Durante os últimos oito anos, Renato
Casagrande (PSB) e Lorenzo Pazolini (Rep) estiveram em lados opostos na
política capixaba. Mantiveram desentendimentos públicos e nos bastidores, com
direito a ação judicial e inquérito na Polícia Federal.
Agora, quiseram as urnas (ou melhor, os
eleitores capixabas) que, a partir de fevereiro, eles passem a ocupar posições
diferentes, mas mantendo elevado destaque: no dia 6 de janeiro, Pazolini, o
governador eleito, se sentará à cadeira ocupada por Casagrande por quase 11
anos, entre 2011 e o último mês de abril; Casagrande, por sua vez, voltará ao
Senado a partir de 1º de fevereiro. Os dois estarão em posições mais que estratégicas
para o desenvolvimento do Estado.
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Politicamente, deverão seguir sendo adversários.
Mas uma mínima relação entre eles, republicana e produtiva, pode ser fundamental
para os interesses do Espírito Santo. Afinal, o Estado depende de investimentos
federais em muitas áreas, sobretudo logísticas. E, em que pese sua consagração
nas urnas, um “detalhe grandão” saiu fora do script da campanha de Pazolini no domingo: a vitória de Lula (PT) sobre
Flávio Bolsonaro (PL), apoiado pelo ex-prefeito de Vitória.
Os dois outros senadores da próxima bancada
capixaba, Magno Malta (PL) e Evair de Melo (Rep), são aliados de Pazolini, mas
serão personae non gratae no próximo
governo Lula, ao qual fazem e farão oposição. O governo Pazolini iniciará seus
trabalhos com zero articulação com o governo central do PT.
É uma ponte que precisará ser construída desde
o primeiro tijolinho. E quem estará em melhor posição para ajudar o governo
nessa tarefa senão Casagrande, que terá passe livre no Planalto? Pois é.
Por isso, na entrevista a seguir, perguntamos
a Casagrande qual é a natureza da relação que ele pretende estabelecer com o
sucessor de seu sucessor, Ricardo Ferraço (MDB). Casagrande se coloca à inteira
disposição para ajudar “o Espírito Santo”, o que inclui o Governo do Estado.
Sublinha, porém, uma condição.
“O que não pode é as pessoas acharem que o Espírito
Santo será descoberto no dia 5 de janeiro de 2027. O Espírito Santos já existe.
[...] Que seja respeitado tudo aquilo que nós fizemos nesse tempo em que
estivemos à frente do governo, naturalmente. [...] Sendo respeitado, abre
caminhos para relações institucionais.”
Leia a entrevista:
Da
sua parte, como será o relacionamento político, durante seu mandato no Senado,
com o próximo governador do ES, Lorenzo Pazolini? Haverá diálogo institucional?
O senhor buscará estabelecer essa interlocução, ou caberá ao próximo governo e
governador construir isso junto ao seu mandato?
Geralmente, a iniciativa da interlocução com a
bancada é iniciativa do governador. Eu já fui governador, e a gente sempre
buscou a interlocução com a bancada.
Eu, como senador do Brasil representando o
Espírito Santo, estou à disposição e estarei sempre à disposição para colaborar
com o Espírito Santo, independente de quem quer que seja o governador.
Naturalmente, eu já fiquei no governo nesses últimos mais de sete anos, e o
governador eleito foi prefeito nesses últimos cinco anos e pouco. Ele, como
prefeito, não buscou interlocução com o Governo do Estado.
O histórico dele não é um histórico de buscar a interlocução comigo. Mas eu, naturalmente, pela minha história, pelas minhas tarefas, estarei, sim, à disposição para poder colaborar naquilo que eu puder colaborar com o Espírito Santo, pois é meu dever fazer isso.
Renato Casagrande (PSB), senador eleito e ex-governador
A minha colaboração com o Espírito Santo
acontecerá independente até do governador querer interlocução ou não.
O senhor disse que ele, como prefeito de Vitória, nunca buscou essa
interlocução, mas a recíproca é verdadeira? Ou o senhor e seu governo procuraram
essa interlocução? Tomaram a iniciativa de convidá-lo e de buscar isso?
Nós tentamos convite para as solenidades, para
os eventos, para as reuniões, mas nunca teve muito interesse por parte do
município em fazer essa interlocução. A gente teve muitas dificuldades em
diversos assuntos que a gente tratava, seja de obra, licença de obra,
autorização para fazer permuta de servidores. Então, é uma coisa que passou. Eu
não quero ficar agarrado naquilo que passou.
Eu estou à disposição. Estou falando esse
assunto para poder falar do futuro. No futuro, eu estarei inteiramente à disposição.
Então vamos para a frente pensando justamente nesse futuro... desde que aquilo
que eu liderei no Estado e que hoje o Ricardo Ferraço lidera seja reconhecido.
Reconhecido em que sentido?
O que não pode é as pessoas acharem que o Espírito
Santo será descoberto no dia 5 de janeiro de 2027. O Espírito Santos já existe.
O que o senhor espera, especificamente?
Que seja respeitado tudo aquilo que nós
fizemos nesse tempo nosso, em que estivemos à frente do governo, naturalmente.
Renato Casagrande (PSB), senador eleito e ex-governador
Ou seja, o reconhecimento dos créditos, dos méritos?
Não é crédito nem mérito. Tem que ser
reconhecido para não parecer que o Estado será descoberto a partir de 6 de
janeiro de 2027. Então não quero mérito, nem quero elogio de ninguém, não estou
pedindo isso.
Estou dizendo o seguinte: que nós cumprimos
uma tarefa no Estado, que o Ricardo Ferraço vai dar sequência a ela, que é uma
tarefa que produziu muitos resultados positivos para a sociedade capixaba. Isso
tem que ser respeitado. E, sendo respeitado, abre caminhos para relações
institucionais.
A partir de fevereiro, a bancada capixaba no Senado terá, além do
senhor, os senadores Magno Malta e Evair de Melo. Estes dois atualmente fazem
oposição ao governo Lula e assim devem se manter no próximo governo. O senhor,
ao contrário, é líder regional e nacional do PSB, aliado do governo do PT. Não
é preciso ser brilhante para inferir que o senhor terá, junto ao próximo
governo Lula, canal direto e abertura bem maior que os seus dois futuros
colegas de bancada. O senhor pretende colocar essa “abertura bem maior” à disposição
do próximo Governo do Estado?
À disposição do Espírito Santo, querendo o
governo ou não. A minha interlocução com o Governo Federal, que nós temos, está
à disposição do Espírito Santo. Está à disposição
do governo, está à disposição das entidades, da sociedade capixaba. Os
parlamentares que estiveram no projeto do presidente Lula também vão poder
ajudar nesse trabalho.
Então, sim, está à disposição do Espírito
Santo, incluindo o Espírito Santo, o Governo do Estado, as prefeituras
municipais, as câmaras de vereadores, a Assembleia Legislativa. Estou
inteiramente à disposição para colaborar nessa interlocução com o Governo Federal.
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