais gente”; “Deviam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo Fernando Henrique”); 


. minimização do terrorismo de Estado (“Morreu [na ditadura] menos gente que durante o último carnaval de São Paulo”); 


. defesa aberta de práticas golpistas (“Daria golpe no mesmo dia e fecharia o Congresso. Não funciona!”); 


. negacionismo desastroso em áreas como meio ambiente, criminoso e catastrófico na saúde pública; 


. combate aberto e declarado à ciência, à academia, à educação, aos professores e intelectuais, à cultura, aos artistas e às artes.

 

Tudo isso perfeitamente condensado pela emblemática cena em que o então secretário de Cultura, Roberto Alvim, emulou discurso de Goebbels, ministro da propaganda nazista. Nenhuma coincidência. Tampouco foram fortuitos os muitos gestos e símbolos vinculados à “supremacia branca” expostos por colaboradores do governo no período.

 

De igual modo, não é coincidência que um apoiador dessa corrente tenha levado, literalmente pela corrente, um homem negro com camisa do PT em passeata no Rio de Janeiro, no último sábado (24). Segundo ele, nada além de uma “sátira política”. 

 

E não é coincidência que alguns bolsonaristas, país afora, estejam agora a pregar o boicote a estabelecimentos comerciais mantidos por eleitores do PT, enquanto outros, ao contrário, pertencentes a bolsonaristas, estejam anunciando que eleitores de Lula não são bem-vindos.

 

O Globo noticiou um advogado que propôs que se marquem com uma estrela vermelha lojas cujos proprietários tenham votado em Lula. Há alguns anos, uma famosa rede de supermercados do Espírito Santo se recusa a identificar o caixa nº 13.

 

Começamos estas reflexões com uma obra-de-arte. Encerremos com outra: “A vida é bela”, obra-prima de Roberto Benigni (a qual aliás custou o primeiro Oscar, por “Central do Brasil”, ao Walter Salles Jr., também diretor de “Ainda estou aqui”).

 

Em plena Segunda Grande Guerra, no auge do fascismo de Mussolini, Guido é um homem judeu – logo, também o seu filhinho de cinco anos, Giosuè. Marcando indelevelmente sua origem, a livraria da família foi pichada na entrada: Negozio Ebreo. Era uma “Loja de Judeus”.

 

Certo dia, o menino Giosuè lê o cartaz na vidraça de outra loja: Vietato l’ingresso agli ebrei e ai cani: “Proibida a entrada de judeus e cães”. Esperto, o menino recém-alfabetizado pergunta ao pai: “Por que não podemos entrar ali?”. Guido lhe inventa uma desculpa criativa, para resguardar a inocência do menino em meio ao terror, como faz ao longo de toda a trama – mesmo no campo de extermínio, ao qual os dois são mandados no mesmo dia.

 

O mesmo campo de extermínio, “último elo da corrente”, ao qual Primo Levi sobreviveu. No filme, o menino Giosuè também escapa, graças ao pai.

 

Guido consegue salvar seu filho, bem como a pureza da criança. Mas, no final, não consegue se salvar. Longe dos olhos de Giosuè, o pai herói é fuzilado pelos SS.

 

(“Vamoss fuzilar a petralhada...”)

Referências

1. FUKS, Julián. A resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. A resistência ganhou o Prêmio Jabuti 2016 em duas categorias: Romance e Livro do Ano Ficção.

 

2. PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2015. Em 2016, Ainda estou aqui foi homenageado no Prêmio Jabuti na categoria Escolha do Leitor: Romance.

 

3. BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história (excerto). Organização e Tradução: Adalberto Müller e Márcio Seligmann-Silva. Notas de Márcio Seligmann-Silva. São Paulo: Editora Alameda, 2000.

 

4. Instituída em 1940 com a rendição dos franceses, a França de Vichy duraria até 1944. Pelos termos do armistício firmado com a Alemanha de Hitler, o norte e o oeste da França foram ocupados por tropas nazistas, enquanto no sul se estabeleceu uma zona neutra. O regime de Vichy foi marcado por colaboracionismo com a Alemanha; deportação e perseguição a judeus; exaltação (quelle surprise!) à pátria e à família.

 

5. LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio. Uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo: Boitempo, 2005.

 

6. LEVI, Primo. É isto um homem?. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. 

 

7. KUCINSKI, Bernardo. K.: relato de uma busca. São Paulo: Cosac Naify, 2014. Publicado em 2012, K é um romance autoficcional de Bernardo Kucinski, baseado na história real de Ana Rosa Kucinski, irmã do escritor. Química (como Primo Levi) e professora da USP, Ana Rosa militava, com seu marido, na Aliança Libertadora Nacional (ALN), organização clandestina fundada anos antes por Carlos Marighella, após sua expulsão do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a qual pregava a revolução por meio da luta armada. Em 1974, Ana Rosa foi sequestrada e presa por agentes da repressão. Teria sido levada para a Casa da Morte, centro clandestino de tortura na cidade de Petrópolis (RJ). Para evitar a tortura, ela teria se matado mediante a ingestão de veneno (assim como Benjamin), em sua cela. Seu corpo jamais foi localizado.

 

8. PUCHEU, Alberto (Org.). Poemas para exumar a história viva: um espectro ronda o Brasil. São Paulo: Cult Editora, 2021.

 

9. Marcelo Rubens Paiva relata que Jair Bolsonaro, como deputado federal, literalmente cuspiu no busto erguido em homenagem à memória de Rubens Paiva na Câmara dos Deputados, em Brasília (https://www.youtube.com/watch?v=1Wt70WiUJRQ), e que o então deputado do baixo clero tinha “uma fixação” pelo pai dele.

Leia mais colunas de Vitor Vogas

“Ainda estou aqui”: Benjamin, Trump, os Bolsonaro, o Anjo, a História e ecos do nazismo

Aliado de Arnaldinho Borgo rompe de vez com o prefeito

ES elege o primeiro governador declaradamente de direita desde a redemocratização

O segundo grande desafio político de Pazolini como governador

O primeiro grande desafio político de Pazolini como governador eleito

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Ciclovia na Avenida Rio Branco é um exemplo de acupuntura urbana
Mais ciclovias e integração devem ser um caminho sem volta na Grande Vitória
Imagem de destaque
Tarot do dia: previsão para os 12 signos em 28/10/2026
Cacá Teixeira, Ricardo Vieira, Betty Feliz, Vitor Biazutti, Clóvis Castello, Tarcisio Faustini e Tasso Lugon
Clube da Música comemora 10 anos com festa em Vitória

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados

Fale com a gente

Escolha o canal de sua preferência para assinar A Gazeta ou tirar dúvidas.